Empreendedorismo – Diferencialismo amazônico

Um dos desafios postos a todo tomador de decisão de políticas públicas que visam ao desenvolvimento econômico e social da Amazônia é conciliar os interesses da sociedade nacional com os das comunidades brasileiras indígenas.

Um dos desafios postos a todo tomador de decisão de políticas públicas que visam ao desenvolvimento econômico e social da Amazônia é conciliar os interesses da sociedade nacional com os das comunidades brasileiras indígenas, construindo-se, sem que a maioria perceba, uma divisão nítida entre o todo (sociedade) e uma das partes (comunidade), que estariam, por assim, dizer, em um mesmo nível. Neste contexto, as diferenças entre os habitantes da nossa região vão sendo construídas de forma consistente e quase sempre preconceituosa, por vezes exacerbando antagonismos que têm origem na estratégia predominantemente predatória que os lusitanos utilizaram para conquistar a Amazônia.
Em minhas reflexões, procuro sempre imaginar os 23 milhões de brasileiros que habitam a região como ianomâmis (seres humanos) antes de tudo, a priori com direito de acesso às comodidades e benesses da modernidade, e não fracioná-los em pessoas que têm origens étnicas diversas, interesses conflitantes e visões de mundo antagônicas.
Mas o mundo caminha em direção própria, sem dar muita confiança para utopias, sendo a realidade que se constrói a cada dia muito crua e nua, principalmente a dos segmentos menos favorecidos da sociedade nacional, que ainda se encontram alijados de seus diretos básicos em relação à saúde e à educação, ao trabalho decente e à moradia digna. A questão referente aos brasileiros indígenas do município roraimense de Uiramutã vem ganhando contornos de uma luta épica pelo direito à vida, à propriedade e à liberdade, entremeada de interesses econômicos latentes e de lances violentos de duas das partes envolvidas.
A meu ver, a questão central posta no conflito gerado pela demarcação das terras dos brasileiros indígenas do norte de Roraima é o que Edgard de Assis Carvalho, doutor em Antropologia pela Unesp, denomina de diferencialismo, noção que nos remete à Teoria da Complexidade, um conjunto de idéias que nos ajuda a perceber nosso lugar no mundo contemporâneo e a projetar um futuro condizente com a nossa condição humana e que nos coloca em uma rede global marcada por ações e reações.
Em uma reflexão magistral do final do século passado, os Infernos da Diferença, Edgard de Assis Carvalho, que faz parte do quadro docente do PPGSCA (Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia – da Ufam) coloca sua visão de mundo antenada com o global, sem perder de vista o local, tendo, no texto citado, o diferencialismo como ponto central de suas considerações filosóficas e antropológicas. Em outro texto, ele adverte que fixar-se obstinadamente no diferencialismo implica sempre abstrair-se do fluxo geral da vida e colocar-se nas fronteiras tribais como uma sentinela irascível que pretende transfigurar o outro em simplesmente outro.

Os infernos da indiferença e do silêncio

A meu ver, a parte abaixo selecionada do texto de Edgard de Assis Carvalho se casa de maneira cirúrgica com a situação vivida atualmente pelos roraimenses (talvez futuramente pelos amazonenses) e serve como referencial epistemológico para uma reflexão crítica da sociedade. Portanto, peço licença aos leitores para abrir parênteses e reproduzir na íntegra a parte selecionada.
“Os diferencialismos contemporâneos têm-se constituídos como um dos maiores desafios da modernidade. Dotados de uma força centrípeta sem precedentes, vêm conseguindo disseminar ódios generalizados que se ampliam por uma violência mimética quase que incontrolável. Essa ‘geopolítica do caos’, mais se assemelha a uma guerra civil generalizada do que a um espaço em que predominem a conciliação e a colaboração interculturais, já preconizadas por Claude Lévi-Strauss, desde os anos sessenta, em dois textos seminais intitulados respectivamente Raça e História e Raça e Cultura. Neles, Lévi-Strauss deixa claro que as diferenças não deveriam ser entendidas como algo excludente e exclusivo, mas como experiências sociológicas diversas da nossa, mesmo que o devir histórico tenha se incumbido de realizar

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