29 de junho de 2022
Prancheta 2@3x (1)

‘É preciso um grande investimento no Centro’

O setor comercial do Amazonas foi um dos mais afetados pelas duas fases da pandemia, principalmente em Manaus, onde está concentrada a maioria das empresas. Paralelamente, os empresários enfrentaram o caos e as dificuldades com a enchente em 2021, que bateu recorde e foi a maior dos últimos 100 anos. As águas subiram mais de 30 metros na região, agravando a situação das lojas que funcionam na área do porto da capital.

Agora, o cenário se repete. A cheia deste ano está próxima de atingir a marca anterior, obrigando lojistas a se reinventarem para conviver com as adversidades desta época de estação chuvosa, que faz o rio transbordar até parte do Centro, causando prejuízos e ainda transportando todo tipo de doenças. Uma calamidade pública que também se replica nos municípios do interior.

O segmento tenta manter, porém, as atividades a duras penas, sem contar praticamente com contrapartida do governo municipal de forma acelerada e efetiva.. “Reunimos todas as lideranças da classe para apelar à prefeitura que encontre uma solução de imediato, mas as ações caminham lentamente”, admite o presidente da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota. A entidade é um dos braços da instituição nacional que tem representações em todos os Estados do País. “Passamos por momentos difíceis e delicados”, acrescenta o dirigente.

Apesar disso, os comerciantes continuam superavitários. Mantiveram serviços essenciais durante a crise sanitária. Parte da economia continuou ativa com a atuação do delivery, em especial na comercialização de gêneros alimentícios e medicamentos, segundo Frota.

Os entregadores foram fundamentais para levar praticamente todos os tipos de produtos às pessoas que estavam confinadas em casa, sem poder sair, protegendo-se da Covid-19. O coronavírus se disseminava. Atingia milhares no Amazonas, no Brasil e em todos os países do mundo.

“Soubemos enfrentar as adversidades cumprindo o nosso papel de atender às necessidades da população, nem que para isso também corrêssemos todos os riscos”, ressalta Aderson Frota, que dirige uma entidade reunindo três segmentos econômicos, respondendo hoje por mais de 53% da arrecadação tributária da região, aponta ele..

Aderson Frota falou exclusivamente ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – A enchente já atinge parte do Centro de Manaus, onde funcionam lojas dos mais diversos segmentos. Que providências vocês estão tomando para amenizar o problema?

Aderson Frota – Já entramos em contato com o secretário de Obras. E falei da necessidade de evoluirmos na recuperação desses espaços, já que a partir deste mês de junho as chuvas ficam menores, menos intensas. E isso vai permitir que haja recuperação de bueiros e galerias subterrâneas, que estão obstruídos e agravam o problema.

Disse, inclusive, que o Centro de Manaus precisava de mais atenção porque está passando por um momento muito difícil e delicado. Além de termos tido dois anos de pandemia que atingiram fortemente o comércio, tivemos também essas crises de âmbito internacional que acabaram vitimando toda a situação do comércio.

O aumento das commodities acabou gerando um problema muito sério. O reajuste do petróleo deflagrou o aumento dos combustíveis, da energia, dos fretes, Isso tudo acabou gerando uma incidência de muitos aumentos nas mercadorias.

E ainda. O governo, na tentativa de conter a alta da inflação, aumentou a Selic, que subiu de 4% para 12,75. E para o mês já vai estar em 13,25%. Com os juros altos, significa dizer que haverá mais inadimplência. Mais negativo para o consumidor, atingindo-o diretamente.

A rua Henrique Martins demorou para ser recuperada. E outra agravante é a interdição da avenida 7 de Setembro, que é uma via muito importante. Sugeri ao secretário que fizesse uma ponte temporária para que a população atravessasse, evitando que as pessoas ficassem ilhadas. Seria desgastante percorrer tudo pela Catedral. Foi essa a nossa ponderação.

JC – Quais são as estimativas de prejuízos com essa enchente?

AF – Tivemos o cuidado de recomendar a todos os comerciantes daquela região, que é sempre atingida todos os anos, que tivessem cuidados. Tivemos um volume de chuvas muito intenso. A subida das águas já é muito preocupante.

Pedimos a eles para não deixar seus estoques no subsolo porque poderia gerar uma série de prejuízos, avarias. Tudo para não serem surpreendidos por essa enchente que até pode superar a do ano passado. E vai ser muito grande.

JC – O sr. pode estimar números….?

AF – Não temos ainda uma noção do que pode prejudicar em termos de queda de vendas. Mas temos a expectativa de que o comércio está aos poucos se recuperando. Nós somos o setor econômico que atende à população.

Então, nossa responsabilidade não é só de suportar as crises, de assimilar as crises, mas acima de tudo de atender às necessidades das pessoas. Fazer promoções, oferecer facilidade de pagamentos, entregar sem nenhum custo.

Por isso, que a nossa responsabilidade, a nossa reação, é muito mais forte e intensa.

JC – Sabemos que o comércio na área central atende muito aos municípios do interior. Realmente, comprometeu esse abastecimento….

AF –  O interior também está sofrendo muito com a enchente. A gente sabe da subida e da descida das águas. Mas quando elas sobem numa velocidade grande, atingindo um perímetro grande do próprio município, isso acaba gerando dificuldades, perda de mercadorias, dificuldades de abastecimento e prejuízos no tocante às avarias que acontecem.

Por enquanto, a Fecomércio prefere não estimar perdas, mas elas não serão iguais às do ano passado.

JC – Por conta da pandemia?

AF – Por conta da pandemia e da maior enchente do século. Em 2021, também tivemos prejuízos com o fechamento do comércio. As lojas ficaram fechadas do final de dezembro até o dia 9 de março.

Então, tivemos um período muito difícil. Além disso, houve uma segunda onda muito pesada, com mais de 200 mortes por dia, falta de material, saturação dos hospitais, falta de equipamentos, de oxigênio, enfim uma série de problemas.

Portanto, tudo isso, do ponto de vista social e da saúde, prejudicou muito o comércio naquele momento. E é o que não está acontecendo agora.

JC – A classe já manteve um contato direto com o prefeito? Ele manifestou interesse nesse sentido?

AF – Temos participado de um fórum criado pelo prefeito em que todas as entidades formulam os seus questionamentos, de seus pleitos diretamente.

O prefeito tem mostrado sensibilidade, atenção, para com essa situação. E isso tem dois efeitos drásticos.  Cria o desequilíbrio das empresas. Quando elas entram em processo de dificuldades, elas acabam desempregando gente, pais de família.

Então, a gente está preocupado com esses dois aspectos. Quando cai o faturamento do comércio, isso repercute no resultado da arrecadação, tanto do ISS como do ICMS.

Precisamos estar sempre ponderando sobre criar mais rapidamente mecanismos que superem esses problemas, para não culminar em dificuldades nas empresas e, acima de tudo, manter os empregos, porque também gera uma crise social muito pesada.

JC – Sabemos que a enchente é um fenômeno recorrente, mas não se investe em ferramentas preventivas. Qual a sua avaliação sobre isso?

AF – Alguns municípios trocaram suas sedes, onde as águas não invadem. Mas a maioria deles se abastece através dos rios. Não tem jeito. Então, a proximidade com os rios tanto expõe como facilita.

Estamos num Estado gigantesco com uma dificuldade de transporte muito grande, de complexidade muito forte. E isso tudo expõe a economia a uma série de problemas.

JC – O que se poderia fazer para amenizar a situação? Nas Europa, muitas cidades são exemplos de convivência com esses problemas utilizando engenharia de ponta. Por que não acontece o mesmo por aqui?

AF – Nós precisamos fazer investimentos muito grandes. É preciso saber se o poder público tem recursos e estabilidade para viabilizar mecanismos. São obras que demandam muito tempo de desenvolvimento e de execução.

Aqui temos um problema muito sério. Muda o governo, também muda o cenário. O cara que entra não dá continuidade às obras. Quer dizer, há um problema cultural e legislativo. Teríamos que criar um mecanismo institucional para que as obras iniciadas fossem concluídas.

Se não, a coisa vai perdendo o efeito, cai no esquecimento e vai ficando aquele esqueleto, sem conclusão. Aquilo tudo é dinheiro público desperdiçado.

JC – E também tem a conveniência política….

AF – Sim, tem a conveniência política. É uma coisa muito difícil. Estamos agora atravessando um período eleitoral. De um modo geral, a economia dá uma parada nesta época.. Não se pode fazer licitações, você não movimenta a máquina. Isso paralisa as atividades econômicas, as obras, os pagamentos.

Realmente, é um momento delicado para todos os empresários. Tanto faz indústria, comércio, agropecuária, todo mundo é atingido pelo processo de eleições.

JC – A Fecomércio-AM representa quantas entidades?

AF – A nossa representação pega comércio, serviços e turismo. Somos os segmentos que mais arrecadam para o Estado. É o que mais recolhe para o governo estadual e para o município. E também somos os que mais empregam. São quase 400 mil pessoas empregadas. Direto. E na formalidade.

JC – De quanto é essa arrecadação?

AF – Segundo dados publicados pela Secretaria de Estado da Fazenda, temos uma arrecadação superior a 53% do total. Não se pode deixar de reconhecer a importância desses nossos segmentos.

Nossa importância é muito grande para a população e também para o bom desempenho do próprio governo.

JC – O governo tenta acabar com a isenção do IPI na ZFM. Como analisa esses embates envolvendo o Amazonas e o Planalto?

AF – A indústria tem o seu papel e a sua importância. O problema é que o governo não consegue entender o histórico da Zona Franca de Manaus. A ZFM sempre foi uma região muito problemática no País.

Primeiro, pela sua extensão. E, segundo, pelas distâncias que geram um abastecimento muito complexo e caro. Um contêiner para Manaus, saindo do porto de Santos, é o mais caro do Brasil. Outro detalhe. Nós não temos ferrovia. É um modal que poderia baratear o frete.

A nossa rodovia é um misto rodofluvial. Essa complexidade gera custo, gera demora, e acaba encarecendo nosso processo de transporte para o abastecimento de Manaus.

Não temos ferrovia e nem rodovia. Os processos burocráticos também geram custos que incidem sobre os fretes.

JC – Então, a situação é preocupante….

AF – Sempre foi uma grande preocupação. É uma luta muito forte para conter a situação. Em fevereiro de 2020, o barril do petróleo no mercado internacional era de 15 dólares. Agora, em fevereiro, chegou a 146 dólares. Hoje, baixou um pouquinho, mas houve uma disparada tão forte que mexeu com a estrutura toda dos combustíveis, com a energia, o transporte.

Há no cenário internacional o problema da guerra entre Rússia e Ucrânia. Temos muito a ver com o conflito, notadamente no agronegócio. Somos o segundo maior fornecedor de alimentos no mundo. A nossa agricultura se abastece de fertilizantes a partir da Rússia – 90% vêm de lá..

Como os russos estão boicotados, está faltando fertilizante no mercado para abastecer a agricultura. Quando se compra em outro mercado, acaba-se comprando mais caro. Temos potássio em Autazes, mas infelizmente não fomos autorizados a explorar até hoje.

JC – É estratégico baixar o IPI para permitir a entrada de produtos importados?

AF – Isso atrapalharia não só comércio, mas fortemente a indústria, que incorpora a isenção em seus custos. Se os custos crescem, as indústrias entram numa situação de perda. Torcemos para que haja uma compreensão.

A anulação do decreto que criou a redução do IPI gerou uma disputa política entre o STF e o poder executivo. É preciso que alguém diga para o governo e o Ministério da Economia que a Zona Franca foi criada com esses incentivos para reduzir as dificuldades que nós temos.

Só o Amazonas é quase 20% o Estado do Brasil. Tem um milhão e meio de quilômetros quadrados dos 8 milhões e meio de quilômetros quadrados do País.

Então, imagine as nossas dificuldades. Se você vai do oeste para o leste do Amazonas, viaja quase duas horas de Boeing. É uma extensão muito grande. Os custos são muito altos. A Zona Franca foi criada para viabilizar um desenvolvimento econômico que garantisse a soberania do Brasil.

Em 1967, quando foi criada a ZFM, os países mais ricos diziam que a Amazônia era o pulmão do mundo e que ela não pertencia ao Brasil. Pertencia a toda a humanidade, colocando em risco a soberania do País.

Por isso, o governo do presidente Castelo Branco criou esse elenco de incentivos para vencer essas dificuldades e manter o homem aqui, não permitindo o esvaziamento e também para combater a cobiça internacional.

Com certeza, os países mais desenvolvidos sabem muito mais das riquezas que temos do que nós. Eles estão de olho na nossa biodiversidade, sabem que temos ouro, petróleo, gás, nióbio, um dos metais mais nobres do mundo.

Temos calcário, diamantes, titânio, e um monte de coisas boas. Só que ainda não exploramos. Tudo está debaixo da terra. E aí vem aquele sentimento de que vocês estão dizimando.

Agora, é estabelecer uma regra para que seja explorado. E aí a economia funciona, beneficiando a população. É o caso dos garimpos. Estabelecendo as regras para funcionar legalmente. E quem não obedecer, será punido. E pronto.

Não adianta discutir. Isso não vai resolver o problema. Só no Amazonas temos 4 milhões de habitantes, e 20 milhões em toda a Amazônia.

Se você comparar o nosso padrão de vida com o do Sul, nós somos paupérrimos. Hoje, 50% da nossa população do Amazonas vive na linha da pobreza. A gente precisa romper com isso. Gerar riquezas, empregos, renda, qualidade de vida. Isso é fundamental.

JC – E as perspectivas são boas?

AF – São boas. Esse Dia das Mães já foi melhor que o do ano passado. Significa dizer que o comércio, apesar das dificuldades internas e externas, está se recuperando. A única atividade que gerou empregos no trimestre foi o comércio. Estamos crescendo, é claro, não dentro das expectativas que gostaríamos de crescer, mas estamos crescendo. Isso é muito bom, é positivo.

JC – Melhor com Bolsonaro ou Lula?

AF – Temos um princípio que não existe nem bom nem ruim. Existe aquele que compartilha melhor a solução dos problemas com a atividade econômica. E esse é o nosso lema. Não é o cara que é mais bonito, o outro que é mais feio.

Na realidade, o que nós gostamos e estimulamos é o bom relacionamento que possa conduzir a soluções boas. Isso é muito importante.

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