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Endividamento e a inadimplência das famílias de Manaus seguem abaixo do ano passado

O número de endividados em Manaus sofreu repique em abril, mas se manteve abaixo do patamar contabilizado no mesmo mês do ano passado. O contrário ocorreu com os índices locais de consumidores inadimplentes e insolventes. Ao menos 541.935 famílias da cidade, ou 81,7% do total, estavam com contas a vencer, no mês passado. Foi uma marca pouco maior que a de abril (81,5% ou 540.236), mas ainda inferior à de 12 meses atrás (87% ou 569.415). Para quem tem renda acima de dez salários mínimos, o vilão do endividamento ainda é o cartão de crédito. Já quem ganha menos, segue atolado nos carnês.

A parcela de consumidores com contas atrasadas encolheu pelo terceiro mês seguido, ao passar de 49,7% para 48,6%, somando 322.836 famílias nessa situação. A proporção, no entanto, é maior do que a de maio de 2023 (47% ou 307.912). A mesma dinâmica se deu na fatia de consumidores sem condições de pagamento, que responde por 20% (132.855) do total e se mantém como o maior percentual do país. É o que indicam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

A capital amazonense teve comportamento diferente da média nacional do indicador. O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer em meios de pagamentos diversos subiu pelo terceiro mês consecutivo na variação mensal, de 78,5% para 78,8%, e também ficou pouco acima de 12 meses atrás (78,3%). A parcela de inadimplentes (28,6%) se manteve estável ante abril, mas ficou abaixo da marca do mesmo mês de 2023 (29,1%). A fatia de consumidores sem fôlego para pagar (12%) pouco se moveu em ambas as comparações. Vale notar que outros levantamentos recentes, como os da CNDL e da Serasa Experian, mostram retratos semelhantes.

A dinâmica da Peic em Manaus veio em um mês de novo fortalecimento na vontade de comprar, mostrado pela ICF (Intenção de Consumo das Famílias) –também da CNC. No mês do Dia das Mães, a alta foi sustentada por melhora na percepção sobre renda, emprego e acesso a crédito, assim como uma propensão atípica para comprar bens duráveis. Apurado pela mesma entidade, o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) ficou praticamente estável em maio. Os lojistas melhoraram a avaliação sobre o momento presente, mas o temor de uma nova vazante histórica esfriou as expectativas e as intenções de contratar.

Cartões e carnês

O cartão de crédito aumentou sua participação no bolo das dívidas e ainda é o motor do endividamento em Manaus, em sintonia com a praticidade, apesar dos custos. Respondeu por 69,6% das dívidas locais –contra os 69% de fevereiro –e, disparado, seu uso é ainda maior entre as famílias de maior renda (93%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), apesar das reduções gradativas no ritmo da taxa Selic, esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 14,42% (ou 403,53% por ano).

Os carnês (57,9%) também elevaram sua fatia entre os débitos das famílias da cidade e mantiveram a vice-liderança. Mas, são impulsionados pelos que recebem menos (58,5%). Na sequência do ranking estão o crédito pessoal (11,2%), “outras dívidas” (9,3%), financiamento de carro (7,6%), crédito consignado (6,3%) e financiamento de casa (3,7%). Dono da segunda maior taxa de juros da lista da Anefac (7,65% no mês e 142,20% no ano), o cheque especial responde por 5,4% das dívidas. Invenção brasileira, o cheque pré-datado (0,4%) também vem perdendo adeptos e só é usado pelos mais pobres.

Conforme a CNC, o percentual de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” caiu de 20,6% para 16,3% ante abril, sendo essa uma condição mais comum entre as famílias de menor renda (16,8%). A fatia dos “mais ou menos endividados” (20,5%) também diminuiu e também é mais elevada no segmento de menor renda (21,3%). Os “pouco endividados” (44,9%) ampliaram ainda mais sua maioria, especialmente entre os que ganham mais (46,3%). 

Em média, as famílias endividadas de Manaus devem levar 30 semanas para quitar seus compromissos. O grupo dos devedores com mais de um ano de compromissos pendentes (30,6%) caiu, mas segue na liderança e com maior vantagem sobre a parcela das famílias locais com até três meses de compromissos financeiros (27,9%). Na média, os consumidores da cidade têm 31% de sua renda comprometida por dívidas. Mas, 26,6% gastam mais da metade do que ganham e 47,8% consomem de 11% a 50% de seus vencimentos.

Nada menos do que 59,6% dos endividados locais já está inadimplente, menos do que no levantamento anterior (60,9%). Apenas 21,9% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês –contra os 19,8% apurados em abril. Há mais consumidores de Manaus que estimam que vão pagar parcialmente (36,4%), mas a maioria ainda assume que vai continuar devendo (41,2%). Em média, as dívidas estão atrasadas há 61 dias, sendo que o grupo de famílias pendentes por mais de um ano (30,6%) é o majoritário.

Juros e estiagem

Em entrevistas recentes à reportagem do Jornal do Commercio, o presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, concorda que a situação de endividamento e inadimplência melhorou em Manaus, embora ressalte que ainda seja motivo para preocupação do setor, principalmente diante da perspectiva de uma nova estiagem severa. “Os empresários estão se reprogramando e planejando suas compras. No tocante ao consumo, ainda temos algumas dificuldades, apesar da redução da carga de juros. Isso já ajudou e diminuiu as perspectivas de inadimplência, apesar de todos os problemas que vivemos”, ponderou.

Texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC informa que, em âmbito nacional, o uso do cheque especial terminou em 3,9%, o menor índice da série histórica da Peic, iniciada em 2010. Em abril daquele ano, foi registrada a maior taxa dessa série (9,5%). Na análise da entidade, diante de uma taxa de juros para o cheque especial em “relativa estabilização” (125% e 132% ao ano, de dezembro a abril), “renda média sem alteração significativa” e “redução do ritmo de queda dos juros”, os números indicam que há maior planejamento financeiro por parte das famílias brasileiras.

No mesmo texto, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, avalia que o fato de que mais pessoas estão endividadas, mas com queda do uso do cheque especial e estabilidade na inadimplência, é um bom sinal. “O avanço no mercado de trabalho, apontado na última Intenção de Consumo das Famílias revela uma maior parcela da população assalariada e, assim, com mais condições de arcar com seus pagamentos”, concluiu, acrescentando que as projeções da entidade são de continuidade do aumento do endividamento e estabilidade na inadimplência – até o fim do ano.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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