Economia sustentável e participação indígena na Amazônia (Parte 1)

O programa VISÃO JCAM – UM OLHAR AMAZÔNIDA, realizado pelas redes sociais do Jornal do Commercio do Amazonas na tarde do dia 29 de abril, foi uma aula àqueles que militam no tema Economia e o Protagonismo Indígena.

Se Adam Smith e Karl Marx tivessem a oportunidade de assistir a live, certamente voltariam aos seus gabinetes para repensar os papéis do Mercado e do Estado à sustentabilidade econômica contemporânea.

Um dos convidados, o professor indígena da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), antropólogo e doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Carlos Augusto da Silva, descreveu-nos que há uma poupança ecológica amazônica, criada e forjada há mais de 7.000 anos, resultante de uma tecnologia pré-colombiana de saberes, cultura e trabalho à bem da Floresta. 

O cientista da UFAM trouxe o exemplo da importância econômica do trabalho de “engenharia tecnológica” do povo Sateré-Mawé, na domesticação e aprimoramento genético do guaraná, do cacau: “uma bioeconomia praticada desde o rio Andirá, em Maués (AM), e que se estende por toda uma rede global”. 

Como entrevistador, provoquei o convidado numa curiosidade pessoal: a cultura marajoara, a tapajônica, entre outras estão inseridas na economia formal da Amazônia Oriental – integram às atividades produtivas do Estado do Pará, principalmente, a cerâmica artística, os artesanatos, os cheiros, a medicina tradicional… preservando suas identidades e grafismos -, diferentemente, da Amazônia Ocidental. Teríamos povos diferentes na Amazônia Ocidental?

Me ensinou o professor Carlos Augusto que o Estado do Pará investiu maciçamente e de forma articulada nos saberes tradicionais, uma identidade cultural das populações que viveram aqui nos últimos 12 mil anos à bem da economia. O resultado atual é visível: “se você andar em Belém (PA) vai encontrar uma riqueza imaterial bastante densa em todos os pontos da cidade”. 

Diferentemente, no Amazonas e em Manaus “todo esse patrimônio não é visível ainda”. 

Ao citar os relatos históricos do Padre João Daniel, onde, “do rio Negro, uma população superior a três milhões de pessoas foi retirada, arrancada de suas casas, para ser levada aos canaviais maranhenses e do Pará”, o pesquisador correlaciona tal invisibilidade às escolhas centradas, local e quase exclusivamente, na Belle Époque onde, “o que valeu aqui em Manaus foi o nosso sangue indígena pintado no Teatro Amazonas” em detrimento à riqueza cultural tecnológica pré-colombiana. 

Tal patrimônio ecológico é palpável em diversos territórios da Amazônia, a exemplo do Alto Rio Negro, e, segundo o professor, pode ser assim calculado: “imaginem uma população de 3 milhões plantando duas árvores por mais de 12 mil anos”. 

A prática tecnológica indígena tem uma racionalidade sustentável.

 “Para eu tirar uma itaubeira e fazer uma canoa, eu tenho que devolver seis itaubinhas jovens e deixar elas crescerem lá”. A fala era de um carpinteiro naval do Povo Mura, transcrita do caderno do antropólogo numa visita que fez ao parente em 2013.

Portanto, ressalta o professor, a extração da raiz da floresta não é sustentável. E justifica: “é como você extrair um dente a cada mês… fica banguela, não nasce outro no lugar. O extrativismo é coisa do homem branco”.

A geóloga Cisnea Menezes Basilio, servidora da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SEDECTI) convidada pelo Visão JCAM, trouxe seu testemunho do quão importante é o patrimônio cultural dos povos do Alto Rio Negro, muito maior, inclusive, que as riquezas geológicas que potencializam, economicamente, as atividades de mineração e o geoturismo: “São Gabriel da Cachoeira é o município mais indígena do Brasil, com 23 povos indígenas, 21 línguas faladas, quatro línguas indígenas co-oficiais…”.

A indígena Dessana, nascida no médio rio Uaupés, coordenadora das ações do Núcleo de Integração da Faixa de Fronteira do Governo do Amazonas, revela que, desde a década de 1980, lideranças indígenas da região movimentaram discussões sobre o aproveitamento dos recursos minerais em seus territórios. 

Somente em 2008, através do Programa Municipal de Aproveitamento Mineral do Alto Rio Negro de São Gabriel da Cachoeira, tais discussões assumiram a escolha pelo uso cultural dos recursos minerais, onde se passou a agregar valor àquilo que já se produz na região – artesanatos -, propondo atividades de lapidação, produção de biojoias e desenvolvimento do geoturismo. 

Com o entendimento de ser uma solução viável e exequível pelas comunidades indígenas, a proposta foi recebida pelo Governo do Amazonas desde o ano passado (2020). 

Considerando a crítica feita pelo professor Carlos Augusto de que o Amazonas não possui a mesma cultura de articulação paraense, o que deixa na invisibilidade todo o nosso patrimônio imaterial, perguntei à representante do Governo: qual é, ou deveria ser, o papel do Estado ao protagonismo econômico indígena? Como se pode avaliar o atual trabalho da FUNAI e a política indígena do Governo Bolsonaro?

Considerando que o protagonismo indígena é algo a ser buscado na economia, essas e outras questões no próximo Artigo.

(Continua)

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