Do vaticínio às entrelinhas dos discursos prefeituráveis – (Conclusão)

Nos dois artigos imediatamente anteriores, publicados nesta mesma estação de escritos emanais, entre os dias 24 a 31/10/20, abordou-se os discursos dos candidatos por conta das próximas eleições – Prefeitura e Câmara Municipal. No ensejo, considerações acerca dos 351 anos de Manaus, o significado da criação da Zona Franca e o mais, erros e acertos que tem envolvido a cidade.

No geral, algumas tocantes manifestações de estoicismo daqueles em direção aos eleitores, nisso, dentre todos, cabendo resgatar a volitiva afirmação do Prefeito, de notório acervo intelectual, diplomata até, que termina o ciclo no comando municipal, ao lançar o pitaco “meu sucessor terá a faca e o queijo na mão!” Quis, talvez, adequar-se ao nível dos pronunciamentos por vezes jocosos apontados acolá. E nesse estilo em curso, assim sequenciar o sucesso que atribui à sua regência ora se concluindo, passagem popular que bem coube.  Pronto!

Registre-se que estoicismo é uma escola e doutrina helenística fundada em Atenas, por Zenão de Citio na Antiga Grécia, no início do Século III a.C. Em tais moldes, preza-se a fidelidade ao conhecimento e o foco em tudo aquilo que pode ser controlado somente pela própria pessoa, desprezando todas as feições de sentimentos externos, como paixão e desejos outros. Trazendo para o hodierno, quem sabe resistir aos manejos da corrupção, não?

Sucede, ainda que questão singela, uma vez proposta não será demais disseca-la como segue. Assim, bem se sabe que a expressão “estar com a faca e o queijo na mão” significa sobretudo que alguma tarefa mostra-se fácil de ser realizada, bastando o necessário desempenho de quem recebeu tal regalo, passando a cortá-lo e apreciá-lo, mas vistas condições que mais adiante se vai narra-las.

Antes, colha-se de registros confiáveis, que tal expressão corria no interior de Minas Gerais, merecendo ampla difusão nas páginas do festejado romance de Mário Palmeiro intitulado “Chapadão dos Bugres”, publicado em 1965. É dito também que para alcançar um determinado resultado, denominando-se degustação do queijo, seja de selo francês ou mineiro, há de decorrer exaustiva aplicação até se chegar ao ponto de a faca e o queijo chegarem com qualidade na mão de quem vai operar com apuro.

Não é fácil. Dias, noites, fins de semana e feriados utilizados na ordenha e alimentação das vacas, maturação do queijo, boa cutelaria e amolação da faca até chegar ao ponto ideal de uso. Uma trabalheira prévia. Portanto, o novo prefeito tem que despachar a contento, ou vai ficar na mão, mas desta vez não com a mão na faca e no queijo, no substantivo, mas por certo adjetivado como todo cheio de nove horas no cargo, inoperante, quem sabe até ser criticado, a ponto de ouvir: Té leso, é? Conta outra!

Finalizando, dentre os significados da expressão aqui sub oculis, um deles remete a algo estar prontamente fácil de se operar, dependendo apenas da ação da pessoa que está com a mão na faca e de olho no queijo. Ocorre, dispor de uma faca mal amolada e um queijo que necessite de mais alguns dias para chegar ao ponto correto de maturação, são razões que põem a perder o objetivo buscado.

Ou seja, manter o apetite não saciado serve como estímulo para apurarmos nosso paladar, curando nosso queijo às condições ideais de temperatura e umidade, além de manter a faca sempre amolada, nisso buscando mais produções dessa iguaria. Por outra, ao recebermos qualquer faca e queijo nas mãos, sem indicativo de procedência, pode acontecer de não vir a vontade de comer, eis que as aparências não são convidativas. Então, resta conveniente sustentar o apetite não saciado para que se busque a qualidade ideal, tornando os desejos mais saborosos. No caso em espécie, fiquemos na expectativa do que pode aguardar o novo prefeito a ser eleito, torcendo para que receba o nutriente aqui teatralizado em boas condições de degustação.  

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