Economia ainda muito dependente de Brasília

Pensar o Amazonas sem a ZFM (Zona Franca de Manaus) seria inconcebível no momento e ainda até por muitos anos ou décadas. Uma possível hecatombe tomaria conta da economia de um Estado que tem no regime incentivado a sua maior fonte de renda, algo que chega hoje a pelo menos 98% em dependência.

Essa é a impressão demonstrada por lideranças políticas e empresariais consultadas pelo Jornal do Commercio.  Então, desatrelar a região de atividades das indústrias aqui instaladas seria como cortar uma relação umbilical que mantém em operação toda uma engrenagem econômica de sustentabilidade de praticamente todos os segmentos e ainda de esferas governamentais.

Aliás, a contribuição anual da ZFM para o Tesouro federal chega a no mínimo R$ 10 bilhões, mesmo com os incentivos fiscais concedidos às empresas que aqui operam suas atividades industriais. Os números são estimados pela direção da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) e têm como referência os últimos indicadores da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus).

Considerado um estudioso da ZFM, o economista e professor José Alberto Machado não vislumbra a longo prazo nenhum outro projeto de desenvolvimento econômico que possa manter a sobrevivência do Amazonas.

“Fala-se tanto em uma nova matriz econômica para substituir o atual modelo, mas nada poderá ser instalado em pouco tempo para dar um novo rumo à região. Vejo atualmente o assunto como meros devaneios”, avalia o especialista.

Segundo o professor, a instalação de uma nova matriz econômica demanda muito tempo e seriam necessários pelo menos 20 anos para se começar a ter uma razoável contrapartida em termos de desenvolvimento e atividade econômica. “Veja, por exemplo, a ZFM começou primeiramente com foco no comércio e depois passou para a área industrial. E de lá para cá foram mais de duas décadas para o regime se tornar hoje o que é”, acrescenta o economista. “Então, uma possível derrocada de todo esse sistema seria uma tragédia geral”, afirma.

Com mais de 30 anos de atuação empresarial no Amazonas, o vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, compartilha da mesma opinião do economista. “Sinceramente, acho quase impossível algum outro modelo capaz de substituir o projeto ZFM, mesmo com todo o potencial mineral e turístico existente no Amazonas. São necessários milhões em investimentos para a instalação de medidas que possam suprir as necessidades do Amazonas”, afirma a liderança empresarial.

Para Azevedo, seria interessante, porém, desenvolver novos projetos que viriam se somar às atividades da Zona Franca para alavancar a economia do Amazonas, como por exemplo, o segmento de turismo. “Nada, portanto, pensar em substituir a ZFM, que é um dos projetos de desenvolvimento econômico mais bem-sucedidos dos últimos tempos no Brasil”, afirma.

Defensor de uma nova matriz econômica na região, o presidente do Cieam (Centro das Indústrias do Amazonas), Wilson Perico, avalia que a exploração mineral de forma sustentável e ainda o potencial turístico sinalizam como uma boa opção para fortalecer as atividades da ZFM. “O maior problema está nos entraves burocráticos causados pelo rigor das licenças ambientais. Retirando esses gargalos, temos condições de fomentar mais a economia do Estado, aliada às atividades das empresas do parque industrial de Manaus”, ressalta o líder empresarial.

A longo prazo, Perico também não vê outro projeto que não a ZFM para sustentar a vida econômica do Amazonas como ela acontece hoje. “Outros modelos poderiam fortalecer ainda mais a Zona Franca, mas nada que possa substituí-la”, acrescenta.

Segurança jurídica é condição ‘sine qua non’

Em termos de ZFM, o que mais se fala hoje é em segurança jurídica, uma questão que começou a ter mais ressonância política quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL-AM) assumiu o poder. De lá para cá, a intervenção do superministro da Economia, Paulo Guedes, na Zona Franca vem contribuindo para afugentar potenciais novos investimentos no Estado do Amazonas, segundo consultores econômicos.

Nelson Azevedo avalia que as últimas medidas de Bolsonaro vêm prejudicando a ZFM, principalmente na questão sobre a segurança jurídica.

“As medidas do governo federal continuam ainda muito nebulosas. Jamais um investidor trará o seu dinheiro para a região se a União não der a contrapartida que assegure a aplicação desses recursos financeiros, mesmo com todo esse aparato de incentivos fiscais”, ressalta o empresário.

E ainda: grandes lideranças políticas e empresariais do Amazonas veem no ministro Paulo Guedes como um dos maiores inimigos da Zona Franca. “Ele já deu mostras de que é um ferrenho opositor dos incentivos fiscais. Então, como acreditar num gestor que vez por outra direciona suas ameaças e sua insatisfação contra a ZFM?”, questiona Nelson Azevedo.

Na avaliação de Azevedo, a ZFM não é só do Amazonas porque o projeto, além do Estado, gera milhares de empregos em São Paulo e outros Estados da Região Sul, com a produção de insumos e componentes necessários para as linhas de produção das indústrias de Manaus. “Então, a Zona Franca não é só nossa. Ela é de todo o Brasil porque leva benefícios também para outros Estados do País”, ressalta.

 

 

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