Espaços informais de aprendizagem

Muita gente diz que se vive a era da informação. Talvez isso ainda seja verdade, mas o que prenuncia é o avanço para além da informação, adentrando provavelmente outra era: a da aprendizagem. Ainda há a preocupação, ao que tudo indica, da geração e difusão do maior número possível de informações, ainda que quase não haja preocupação com a qualidade dessa profusão e especialmente com a sua precisão. Ainda predominam informações geradas com base no achismo, opiniões extremamente subjetivas até propagadas como científicas ou filosóficas. Mas já se prenuncia um início de preocupação com o aprendizado, que é não apenas a retenção de informações, mas acima de tudo retrabalhá-las e transformá-las em novos conhecimentos e cursos práticos de ação. E os espaços informais de aprendizagem têm muito colaborado neste sentido. Mas o que são espaços informais? Este é o objetivo deste texto: explicar esses tipos difusos de espaços de aprendizagem.

A literatura científica denomina espaços informais de aprendizagem como aquele que não é planejado de forma profissional ou pelo menos não é tão estruturado quanto os espaços formais e não formais. Isso parece meio complicado de entender, mas não é. Vamos começar entendendo o termo “forma profissional”, que significa o emprego de procedimentos e instrumentos técnicos de educação, tais como técnicas formativas, conteúdos programáticos, objetivos geral e específicos de aprendizagem, estratégias de ensino, estratégias de aprendizado, sistema de avaliação, esquema de recuperação de aprendizagem e inúmeros outros aspectos que são (ou deveriam ser) devida e meticulosamente planejados nos espaços formais e não formais de aprendizagem por profissionais especializados. Isso não acontece nos espaços informais.

Certa organização industrial amazônica detectou inúmeros problemas logísticos nas suas operações, o que lhe causou, em dois anos, aproximadamente cinco milhões de dólares em prejuízos. Seus engenheiros de produção detectaram as causas do problema e elaboraram um esquema de enfrentamento que previa, dentre outras ações, a capacitação profissional de cerca de mil trabalhadores do setor de logística. Os próprios engenheiros elaboraram e implementaram o plano de capacitação, realizado nos próprios ambientes de trabalho, cujos resultados praticamente eliminaram os problemas do setor. Como forma de bonificação pelo desempenho, a empresa distribuiu metade do dinheiro que não perdeu, graças ao treinamento realizado, aos seus funcionários e viu sua eficiência aumentar em cerca de 180% apenas no primeiro ano após a capacitação.

Para a realização dessa capacitação, os engenheiros escolheram quatro ambientes da fábrica (armazenagem, expedição, controle de qualidade e transbordo), utilizaram os próprios equipamentos que cotidianamente são utilizados pelos operadores, assim como os softwares de operação, de maneira que o que tinha sido programado para ser ensinado o fosse em situação normal de trabalho. Aqueles quatro setores da fábrica se transformaram nas grandes salas de aula para que a aprendizagem pudesse acontecer. Esses quatro espaços se transformaram, portanto, nos ambientes da aprendizagem pretendida. Tudo isso, do ponto de vista da ciência da aprendizagem, compôs o que é chamado de ambiente informal.

Vejamos o que fez a informalidade desses espaços de aprendizagem. Os quatro ambientes não foram planejados por especialistas da aprendizagem exclusivamente para proporcionar aprendizagem; pelo contrário, foram planejados por especialistas industriais para gerar armazenagem, expedição, controlar a qualidade e fazer o transbordo de materiais. Instrumentos e equipamentos de ensino, por exemplo, tiveram que ser improvisados naquele ambiente, que não tinha onde colocar um quadro negro, por exemplo, razão por que foram utilizadas folhas soltas para anotações. Aliás, tudo o mais naquele ambiente foi devidamente improvisado porque ele não foi planejado para o ensino, mas para a produção de peças automotivas.

Assim como essa fábrica se improvisou para produzir a aprendizagem de seus funcionários, milhões de organizações em todo o mundo improvisam também para produzir as aprendizagens de que necessitam. Associações comunitárias, grupos de pessoas, pessoas individualmente, equipes de trabalho, grupos de organizações, dentre outros inúmeros formatos associativos, produzem aprendizagem todos os dias. E praticamente todas elas o fazem de maneira informal, segundo a catalogação da ciência.

Grupos de vendedores de ruas são ensinados em técnicas de vendas, assim como catadores de papel adquirem conhecimentos sobre técnicas de reciclagem; grupos de alunos se reúnem para estudar, da mesma forma que equipes de gerentes se planejam a aquisição de conhecimentos. Isso acontece todos os dias. Mas, ainda que ocorra todos os dias, são planejadas e executadas em ambientes que não foram devidamente planejados e estruturados para a aprendizagem. Isso quer dizer que, na prática, diversos tipos de ambientes são improvisados, adaptados, transformados, em ambientes um pouco parecidos com os não formais e formais, mas que nem por isso perde em eficiência (funcionar bem) e eficácia (alcançar o objetivo) de aprendizagem.

Os espaços informais de aprendizagem têm se multiplicado por todo o mundo. Estão presentes, inclusive e principalmente, nos próprios espaços formais. A razão disso é, primeiro, a necessidade de aprendizagem, de aprender coisas que sejam úteis para compreender e lidar com as novas realidades que surgem a cada dia; e segundo, porque os espaços onde ocorrem não são planejados e estruturados profissionalmente. O que caracteriza a diferenciação entre os espaços não formais e os informais é simplesmente a dimensão profissional que não se encontra nestes últimos, que carecem da fundamentação de especialistas em educação e aprendizagem. Como cada vez mais a aprendizagem se torna necessária, é provável que os espaços informais de aprendizagem se multipliquem ainda mais.

* é PhD, professor e pesquisador do Ifam (Instituto Federal do Amazonas) (Ifam) – [email protected]

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