As noites manauaras estão tristes. Os bares estão fechados. Desde quando Manaus ainda não era Manaus, aqui surgiu o primeiro bar. E poucas vezes eles foram fechados de forma tão drástica como agora.

“Segundo Mário Ypiranga Monteiro, no período colonial existiu o boteco do Séo Melgaço, na orla fluvial do Lugar da Barra, onde se reuniam biriteiros, troladores e fofoqueiros para beber e falar da vida alheia que para mim, acredito ser o primeiro lugar boêmio do Lugar. Depois, no final do século 19, a boemia desbragada chegou com as libras esterlinas dos europeus a explorar as noites de orgias das pensões, dos hotéis e dos bordéis de luxo da cidade para se deleitar com jogos de azar, bebidas finas, tira-gostos apurados e leilão de virgens de araque”, contou o historiador Aguinaldo Nascimento Figueiredo em seu livro ‘Nos caminhos da alegria: roteiro histórico e sentimental da boemia de Manaus’, vencedor, no ano passado, do Prêmio Literário Cidade de Manaus, feito que repetiu este ano com ‘A indústria no Amazonas – memorial histórico’.

Hoje existem bares para todos os níveis sociais da cidade, dos mais simples bares de cachaça aos mais sofisticados com bebidas importadas. Mas na Manaus de 120 anos atrás não tinha nada disso, conforme lembrou Aguinaldo.

Nos bares pobres se consumia (igual hoje) muita aguardente de cana, a famosa ‘pinga’, às vezes produzida nas redondezas de Manaus. Os tira-gosto eram petiscos ordinários de pirarucu seco, frutas regionais (como limão), e carne de caça frita ou assada.

A cerveja e o chope chegaram depois, no início do século passado, importados da Europa ou de Belém, e eram consumidos mais nas residências e grandes bailes. Nos cassinos, hotéis e pensões se consumia vinho importado, champanhe e bebidas quentes. Os tira-gostos da Manaus repentinamente enriquecida passaram a ser de produtos refinados como salame, presuntos e queijos espanhóis, franceses e italianos entre outros.

O secular Bom Futuro

Uma parte do livro de Aguinaldo é dedicada aos bordéis, que começaram a surgir principalmente entre o final do século 19 e o início do 20, com as prostitutas estrangeiras que para Manaus vieram atrás da rica terra. Depois proliferaram pelas décadas seguintes, principalmente na então estrada de Flores, atual av. Constantino Nery, e Educandos.

“Os mais tradicionais bordéis, ou lupanares, como eram chamados, se localizavam mesmo na antiga estrada de Flores. O lugar era ermo, habitado por trabalhadores rurais e suas famílias, portanto longe dos olhares indiscretos da sociedade manauara fofoqueira daqueles tempos, o que não difere muito de hoje. Outro fator que pesava nessas localizações era o serviço de bondes elétricos que passava pelo percurso indo até a chácara ‘O Pensador’, antiga residência do governador Eduardo Ribeiro, cujo ponto final, inclusive, era bem ao lado de um dos mais antigos e famosos bar/bordel daquela época, o Bom Futuro”, contou.

Os prostíbulos de Manaus se dividiam em urbanos e suburbanos. Na ruas centrais da cidade existiram as pensões, se destacando no período áureo de suas existências a pensão da Lola, a mais famosa, que atendia a clientela masculina com serviços de restaurante, bebidas e muito sexo, atendendo a nata da sociedade machista mais abastada da cidade a exemplo de membros do judiciário, empresários, políticos e quem pudesse pagar por momento de carícias com as mulheres mais bonitas e cheirosas da mundanagem de Manaus, segundo testemunhos do Thiago de Mello.

Verônica, próximo à ponte dos Bilhares

“Depois, entre as décadas de 1930 e 1970, vieram os lupanares suburbanos, como o Verônica’s, Ângelo’s, Shangri-lá, Piscina, Iracema, Lá Hoje, Rosa de Maio e o maior e mais badalado da sua época, o Saramandaia, que recebeu este nome por causa da novela homônima da TV Globo, de 1976”, lembrou.

O Piscina club está entre os lupunares mais famosos entre as décadas de 30 e 70

Fecha e reabre

Outros ‘lupanares’ deixaram seus nomes na história da vida boêmia de Manaus: Maria das Patas, em Petrópolis; Poços de Caldas, no Aleixo; Chica Bobó, na Compensa; entre tantos. Rivalizando com a Constantino Nery, o bairro do Educandos imortalizou a Estrada dos Arigós (atual Leopoldo Peres) que abrigava também inúmeros bares e prostíbulos urbanos desde a década de 1950 e por toda a década de 1960, a exemplo do Dancing Fortaleza, dos bares Brasília, Copacabana e Nosso Bar, famosos mais pelas brigas violentas e casos de polícia que ocorriam em seu interior e redondezas, assim como na entrada do Emboca, hoje Santa Luzia, tinha o Big Bar e o bar do Orlando.

O Bar Quintino era um dos mais famosos entre os anos 70 e 80

“Disputas por mulheres, intrigas de ocasião, arroubos de macheza e calote nos lugares boêmios sempre terminavam em brigas violentas, às vezes com desforço físico, resultando sempre com feridos graves e até em vítimas fatais. Na zona do baixo meretrício, incluindo os bares, essas confusões eram bem corriqueiras. Devido à gravidade das ocorrências, muitos deles eram fechados pela polícia e por ordem judicial. Mas, como a promiscuidade reinava numa época de pouco valor para as leis, logo voltavam a ser reabertos a partir da intervenção dessas mesmas ‘autoridades’, e a alegria novamente reinava naqueles lugares onde acontecia todo tipo de diversão”, finalizou.

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