Especiarias conquistam os manauaras

Em Manaus, o comércio de produtos árabes se concentra na região da Igreja Nossa Senhora dos Remédios, no Centro Histórico de Manaus. Espalhadas entre as ruas dos Barés, Barão de São Domingos, Travessa Tabelião Lessa e Rocha dos Santos podemos encontrar lojas repletas de plantas e especiarias típicas do ‘Mundo Árabe’. Esses temperos estão, definitivamente, incorporados na culinária ocidental. A história registra que essas mercadorias valiam quase que seu peso em ouro e deram origem às grandes navegações nos séculos 15 e 16.
A mercearia Pare & Leve, instalada há quase duas décadas na rua Rocha dos Santos nº 95, Centro, zona Sul de Manaus, especializada em produtos naturais e integrais, mantém em suas prateleiras algumas das especiarias mais procuradas pelos apreciadores da culinária árabe. São temperos para kibe, zattar, kümmel, pimenta-da-Jamaica, molho de gergelim vendidos a granel, além das iguarias como halawi da marca Istambul, tâmaras e damascos desidratados (com ou sem caroço) também comercializadas à granel.
No mundo virtual, o Armazém de Especiarias, um blog que fala desses ingredientes transformadores, dá algumas dicas: o tempero sírio ou pimenta-síria é uma mistura ou um mix de especiarias, muito utilizado em diversos pratos árabes. É conhecido pelos nomes ba-har ou bahar. “A pimenta-síria tem um gosto perfumado, levemente adocicado, suave”, destaca a jornalista Raquel Consorte, colaboradora do blog.
Segundo Raquel, por ser um mix, o tempero sírio ganha várias configurações, entre elas, utilizar 2 colheres de sopa de pimenta síria ou Jamaica, 1 colher de chá de cravo-da-índia em pó, 1 colher de chá de canela em pó, 1/2 colher de chá de noz-moscada ralada. Outra composição: aroma de quibe, noz-moscada, louro, cebolinha, glutamato, canela, salsa, pimenta-preta, páprica doce, menta, endro dill.
Outra, mais simplificada: pimenta-do-reino, pimenta-da-Jamaica, canela, cravo e noz-moscada. Opção mais simples: canela em pó, cravo em pó, pimenta, noz-moscada. E, mais uma: pimenta-da-Jamaica, pimenta-do-reino branca, canela, cravo, gengibre, noz-moscada e cardamomo. “Sempre depende do chef e sua criatividade”, observou Raquel.
Como tempero é muito usado em receitas de quibes, kaftas, em vários pratos de carne e vegetais sírio-libaneses e do Oriente Médio. Ele também combina muito bem com frango, pães e grande gama de doces, como pudins, bolos de especiarias e biscoitos. “Harmoniza bem com cordeiro, queijos, arroz, vegetais, cogumelos, sopas, quibe de berinjela. É importante usar sempre uma quantidade pequena para não ficar muito forte e “apagar” o sabor do prato”, alertou Raquel.

Mito ou verdade
Diante de tantas opções de especiarias, com aromas e sabores marcantes, surge uma curiosidade: o uso do tempero sírio faz bem à saúde e emagrece? Mas, no quesito emagrecer é sempre bom entender os motivos: características da especiaria, comportamento pessoal e reeducação alimentar.
Os pesquisadores da Faculdade de Medicina da Harvard (EUA) nos ajudam a entender a relação saúde e tempero sírio. Eles afirmam que as pimentas contêm uma substância chamada capsaicina, capaz de prevenir o acúmulo de gordura abdominal.
Os mesmos estudos mostram que as pimentas são termogênicos naturais: sua ingestão eleva a temperatura do organismo, o que pode aumentar o gasto calórico. Os resultados destas pesquisas foram publicados no periódico Digestive Diseases and Sciences.
Já o nutrólogo Roberto Navarro, da Associação Brasileira de Nutrologia, afirma que a capsaicina também possui um efeito anti-inflamatório, auxiliando no tratamento de infecções. “O cravo-da-índia é um potente antioxidante, combatendo os radicais livres e prevenindo o envelhecimento”, completou sua preleção.

Como tudo começou

Antes de os portugueses se lançarem ao mar para buscarem especiarias diretamente na fonte, eram os árabes que dominavam esse mercado e escondiam, a sete chaves, o trajeto de suas rotas. Beneficiados pela ótima localização geográfica, suas embarcações saiam da Península da Arábia e navegavam sem problemas pelo Mediterrâneo e pelos mares asiáticos, chegando à África Oriental e ao Extremo Oriente. Os árabes também cultivavam algumas especiarias para serem comercializadas, como o café da Etiópia.
Durante suas expedições espalharam alguns costumes culturais e gastronômicos por onde passaram. Naquela época, por exemplo, eles levaram a cana-de-açúcar ao Egito e ao restante do norte da África. Além de percorrer caminhos marítimos em busca de especiarias, os árabes viajavam por terra até a China, a Pérsia (atual Irã) e a Indonésia atrás de seus raros produtos.
No século 12, Veneza entrou com força no mercado das especiarias e logo levou seus navios pelo Mar Negro e construiu armazéns pelo Mediterrâneo Oriental. Nesse período, os europeus contavam com os contrabandistas que se lançavam sozinhos para o Oriente Médio para pegar especiarias e conseguir os produtos com preços mais baixos, pois as especiarias já eram indispensáveis na vida dos europeus que as usavam na culinária, na medicina e em ritos religiosos.
Segundo o advogado, tributarista, poeta e acadêmico Gaitano Antonaccio, manauara da gema, apesar do nome italiano, publicou interessante estudo: “A Colônia Árabe no Amazonas”, onde ele relata que no final do século 19, os imigrantes sírio-libaneses, “árabes” dominaram o comércio do Estado como regatões, pelos rios, Amazonas, Solimões, Purus, Juruá, Madeira, dentre tantos outros rios. Este fato ocorreu no período de 1895 até 1930.

Mundo Árabe

O “Mundo Árabe” compreende um conjunto de Regiões que cobrem o Norte da África, a Península Arábica e o Próximo Oriente, ambas na Ásia. Estas Regiões têm em comum uma cultura Árabe dominante. Globalmente falando, o “Mundo Árabe” é formado por 22 países: Arábia Saudita, Argélia, Bahrain, Comores, Djibouti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iémen, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Mauritânia, Marrocos, Omã, Palestina, Qatar, Somália, Sudão, Síria e Tunísia.
Na economia, existe uma predominância voltada para a exploração de petróleo neste bloco. No entanto, alguns países desgastados pela guerra civil, buscam diversificar sua economia. Outros apostam no turismo, mas foi o comércio de especiarias que muitos deles conquistaram o resto do mundo. Comores, por exemplo, exporta baunilha, ylang ylang, cravo-da-índia e copra.
O Sudão além de exportar petróleo e derivados, diversificou com algodão, gergelim, amendoim, açúcar, goma arábica e animais vivos. Já no Marrocos existem indústrias de roupas e têxteis, componentes elétricos como os transístores, produtos químicos inorgânicos, minerais brutos, fertilizantes (incluindo fosfatos), produtos derivados de petróleo, frutas cítricas, legumes, peixe.

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