A ditadura militar imposta ao Brasil, em 1964, foi de uma brandura tal que resultou em somente 339 pessoas mortas ou desaparecidas, o que, se comparada e de seus vizinhos, nos faz afirmar que os militares brasileiros tiveram pouco trabalho para assumir o poder e nele permanecer quase sem oposição popular. O regime militar no Brasil durou 21 anos, passou pela fase de milagre econômico, mas se despediu com a economia em frangalhos. Precisou eliminar 339 pessoas para calar a oposição e impor sua vontade a mais de cem milhões de brasileiros.
Na Argentina, a ditadura durou pouco mais de seis anos, de 1976 a 1982, e deixou um saldo de trinta mil mortos ou desaparecidos, um número imensamente superior aos de brasileiros, dentro de uma população de cerca de trinta milhões de pessoas. Foi um massacre, mas foi também uma prova de que, se o regime foi cruel, a oposição a ele foi feroz, tenaz e resoluta. Nossos hermanos argentinos não podem ser considerados ferrenhos somente no futebol, porque também o são na política. Os militares argentinos tiveram de cometer muito mais atrocidades contra seu povo porque o mesmo não se curvou perante a vontade dos ditadores e foi às ruas, com armas na mão, para por abaixo a ditadura.
No Chile, o general Augusto Pinochet governou o país de 1973, depois do golpe contra Salvador Allende, até 1990 e pesam em suas costas a morte e desaparecimento de cerca de quinze mil pessoas. Já no Uruguai, a resistência popular a ditadura militar resultou também em milhares de mortos e desaparecidos, e com o fato de 1/3 da população ter abandonado o país, deixando nosso vizinho, atualmente na situação penosa em que se encontra, tanto em termo econômico quanto cultural. O êxodo dos uruguaios transformou sua nação em um país inexpressivo, que hoje não consegue sequer montar uma seleção de futebol para disputar uma Copa do Mundo, da qual já conquistou dois títulos.
Argentinos, chilenos e uruguaios, estes sim, lutaram contra o regime militar em seus países. Nós, brasileiros, quanto muito, fomos às ruas em alegres passeatas pedir mais liberdade. As manifestações em nosso solo pátrio eram dissolvidas com umas boas “borrachadas” da polícia e novamente a ordem estava estabelecida. Na América do Sul, o Brasil também foi o país que mais fundo chegou na questão da anistia para os perseguidos políticos, garantindo a eles aposentadoria vitalícia, com generosos proventos. Também adotou uma forma de política nacional para o enaltecimento dos combatentes mortos, não bastando transformá-los em heróis da resistência, mas oferecendo aos seus familiares uma indenização por cada parente morto.
Claro que para os familiares dessas 339 pessoas, trata-se de heróis, jovens mártires que lutavam por seus ideais e queriam apenas oferecer aos brasileiros melhores condições de vida e de dignidade. Mas é certo também que, para o governo estabelecido na época, eles não passavam de subversivos, autores de assaltos a bancos, seqüestros e atentados que resultaram em mortes dentro das tropas oficiais. Os militares mortos em defesa do regime não receberam os mesmos benefícios dos que estavam do outro lado da trincheira. O restante da tropa, soldados e oficiais, que lutou contra os membros das diversas facções políticas que pegaram em armas, foi agraciado apenas com o beneplácito da anistia, o que consiste dizer que seus crimes de guerra foram perdoados.

O último presidente general do Brasil, João Figueiredo, entregou o posto em 1985, saindo pelos fundos do Palácio do Planalto e pedindo para os brasileiros o esquecerem. Três anos depois, em 1988, os políticos escreveram uma Constituição cidadã, à sueca, que hoje não se coaduna à realidade do país e precisa ser emendada de tempos em tempos para pôr o Brasil nos eixos. Outorgaram aos brasileiros tantos direitos que uma simples ação judicial é suscetível a centenas de entraves e filigranas que entravam o próprio funcionamento da Justiça. Foi a fórmula encontrada pelos políticos que amargaram na oposição

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