“Escrever não é uma tarefa fácil”, diz Odenildo Sena

Acabou de ser lançado pela Editora Valer o mais novo livro do professor Odenildo Sena, ‘Aprendiz de escritor: sobre livros, leituras e escritos’.

“A leitura deste livro, pela sua escrita bem trabalhada, bem-humorada e pelo conhecimento que nos traz de grandes autores, é uma inspiração para nós que acreditamos na força transformadora da palavra”, escreveu Neiza Teixeira, coordenadora editorial da Valer.

‘Aprendiz de escritor: sobre livros, leituras e escritos’ é nova obra do amazonense

De Portugal, onde mora, Odenildo Sena falou ao Jornal do Commercio sobre o novo livro e sua paixão pela boa escrita.    

Jornal do Commercio: Seu livro ‘A engenharia do texto: o caminho rumo à boa redação’, e este, lançado agora, ‘Aprendiz de escritor: sobre livros, leituras e escritos’ são sobre a arte do bem escrever. Por que é importante que saibamos escrever corretamente? 

Odenildo Sena: Não diria escrever ‘corretamente’, porque isso é apenas um detalhe, embora importante. Um texto pode ter sido escrito ‘corretamente’ do início ao fim e ser um péssimo texto. Portanto não é apenas a questão de correção gramatical que define um texto de qualidade. Ao lado disso, escrever bem, de tal modo a se fazer compreender e ganhar o leitor, é uma questão de prerrogativa de poder, de convencimento, de persuasão, de sedução. 

JC: Qual a diferença de ‘A engenharia do texto’ para ‘Aprendiz de escritor’? Ou um completa o outro?

OS: ‘A engenharia do texto’ se caracteriza por ser um livro com forte componente didático e que tem por propósito conseguir com que o leitor vença as dificuldades iniciais para organizar as ideias no papel ou na tela do computador e consiga escrever um bom texto que eu chamo de padrão: com unidade, com lógica, coesão e coerência. Já o ‘Aprendiz de escritor’ vai muito além, pois aborda a experiência de grandes escritores com a criação de textos literários e foca na minha própria experiência como aprendiz de escritor. Neste sentido, eu diria que ‘Aprendiz de escritor’ complementa ‘A engenharia do texto’. 

JC: O Sr. acha que, no geral, as pessoas estão escrevendo cada vez pior, ou evoluindo com o passar do tempo?

OS: No geral, eu penso que as pessoas têm enormes dificuldades para expressar suas ideias por meio da expressão escrita. Mesmo porque escrever, como eu sempre repito, não é uma tarefa fácil nem prazerosa, porque se trata de um trabalho intelectual que exige uma aprendizagem constante, passa pela necessidade de ser um bom leitor, de conhecer e entender estruturas básicas de um texto e, sobretudo, de prática permanente. E não são muitos que se dispõem a enfrentar esses desafios. 

JC: Se pegarmos um texto jornalístico de há cem anos, chega a ter parágrafos que não conseguimos entender. Era outro linguajar. Como explica isso? 

OS: Um texto, seja jornalístico ou não, sempre estará a refletir a época em que foi escrito, afinal a língua não é um fenômeno estático. Embora pouco a gente se dê conta, ela está sempre em evolução, e seus usos, sobretudo as formas de dizer e os sentidos das palavras, vão se ajustando a cada momento histórico. Um texto jornalístico escrito hoje, por exemplo, exige elementos mais factuais, muito mais impacto, objetividade e parágrafos curtos, para atender as características do leitor atual, sempre disputado em meio a um mundo que transborda de informações e fake news.

JC: As palavras que vão sendo deixadas de ser faladas, geração após geração, morrem? 

OS: Às vezes, sim. Às vezes, não. As palavras também acompanham a evolução do mundo, das coisas, das inovações tecnológicas, dos costumes de uma dada sociedade. Por exemplo, a expressão ‘caneta tinteiro’ não tem mais nenhuma razão de existir, depois que a palavra ‘esferográfica’ ocupou o seu lugar. Há, por outro lado, palavras que ressurgem com novos sentidos. ‘Jornalismo’ é um bom exemplo disso. Os avanços nas tecnologias da informação, por exemplo, fizeram surgir um novo mundo de palavras e sentidos que não existiam antes. Enfim, as palavras e seus diversos sentidos resultam de convenções tácitas entre os falantes da língua, por isso estão em permanentes mudanças.

JC: Os jovens de hoje têm preguiça de escrever, ainda mais agora, com a internet, reduzindo palavras a algumas letras (vc, pfv, blz, ok, ta)? 

OS: Pessoalmente não aprecio esses recursos, por considerá-los desnecessários e até prejudiciais ao aprimoramento da escrita. Utilizo-me das redes sociais, Facebook, Instagram, Twitter, e nem por isso preciso abreviar nada. O Twitter, por exemplo, que limita o texto a 280 caracteres, é uma boa plataforma para, sem abreviaturas, exercitarmos o nosso poder de síntese.

JC: Escrever bem e corretamente é para qualquer pessoa?

OS: Com certeza! É o que eu procuro mostrar em meus livros ‘A engenharia do texto’ e, agora, em ‘Aprendiz de escritor’.  Mas escrever bem exige um duro trabalho de aprendizagem que passa por muita leitura, muita prática, teimosia e determinação. Passa, acima de tudo, pela compreensão de que quem quer escrever bem deve estar ciente de que será um eterno aprendiz de escritor, daí o título do meu livro mais recente.

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