Endividamento e Inadimplência em Manaus segue em alta em julho

A proporção de consumidores de Manaus endividados com cartões e carnês e outros meios de pagamento acelerou pelo segundo mês seguido, entre junho e julho. O percentual de inadimplentes se manteve estável entre um mês e outro, embora tenha se mantido acima do patamar de um ano atrás. O mesmo se deu entre as famílias que dizem já não poder mais pagar dívidas atrasadas. É o que revela a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), realizada e divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Na sondagem, 67,9% das famílias manauenses (433.142) se dizem endividadas, número acima do apresentado em junho de 2021 (64,7% e 412.510), embora muito aquém ao de julho do ano passado (79,8% e 502.167). O índice de inadimplência ficou praticamente estável entre o sexto (26,3% e 167.618) e o sétimo mês de 2021 (26,4% e 168.309), mas ainda está acima da marca de 12 meses atrás (25,2% e 158.346). Em torno de 16,9% famílias (107.577) declararam não ter condições de quitar dívidas em atraso, mesmo percentual do mês anterior, embora tenha avançado em relação a 2020 (14,4% e 90.637).

Em âmbito nacional, 71,4% das famílias já se assumem endividadas, o maior percentual da série histórica da CNC, iniciada em janeiro de 2010. O valor corresponde a elevações ante junho de 2021 (69,7%) e julho de 2020 (67,4%). O percentual de inadimplentes alcançou 25,6%, acima de junho de 2021 (25,1%), mas abaixo de julho de 2020 (26,3%). Já a parcela dos brasileiros que declararam não ter condições de pagar contas ou dívidas (10,9%) ficou praticamente empatada com o a do mês anterior (10,8%) e encolheu em relação a 12 meses atrás (12%).

Houve uma melhora qualitativa no nível de endividamento dos manauenses. Diferente do ocorrido em junho, a maioria se diz “mais ou menos endividados” (24,7%), sendo seguidos de perto pelos “muito endividados” (23,8%), e um pouco mais de longe pelos “pouco endividados” (19,4%). No mês anterior, os respectivos números foram 22%, 21,2% e 20,8%. Consumidores com renda total superior a dez salários mínimos (84,1%) voltaram a superar de longe a média do indicador (67,9%) – puxados, desta vez, pelo grupo dos “muito endividados” (43,9%).

Cartão de crédito

Assim como ocorrido na média brasileira, o cartão de crédito voltou a ser o principal vilão do endividamento em Manaus, respondendo por 85% do bolo das dívidas, embora em nível menos elevado do que o anterior (88,3%) e com novo predomínio dos mais ricos (97,1%). O crédito pessoal (38%) já ultrapassou o carnê de compras (34,4%) – ambos preferidos pelos que ganham mais de dez mínimos (50,7% e 65,2%, respectivamente). Foram seguidos por financiamento de carro (27,7%), crédito consignado (22,9%), cheque especial (7,5%), financiamento de casa (6,9%) e cheque pré-datado (2,2%).

Já entre os 38,9% de consumidores manauenses com compromissos financeiros em atraso predominam os que ganham menos de dez mínimos mensais (40,4%). Apenas 10,6% garantem que conseguirão quitar a dívida integralmente e 25,5% estimam que conseguirão pagar a dívida apenas parcialmente. Pelo menos 25,3% devem há mais de 90 dias – especialmente as famílias mais pobres (26,5%). A fatia com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (63,5%) ainda é a maior, enquanto o grupo pendente há menos de um mês responde por 10,8%. 

A situação piorou nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que diminuiu o percentual dos que estimam levar mais de um ano para isso – de 40,7% para 41%. O grupo de devedores comprometidos entre seis meses e um ano (27,9%) encolheu, ao passo que os ‘pendurados’ por três meses (9%) e de três a seis meses (18%) foram na direção contrária, em relação aos dados de um mês atrás.

Em média, as famílias manauenses consomem 39,5% de sua renda para pagar dívidas, sendo pouco menos do que os 40,2% anteriores, embora as famílias que ganham menos esteja acima dessa marca (45%). Houve relativa melhora também na distribuição por níveis de comprometimento: a maioria (49,2%) ainda gasta mais da metade dos ganhos mensais com dívidas, sendo a única fatia que encolheu diante de junho. Foram seguidos de perto pelos que gastam de 11% a 50% (42,7%) e pelos que limitam os dispêndios a 10% (4,4%). 

“Calendário diferenciado”

O presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, atribuiu a piora dos dados nacionais à crise do desemprego e de consolidação dos setores econômicos. No tocante ao Amazonas, o dirigente observa que, embora também tenha ocorrido piora mensal, os dados seguem abaixo dos registrados 12 meses antes – período em que as atividades não essenciais do setor terciário ainda estavam retornando gradualmente a atender presencialmente.

“Temos uma situação diferente do panorama nacional. O cartão de crédito também é o campeão na colocação dos modais das dívidas, por aqui. É claro que o que se percebe é que saímos antes da pandemia e isso pode ter colaborado para essa melhoria. Vivenciamos um calendário diferenciado. Enquanto começávamos a sentir a segunda onda em dezembro de 2020, e voltamos a funcionar em março deste ano, o resto do Brasil entrava no auge da pandemia exatamente nesse mês”, avaliou.  

“Fragilidades do mercado” 

Em texto distribuído à imprensa, a economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, assinala que o aumento no número de endividados ocorreu nas duas faixas de renda pesquisadas, embora o destaque ainda venha dos que ganham menos (72,6%). “O tempo de atraso no pagamento das dívidas também vem crescendo, reflexo das dificuldades enfrentadas pelas famílias na faixa de menor renda, em especial, para quitarem seus compromissos financeiros em dia”, destacou.

Outro dado salientado pela economista é que o cartão de crédito também renovou a máxima histórica, chegando a 82,7% do total de famílias com dívidas. Ela ressalta que, embora o crédito possa funcionar como ferramenta de recomposição da renda e potencializar o consumo, o patamar acende alerta de inadimplência. “O aumento dos juros em curso no país encarece as dívidas, principalmente na modalidade mais buscada pelos endividados hoje, que é o cartão de crédito”, acrescentou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que a “inflação elevada” é um fator decisivo para diminuir o poder de compra dos brasileiros e deteriorar os orçamentos domésticos, gerando impactos significativos na taxa de endividamento. “A renda dos consumidores também está afetada pelas fragilidades do mercado de trabalho formal e informal, com o auxílio emergencial deste ano sendo pago com um valor menor”, concluiu.

Foto/Destaque: Divulgação

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