Definitivamente, esgoto é coisa de rico. E aqui, entende-se rico não apenas pelo aspecto financeiro, de endinheiro, mas, sobretudo, por rico de idéias, de vivência, de cultura e de respeito ao meio ambiente. Tome-se o exemplo de Manaus. A capital do Amazonas é sempre lembrada por ser a quarta cidade mais rica do Brasil e, no entanto, apenas 10,67% de seus moradores têm alguma coisa parecida com coleta de águas servidas. O restante da população faz dos igarapés e das ruas sua própria rede de esgoto. O resultado disso é a morte dos igarapés que cortam a cidade, transformados em esgoto a céu aberto não apenas por casebres edificados em suas margens, mas também pelos condomínios de luxo, que despejam seus dejetos, de ricos, diretamente nos cursos de águas.

Esta realidade é a prova cabal de nossa tragédia urbana porque, segundo a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), a falta de coleta e tratamento das águas servidas são a principal causa de mortalidade infantil entre crianças de zero a cinco anos. Ainda conforme dados fornecidos pela Funasa, no Brasil morrem sete crianças todos os dias em conseqüência de diarréia que somam, em um ano, 2,5 mil vítimas de doenças que proliferam em áreas sem saneamento básico. É esta exclusão sanitária que mais compromete o futuro do país, uma vez que destrói o meio ambiente, mina a capacidade física de seus habitantes, empobrece ainda mais as periferias e coloca no chão nosso índice de qualidade de vida.

Números aterradores assim nos fazem descrer do alcance social do Prosamin, programa do governo estadual tido como o maior projeto urbanístico e ecológico do Brasil, de acordo com a propaganda oficial. Até porque o Amazonas, entre os estados da Região Norte, foi o único que teve reduzido seu índice de cobertura de rede esgoto para a população. Dados apresentados pelo Instituto Trata Brasil, com base em estudos da Fundação Getúlio Vargas, apontam que, em 1992, cerca de 6,9% dos amazonenses tinham acesso a rede de esgoto, número que já apontava para um total desleixo do poder público para com a questão. E, no entanto, o que já era péssimo, piorou. Em 2006, este percentual foi reduzido para 3,9% da população atendida com rede de esgoto, uma tragédia inominável para um estado que orgulha-se de ter 98% de cobertura florestal preservada.

Olhando para os números da coleta de esgoto no Estado, percebe-se que não é apenas a economia do interior do Amazonas que encontra-se estagnada, mas também os investimentos em saneamento básico. O presidente da AAM (Associação Amazonense dos Municípios), Anderson Souza, diz que somente cinco, dos 61 municípios do interior, têm algum sistema de coleta e tratamento de esgoto.

Nos demais, as águas servidas são despejadas diretamente nos rios, sem quaisquer medidas que visem diminuir o impacto dessa agressão ao meio ambiente. Como a maioria das cidades do interior amazonense se constitui de pequenas aglomerações urbanas, o impacto ambiental não se faz sentir com intensidade. Mas em uma metrópole como Manaus, com seus 1,7 milhão de habitantes, a falta de uma política urbanística e a construção de rede de tratamento de esgoto resulta em igarapés mortos e, na orla do rio Negro, em águas impróprias para o banho.

A falta de investimento em saneamento básico é uma política errática, porque assim o poder público mata a galinha dos ovos de ouro de nossa região, que é a maior reserva de água doce do planeta fora dos pólos. Como qualquer um sabe, água potável será um dos recursos mais difíceis de obter no futuro próximo. Aqui, nós a temos em abundância, tanto que, mesmo sem uma política de saneamento básico, o impacto ambiental é desconsiderado.

Apenas em Manaus o efeito da agressão ao meio ambiente causado pela falta de tratamento das águas servidas causa algum problema. Diferente das demais cidades do interior onde o problema passa despercebido. Os rios da Amazônia, com seus caudais imensos e suas correntezas poderosas revolvem toda a sujeira lançada em seus leitos.

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