ENTREVISTA José Geraldo dos Anjos,

O historiador José Geraldo dos Anjos, secretário geral do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e membro da Academia Amazonense de Letras, acrescentou um pouco mais de informações ao passado do “Jornal do Commercio” e sobre os jornais que deram início à imprensa escrita no Amazonas, resultado das incursões que ele realiza há décadas nas coleções de jornais arquivadas no IGHA.

Jornal do Commercio – Por que tão logo a província do Amazonas foi criada veio junto com o presidente João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha o maquinário para imprimir o primeiro jornal de Manaus?
Geraldo dos Anjos – A província do Amazonas foi criada em 1850 e o presidente Tenreiro Aranha começou a organizar seu staff para vir trabalhar na nova província, convidando Manoel da Silva Ramos para implantar a imprensa na nova província. Silva Ramos fez circular o primeiro jornal no dia 3 de maio de 1851 com o título de “Cinco de Setembro”. Quando foi instalada a província, em 1852, o titulo do jornal foi mudado para “Estrella do Amazonas”, então o maquinário da imprensa já estava em nossa província antes de 1852, mostrando a importância que esse tipo de comunicação tinha para os governantes.

JC – Na realidade o jornal não passava de duas folhas, ¼ do atual tamanho standard, mas era o que de mais moderno existia naquele momento. O que continha então?
Geraldo – O “Estrella do Amazonas” foi importante para a divulgação dos atos do presidente da província. Era constituído de decretos, leis, propaganda comercial e notícias da cidade.
Até o final do século 19, surgiram outros jornais em Manaus, mas a população pouco falava o português e muitos sequer sabiam ler.
Em 1866 Silva Ramos vendeu seu jornal e ele passou a se chamar “Amazonas”, neste período também apareceu o “Catechista”, “Amazonas Commercial”, o “Diário Oficial” e outros, a maioria da população não falava português, mas nheengatu, a língua geral, porém, bastava um ler e espalhar as notícias, tipo ‘boca a boca’, como existe até hoje, em tempos de internet, e as informações ganhavam corpo.

JC – Antes do atual Jornal do Commercio, tiveram outros três com o mesmo nome. Fale um pouco sobre eles.
Geraldo – Estes jornais com mesmo titulo de “Jornal do Comércio”, não foram de Manaus, eram da cidade de Itacoatiara e continham notícias da cidade, propaganda comercial e política.

JC – Todos os jornais tinham fundamentação política? Eram criados para atacar este ou aquele governante?
Geraldo – A maioria dos jornais do final do seculo 19 e início do 20 foram, sim, criados por grupos políticos para atacar os adversários, uma hora denunciando, outra hora defendendo os governos. O “Jornal do Commercio”, fundado em 2 de janeiro 1904, tinha o objetivo de atacar o governo e o jornal denunciava todas as artimanhas dos governantes.

JC – De 1852 até hoje, qual teria sido o pior momento para a imprensa escrita de Manaus?
Geraldo – No início do século 20 era violenta a perseguição aos jornais de oposição aos governos. Um exemplo foi o empastelamento do jornal “O Quo-Vadis” mandado tocar fogo pelo governador da época e quando os bombeiros chegaram, em vez de água eles trouxeram querozene para apagar o fogo. O jornal e seu maquinário foram totalmente destruídos, mas dois dias depois ele já estava à venda com denúncias contra o governador. Também alguns jornais na época da ditadura recente (1964/1985) sofreram perseguições como “O Jornal”, “A Notícia” e “A Crítica”. Qualquer tipo de censura é um ‘pior momento’.

JC – Na sua opinião, os jornais online vão acabar com os jornais impressos?
Geraldo – Por hora penso que não, pois nem todas as pessoas tem acesso a internet, então os jornais impressos terão uma vida ainda muito longa.

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