Endividamento segue avançando em Manaus em agosto

A proporção de consumidores de Manaus endividados com cartões e carnês e outros meios de pagamento acelerou pelo terceiro mês seguido, entre julho e agosto. O percentual de inadimplentes, contudo, foi na direção contrária, entre um mês e outro, embora tenha se mantido acima do patamar de um ano atrás. O mesmo se deu entre as famílias que dizem já não poder mais pagar dívidas atrasadas. É o que revela a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), realizada e divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Na sondagem, 69,7% das famílias manauenses (445.289) se dizem endividadas, número acima do apresentado em julho de 2021 (67,9% e 433.142), embora ainda muito aquém ao de agosto do ano passado (77% e 484.851). Já o índice de inadimplência caiu entre o sétimo mês de 2021 (26,4% e 168.309) e o oitavo (25,1% e 160.054), e ficou pouco acima da marca de 12 meses atrás (25% e 157.352). Em torno de 15,1% famílias (96.734) declararam já não ter condições de quitar dívidas em atraso, abaixo do mês anterior (16,9% e 107.577), embora tenha avançado em relação a igual intervalo de 2020 (13,1% e 82.370).

Em âmbito nacional, 72,9% das famílias já se assumem endividadas, renovando recorde, no maior percentual da série histórica da CNC, iniciada em janeiro de 2010. O valor corresponde a elevações significativas ante julho de 2021 (71,4%) e agosto de 2020 (67,5%). O percentual de inadimplentes se manteve nos mesmos 25,6% registrados em julho de 2021, ficando novamente abaixo do patamar do mesmo mês de 2020 (26,7%). Já a parcela dos brasileiros sem condições de pagar contas ou dívidas ando para trás, entre julho (10,9%) e agosto (10,7%), além de encolher em relação a 12 meses atrás (12,1%).

Houve nova melhora qualitativa no nível de endividamento dos manauenses. Assim como ocorrido em julho, a maioria se diz “mais ou menos endividados” (26%), sendo seguidos bem de perto pelos “pouco endividados” (25%) e, mais de longe, pelos “muito endividados” (18,7%). No mês anterior, os respectivos números haviam sido 24,7%, 19,4% e 23,8%. Consumidores com renda total superior a dez salários mínimos (82,9%) voltaram a superar de longe na média do indicador (69,7%) – puxados, pelo segundo mês seguido, pelo grupo dos “muito endividados” (39%).

Cartão e automóveis

Assim como ocorrido na média brasileira, o cartão de crédito voltou a ser o principal vilão do endividamento em Manaus, respondendo por 83,7 do bolo das dívidas, embora em nível já menos elevado do que o anterior (85%) e com novo predomínio das famílias mais ricas (95,6%). O financiamento de carro (37,2%) disparou para o segundo lugar – impulsionado pelos que recebem até dez mínimos mensais (39,3%). Foram seguidos por crédito consignado (25,5%), o crédito pessoal (24%) e o carnê de compras (20,3%), cheque especial (7,3%), financiamento de casa (6,79%) e cheque pré-datado (1,7%) e “outras dívidas” (0,1%).

Já entre os 38,9% de consumidores manauenses com compromissos financeiros em atraso, diminuiu a diferença entre os que ganham menos (25,3%) e mais (20,7%). Apenas 12,1% garantem que conseguirão quitar a dívida integralmente e 27,5% estimam que conseguirão pagar a dívida apenas parcialmente. Pelo menos 27,2% devem há mais de 90 dias – especialmente as famílias mais pobres (27,5%). A fatia com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (61,9%) ainda é majoritária, enquanto o grupo pendente há menos de um mês responde por 10,7% do bolo. 

A situação piorou nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que aumentou o percentual dos que estimam levar mais de um ano para isso – de 41% para 45,1%. O grupo dos ‘pendurados’ por três meses também subiu – de 9% para 10%. A fatia de devedores comprometidos entre seis meses e um ano, por outro lado, encolheu de 27,9% para 24,9%, enquanto a parcela dos endividados entre três a seis meses passou de 18% para 16,3%, em relação aos dados de um mês atrás.

Em média, as famílias manauenses consomem 39,1% de sua renda para dívidas, sendo pouco menos do que os 39,5% anteriores, sendo que o grupo das famílias que recebem mais de dez mínimos passou a ser preponderante (44,5%). Houve relativa melhora, no entanto, distribuição por níveis de comprometimento: a maioria (47,3%) ainda gasta mais da metade dos ganhos mensais com dívidas, sendo a única fatia que encolheu diante de junho. Foram seguidos de perto pelos que gastam de 11% a 50% (45,4%) – que avançou – e pelos que limitam os dispêndios a 10% (4,4%) – que se manteve na mesma. 

“Tivemos um recorde mensal, no Brasil. Não obstante, a oferta de crédito aumentou 19,2%, segundo o Banco Central. Já, no Amazonas, tivemos um nível de endividamento melhor. Temos números diferentes do restante do país porque saímos antes da segunda onda. Mas, depois, vieram a escalada do dólar e da inflação, entre outras coisas que atrapalharam a geração de empregos”, ponderou o presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota.

Crédito e inflação

Em texto distribuído à imprensa, a CNC aponta a oportunidade de liquidez “elevada”, como principal fator para o superendividamento dos brasileiros. A economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, alerta que, embora a inadimplência esteja “controlada”, a alta nos juros amplia o risco para o acirramento dos indicadores, especialmente entre os de menor renda. “O crédito mais caro e as despesas elevadas restringem a capacidade de consumo. Enquanto faltarem sinais mais robustos de recuperação no mercado de trabalho formal e na renda, com alívio da inflação, as necessidades de recomposição dos rendimentos pelos mais vulneráveis seguirão elevadas. O endividamento pode aumentar ainda mais”, avisou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, salientou que a questão não deve ser analisada como “uma conta simples” de soma e subtração. “O crédito tem ajudado muita gente na recomposição da renda. Na pandemia, muitos têm recorrido à informalidade e investido em pequenas atividades para garantir seu sustento. Por isso, o acesso é tão importante. Mas há uma necessidade grande de planejamento do orçamento familiar para que esse alívio não vire uma bola de neve”, concluiu. 

Foto/Destaque: Divulgação

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