Eleições argentinas afetam comércio exterior do Amazonas

A perspectiva do retorno da ala mais à esquerda do partido Peronista à presidência da Argentina preocupa lideranças do PIM e especialistas de comércio exterior do Amazonas, que temem um eventual retorno a políticas protecionistas. O país vizinho é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e do Estado, sendo um dos destinos preferenciais dos manufaturados da ZFM. 

Ladeado por sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, o candidato de oposição à presidência da Argentina, Alberto Fernández, venceu as primárias do país, no domingo (11). Conquistou 47,65% dos votos, contra os 32,08% do atual ocupante da Casa Rosada, Mauricio Macri. O resultado é praticamente a confirmação da vitória da chapa nas eleições gerais de 27 de outubro.

Os números das urnas argentinas também levaram o mercado financeiro dos dois países a atravessar momentos de volatilidade, ao longo da semana. A valorização do dólar acelerou no Brasil e na Argentina, ao mesmo tempo em que as bolsas experimentaram uma nova rodada de depreciação. 

A declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que uma vitória da oposição nas eleições presidenciais da Argentina, seguida de resistência à abertura econômica do Mercosul, seria respondida por uma saída do Brasil do bloco, jogou mais lenha na fogueira dos mercados. Ainda mais quando o presidente Bolsonaro reforçou a fala do ministro, no dia seguinte.

O vice presidente da Fieam, Nelson Azevedo, disse que o crescimento das incertezas sobre o comércio exterior com a Argentina, a partir de uma guinada em direção a política mais protecionistas é um dos fatores que hoje mais preocupam o PIM, perdendo apenas para os desdobramentos da Reforma Tributária.  

“Se as exportações para lá já estavam instáveis, imagine agora, se sair um resultado desses. E ainda tem o impacto no câmbio. Vamos aguardar e torcer, para ver o que acontece”, declarou o dirigente, que também preside o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, entidade patronal que conta com fabricantes de bens intermediários e finais do polo de duas rodas entre seus associados.   

Estragos na balança

A atual crise argentina já vem minando as exportações do Amazonas para lá. Apenas dois dos sete meses iniciais de 2019 contabilizaram resultados mais elevados (maio e julho), conforme dados do Mdic (Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços) disponíveis no portal Comex Stat. As vendas externas totalizaram US$ 65.69 milhões, 33,10% abaixo do montante do mesmo acumulado de 2018 (US$ 98.19 milhões). 

A balança comercial entre a Argentina e o Amazonas já havia encerrado o ano passado com leve recuo. Um primeiro sinal de deterioração já havia sido registrado em maio de 2018. A trajetória consistente de queda começou dois meses depois, quando as vendas do Estado para o país andino pontuaram apenas US$ 3.24 milhões (2018) contra US$ 19.19 milhões (2017).

As principais exportações do Amazonas para a Argentina, de janeiro a julho deste ano, foram motocicletas (US$ 19.29 milhões), TVs (US$ 13.83 milhões), máquinas e aparelhos de escritório (US$ 12.65 milhões) e barbeadores (US$ 7.54 milhões). Com exceção dos televisores, todos os outros produtos da lista amargaram queda em 2019. 

Barreiras tarifárias

“A situação atual na Argentina tira segurança dos exportadores. A experiência recente mostrou que a esquerda peronista costuma trazer problemas ao Brasil, com o levantamento de barreiras tarifarias e não tarifárias, em especial para produtos de linha branca e veículos”, destacou o gerente executivo do CIN (Centro Internacional de Negócios) da Fieam, Marcelo Lima.

A maior preocupação, segundo o especialista, é como ficaria a implementação do acordo comercial Mercosul-União Europeia, em um cenário de relações mais hostis entre os dois países, os maiores e mais fortes do bloco econômico do Cone Sul. Fora as recentes rusgas do presidente com o país mais forte da UE, a Alemanha.

“Ninguém sabe qual será a posição do novo governo argentino em relação a essa aproximação. Isso, levando em conta que o governo brasileiro esteja, de fato, interessado no acordo. E essa polêmica do meio ambiente e do Fundo Amazônia pode trazer represálias da Alemanha, que também é um parceiro comercial importante para o país e para nosso Estado”, alertou.  

Influência positiva

O coordenador da Comissão de Logística do Cieam, professor da Ufam e empresário, Augusto Cesar Barreto Rocha, considera que nenhum dos dois candidatos à Casa Rosada é bom para o Amazonas e para o Brasil, mas salienta que será inevitável uma aproximação, em função da influência da economia brasileira na da Argentina.

“Não me sinto a vontade para responder. Ainda não formei opinião a respeito. Mas, para não deixar de dizer algo, acredito que qualquer resultado será positivo em função dos interesses maiores de ambos países, por conta do acordo Europa-Mercosul”, finalizou. 

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