27 de janeiro de 2022

Endividamento tem queda, mas inadimplência cresce em Manaus

A proporção de consumidores de Manaus endividados com cartões, carnês e outros meios de pagamento caiu entre outubro e novembro, quebrando uma sequência de cinco meses seguidos de alta, e indo na contramão da média nacional. O percentual de inadimplentes, contudo, subiu pelo segundo mês consecutivo e, desta vez, foi puxado pelas famílias de maior renda. É o que revela a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Na sondagem, 70,6% das famílias manauenses (452.310) se dizem endividadas, número abaixo do apresentado em outubro de 2021 (72% e 461.108), e ainda acima do dado de 12 meses atrás (69,8% e 440.782). O índice de inadimplência também cresceu entre o décimo (24,2% e 155.173) e o 11º mês de 2021 (25,9% e 166.021), embora tenha ficado perto da marca de novembro de 2020 (25,8% e 162.947). Ao menos 13,9% (86.363) declararam já não ter condições de quitar dívidas em atraso, mais do que no mês anterior (13,5% e 86.666), e igualmente próximo ao do ano passado (13,8% e 86.932).

Em âmbito nacional, 75,6% das famílias já se assumem endividadas, renovando o recorde de outubro (74,6%). O valor corresponde à 12ª elevação mensal seguida e a uma alta significativa ante o mesmo mês de 2020 (66%). O percentual de inadimplentes também aumentou entre um mês (25,6%) e outro (26,1%), alcançando cerca de 12,327 milhões de famílias. Foi a primeira alta desde fevereiro de 2021 e a maior para o mês desde 2010. O dado também superou novembro do ano passado (25,7%). Já a parcela de brasileiros sem condições de pagar as contas andou para trás ficou estável em 10,1% e voltou  a encolher em relação a 12 meses atrás (11,5%).

Houve uma nova piora relativa e qualitativa no nível de endividamento dos manauenses. Diferente de outubro, desta vez, a maioria se diz “muito endividada” (34,1%), seguida pelos “pouco endividados” (19,6%) e pelos “mais ou menos endividados” (16,9%). No mês anterior, os respectivos números haviam sido 24,9%, 26,8% e 22,9%. Consumidores com renda total superior a dez salários mínimos (72%) voltaram a superar a média do indicador (70,6%) – puxados, pelo quinto mês seguido, pelo grupo dos “muito endividados” (46,3%).

Cartão e carnês

Assim como na média brasileira, o cartão de crédito foi o principal vilão do endividamento em Manaus, respondendo por 80,5% do bolo das dívidas, com nível acima do anterior (76,9%) e com novo predomínio das famílias mais ricas (83,1%). Os carnês (50,8%) voltaram à segunda posição, acelerando ante outubro (34,1%) e sendo impulsionados também pelos que recebem mais (67,8%). Foram seguidos de longe por cheque especial (18,5%), financiamento de carro (18,1%), crédito consignado (16,5%), financiamento residencial (9,2%), crédito pessoal (6,3%) e cheque pré-datado (1,7%).

Entre os 36,7% de consumidores inadimplentes, os que ganham mais (39%) já superam os que recebem menos (36,5%). Apenas 24,1% garantem que conseguirão pagar a dívida integralmente e 22,1% estimam que conseguirão fazer isso apenas parcialmente. Pelo menos 25,6% devem há mais de 90 dias – especialmente os mais pobres (26,8%). A fatia de manauenses com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (61,1%) ainda é majoritária, enquanto o grupo pendente há menos de um mês responde por somente 12,2% do bolo. 

Em relação aos dados de um mês atrás, entretanto, a situação amenizou nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que diminuiu o percentual dos que estimam levar mais de um ano para isso – de 48,9% para 47,5%. O grupo dos ‘pendurados’ por até três meses também caiu – de 14,3% para 13,9%. O mesmo se deu na fatia de devedores comprometidos entre seis meses e um ano, que passou de 21,2% para 20,2%. A única parcela a engrossar foi a de três a seis meses, que avançou de 14,3% para 16,5%.

O mesmo não se deu no comprometimento de renda. Em média, as famílias manauenses consomem 38,1% de seus ganhos com dívidas, pouco mais do que os 37,9% anteriores. Pelo terceiro mês, o grupo das famílias que recebem mais de dez mínimos seguiu preponderante (41%). Houve relativa melhora na distribuição por níveis de comprometimento: a maioria gasta de 11% a 50% (49,2%). Na sequência estão os que gastam mais da metade de seus ganhos mensais com dívidas (43,4%) e os que limitam os dispêndios a 10% (5%). Em outubro, as respectivas fatias foram de 52%, 41,5% e 4,1%.

“Consumidor cauteloso”

O presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, ressaltou à reportagem do Jornal do Commercio que o número de endividados e inadimplentes em Manaus praticamente se manteve no mesmo patamar, na variação anual. De acordo com o dirigente, os dados refletem um cenário em que as condições de pagamento das dívidas atrasadas melhoraram e o tempo para a operação ficou menor, apesar da escalada da Selic.

“Cumpre destacar que o cartão de crédito ainda é o veículo de maior endividamento, mas chama atenção o aumento surpreendente do crédito consignado. A oferta dos bancos é maior e muita gente está aderindo. É claro que ainda passamos por um momento difícil, porque os juros aumentaram e isso dificulta a vida das famílias. Mas, o consumidor está cada dia mais consciente e cauteloso, e isso tem se refletido nas estatísticas”, asseverou.

Consumo de poupança

Em texto distribuído por sua assessoria de imprensa, a CNC destacou que, mesmo com os juros maiores, as concessões de crédito com recursos livres para pessoas físicas seguem ascendentes. Ao citar dados do Banco Central, a entidade apontou que outubro registrou alta real de 3,3% nas concessões para às pessoas físicas, nas modalidades com recursos livres. No saldo das operações, o aumento real teria sido de 1% nas transações.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, observou que, na tentativa de ancorar melhor as expectativas inflacionárias futuras, o Copom (Comitê de Política Monetária) voltou a apertar o ritmo de alta dos juros, sem resultados objetivos. “Até o momento, isso não foi suficiente para abrandar a dinâmica do endividamento, e o crédito segue sendo a saída do brasileiro para recompor a renda”, lamentou.

A economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, aponta o uso do crédito como mais relevante ao grupo das famílias com rendimento de até dez salários mínimos, que saltou de 75,9% para 77%. Na análise da especialista, a inflação corrente ao consumidor girando próxima a 11% ao ano estaria acirrando o orçamento familiar desse grupo em especial, aumentando a necessidade do crédito para organizar as despesas.

Izis Ferreira acrescenta que, para as famílias com renda acima de dez salários mínimos, o endividamento também segue apresentando tendência de alta, com a fatia correspondente a esse grupo avançando de 69,5% para 70,3%, entre outubro e novembro. “As famílias no grupo de renda mais elevado têm revertido suas poupanças, ampliadas durante a pandemia, para o consumo de serviços, auxiliando a retomada recente da atividade econômica no setor”, encerrou.

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