Dívidas com cartões e carnês voltam a subir no Amazonas

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Foto: Divulgação

O percentual de consumidores de Manaus endividados com cartões e carnês, entre outros meios de pagamento, voltou a subir, entre janeiro e fevereiro, após  dez meses seguidos de quedas. As famílias inadimplentes, assim como aquelas que já admitem que não podem pagar dívidas atrasadas, também passaram a ser mais numerosas. É o que mostram os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

Na sondagem, 67,8% das famílias manauenses (429.803) se dizem endividadas, batendo os números de janeiro de 2021 (67,2% e 425.722) e de fevereiro de 2020 (84,6% e 529.266). O índice de inadimplência passou de 27,6% (174.654) para 30,3% (192.040), ficando igualmente superior à marca de 12 meses atrás (26,3% e 164.340). A fatia das famílias que declararam já não ter condições de quitar dívidas em atraso voltou a embicar, chegando a 18,7% (118.641) em fevereiro, com incrementos em ambas as comparações.

Em âmbito nacional, 66,7% das famílias já se assumem endividadas, no terceiro aumento mensal seguido, chegando a atingir a maior proporção desde outubro de 2020. Mas, diferente do ocorrido na capital amazonense, a média nacional de consumidores em inadimplência caiu pelo sexto mês consecutivo – 24,5% contra 24,8% –, na menor proporção registrada desde fevereiro de 2020 (24,1%), antes do início da pandemia. O mesmo se deu entre as famílias sem condições de pagamento, que passou de 10,9% para 10,5%, chegando ao menor nível desde abril de 2020 (9,9%).

Tempo e dependência

A maioria dos manauenses (42,9%) se assume “muito endividada”, sendo seguidos pelos “mais ou menos endividados” (17,3%) e pelos “pouco endividados” (7,6%) –contra os 56,9%, 7,6% e 2,7% anteriores, respectivamente. Consumidores com renda total superior a dez salários mínimos predominam na média do indicador –puxados pelo grupo dos “muito endividados” (50,6%).

Entre os 30,3% que já contam com compromissos financeiros em atraso, por outro lado, predominam os que ganham menos de dez mínimos mensais (30,9%). Apenas 7,9% garantem que conseguirão quitar a dívida integralmente e 30,3% estimam que conseguirão pagar a dívida apenas parcialmente, em uma piora em relação a janeiro (7,7% e 32,2%, respectivamente). 

O tempo de inadimplência, contudo, mostrou queda. Em torno de 28,6% dos consumidores locais devem há mais de 90 dias –com destaque para as famílias mais pobres (29,4%). A fatia com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (56,9%) ainda é a maior. Em último lugar está o grupo pendente há menos de um mês (14,5%). Em janeiro, os números foram 30,8%, 54% e 15,1%, na ordem.

O mesmo afunilamento ocorreu nas estimativas de tempo para pagar dívidas. Caiu o percentual dos que estimam levar mais de um ano para isso (32,6%), assim como a parcela daqueles que não deve levará mais do que três meses para tanto (7,6%). Em contrapartida, cresceram os grupos de devedores comprometidos entre seis meses e um ano (40,6%) e por três a seis meses (11,9%). Os números anteriores foram 34,4%, 7,9%, 39,4% e 11,4%.

Cartão e comprometimento

Pela primeira vez, o carnê de compras passou a ser o vilão do endividamento e da inadimplência em Manaus, respondendo por 80,3% do bolo e com predomínio entre os mais pobres (82,3%). O cartão de crédito, por sua vez, passou para a segunda posição, ao cair de 98,5% para os atuais 75,5% –com percentual maior para as famílias mais ricas (97,2%). Em seguida, estão o crédito pessoal (61%), o crédito consignado (2,4%), os financiamentos de casa (1,4%) e de carro (1,3%), o cheque especial (1,2%) e “outras dívidas” (0,3%).

Em média, as famílias manauenses consomem 42,5% de sua renda para pagar dívidas – menos do que os 43,2% anteriores. Houve relativa melhora na distribuição por níveis de comprometimento. A maioria (61,6%) ainda gasta mais da metade dos ganhos mensais com dívidas. São seguidos de longe pelos que gastam de 11% a 50% (27,6%) e pelos que limitam os dispêndios a 10% (3,9%). Em janeiro, essas fatias foram de 63,9%, 25,9% e 3,2%, na ordem.

Efeito pandemia

O presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, destaca que o levantamento da CNC mostra um quadro relativamente diferente de Manaus em relação ao restante do Brasil. Isso ocorre, segundo o dirigente, porque o Estado conta com um “calendário da pandemia” “desconectado” do país, especialmente durante a segunda onda. 

“Encerramos o ano com restrições no comércio e isso praticamente bloqueia a possibilidade de endividamento. A partir da segunda metade de janeiro, as empresas estavam quase todas de portas fechadas, e isso impede as pessoas de comprar e se endividar. Outro aspecto é que os carnês de compras parceladas passaram a responder pela maior parte das dívidas. Hoje, estamos em fase de diminuição da pandemia, em função de nosso processo de vacinação ser mais acelerado do que o da média nacional. E só agora é que o restante do país experimenta o que vivemos há dois meses”, comparou.  

Poupança e empreendedorismo

Em texto distribuído à imprensa, a economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, explica que a proporção de famílias com dívidas tem crescido mais entre os mais ricos, desde novembro do ano passado, contribuindo para reverter a poupança acumulada por esses consumidores durante a pandemia, para manter as compras.  

“Já as famílias de menor renda, com o fim do auxílio emergencial, precisaram adotar maior rigor na organização dos orçamentos. Seu endividamento manteve-se estável no primeiro bimestre do ano, mas pode voltar a subir, uma vez que o crédito pode suportar pequenas iniciativas de empreendedorismo, no contexto de evolução lenta do mercado de trabalho”, alertou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, pondera que ainda é cedo para uma avaliação concreta do orçamento dos brasileiros em 2021. “Vimos que não houve explosão de inadimplência, até fevereiro, mesmo com mais famílias endividadas. Mas, o agravamento da crise sanitária e a demora da vacinação ainda vão desafiar a economia do país, principalmente no primeiro trimestre. Ao mesmo tempo em que as condições de crédito podem funcionar para a recomposição de renda, o impacto da crise no mercado de trabalho deve impor maior rigor às famílias na hora de consumir”, concluiu.

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