A obra de Aristóteles foi de leitura proibida pela Igreja ao longo da Idade Média. A “Comédia”, o segundo livro, ou a segunda parte da sua “Poética” foi causa de várias mortes ocorridas no ano de 1.327 em um mosteiro no Norte da Itália, por conta do envenenamento de suas páginas, para que não fosse lida pelos jovens monges. Esses fatos são narrados no romance “O Nome da Rosa”, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco, cuja obra serviu de roteiro para o clássico homônimo do cinema, de 1986, protagonizado por Sean Connery.

É que, àquela época, a obra aristotélica ainda não havia sido devidamente interpretada no contexto do cristianismo, e, por isso, o alto clero da Igreja Católica Apostólica Romana restringiu-lhe o acesso, por entender que a mesma continha um saber considerado pagão, que poderia ameaçar a fé e a doutrina cristãs. Destarte, o Prior da biblioteca do mosteiro citado na obra de Umberto Eco, o velho monge Jorge Burgos, deliberou envenenar as páginas da “Comédia”, por achar que os jovens monges vinham burlando a sua vigilância e entrando sorrateiramente na biblioteca nas caladas da noite para lê-la.

Descoberta a prática, e indagado por que fizera aquilo, o velho monge disse ao seu inquisidor tratar-se de um livro “espiritualmente perigoso, que levava ao riso, e um monge não devia rir”; que “só os tolos riem à toa.” E arrematou: “o riso é um evento demoníaco que mata o temor, e sem temor não pode haver fé.”

De alguma forma estamos vivemos momentos semelhantes, no nosso País, nos dias atuais. Mercê de uma pressão ideológica fanatizante, estão retirando de todos nós a principal característica do brasileiro: o riso, o bom humor, a irreverência, a alegria. Nunca se viu tanta gente aborrecida, de cara amarrada, como agora, no Brasil.

Uma brincadeira tida como pura, ingênua e inofensiva até recentemente, de repente, passou a ser insulto, ofensa, preconceito.

Não se pode mais nem admirar a beleza feminina. Eu, por ter feito algumas incursões sobre o conceito do belo, de Aristoteles, e por apreciar o belo como valor essencial, andei exaltando a beleza de algumas mulheres contemporâneas, dentre elas a mulher do presidente Bolsonaro, a nossa Miss Brasil-2018 (que é amazonense) e a mulher do presidente americano Donald Trump. Pra quê? Pessoas raivosas “caíram de pau” em cima mim. Acusaram-me de preconceituoso contra as mulheres menos aquinhoadas de beleza pela natureza. Mas quando, já?

Exaltar a beleza de alguém, nada tem de depreciativo contra ninguém. Instituíram o crime de pensamento, e me acusaram de um delito imaginário, de um crime de ideia, o “crimideia”, de que nos fala George Orwell no seu distópico romance “1984”. Como se sabe, nessa ficção orwelliana (nem tão ficção assim, pois havia uma referência a um país por demais conhecido), o governo do lugar tentava controlar não apenas as falas e ações, mas também os pensamentos dos seus cidadãos, rotulando o pensamento desaprovado de crime de pensamento, de pensar criminoso, de “crimideia”.

Vinicius de Moraes, com os seus versos famosos, “as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, se vivo fosse, estaria morto (desculpem o trocadilho).

Também não se pode mais brincar com um amigo de adolescência, de escola, de trabalho que tenha uma ancestralidade africana presaárica, chamando-o, mesmo carinhosamente, de “negão”. Relembro que o nosso amigo Amazonino Mendes, quatro vezes governador do Estado, sempre se referiu a si próprio, e sempre foi tratado pelos amigos de juventude como “negão”, em um tom alegre e bonachão, bem ao seu gosto.
Mas, agora, não pode! É ofensa. É injúria racial.

Já imagino boa parte da obra de Machado de Assis, e toda a obra de Monteiro Lobato com suas leituras proibidas no Brasil, ou tendo as suas páginas envenenadas, por conter personagens extraídos de descendentes de escravos trazidos da África presaárica para o Brasil pelos colonizadores europeus, sem que os freis Jorge de Burgos da atualidade façam qualquer contextualização histórica dessas obras literárias, como se a história pudesse ser mudada, ou simplesmente apagada. Seria o mesmo que querer proibir a leitura da passagem da Bíblia que trata da escravidão do povo de Israel no Egito, só para que ninguém saiba dessa passagem histórica do povo judeu da Antiguidade.

Mais: Já não se toca mais nos bailes de carnaval muitas marchinhas antigas, por conter versos irreverentes para com alguns seguimentos sociais, como “A Cabeleira do Zezé” e “O Pirata da Perna de Pau”, por exemplo. Até a clássica “Máscara Negra”, do Zé Keti, está no rol das proibidas, por causa dos seus versos: “Quanto riso! Oh, quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão…”

Nos dias atuais, até o aviso “vou almoçar”, pode ser visto como ofensivo para com quem eventualmente não tenha o que comer. Pode? Nas redes sociais, até em grupos seletos, eruditos, percebe-se dissimulada ou ostensiva resistência a qualquer publicação lúdica, cujo propósito seja apenas provocar em seus membros o bem-estar que só o riso solto, descontraído, natural, proporciona.

Já pensei em ir morar noutro lugar, aonde se possa rir. O riso, além de trazer aquela sensação de bem-estar que todo mundo conhece, é um grande aliado da saúde, pois ajuda o nosso organismo no seu funcionamento, prevenindo doenças. O riso é expressão da racionalidade. O riso é coisa exclusiva dos humanos. Não podemos repristinar aos primórdios da Idade Média, e achar o frei Jorge de Burgos natural.
Eu acho!

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