Difícil equilíbrio entre rodas

Encerrou na sexta-feira, 25, o 6º Fórum de Bicicletas Manaus, realizado na Fundação Amazonas Sustentável. Durante os quatro dias do evento discutiu-se o tema ‘Comunicação e as Bicicletas: da sensibilização às pedaladas’, reunindo autoridades do poder público, tendo à frente o próprio prefeito Arthur Neto, diretores de empresas de bicicletas como a Caloi, Sense, Audax e Oggi, jornalistas locais e de outros Estados e ciclistas, muitos ciclistas.

O fórum, entre outros objetivos, discutiu a eficácia da bicicleta como uma alternativa viável de transporte na cidade, falou Paulo Aguiar, coordenador do movimento Pedala Manaus e promotor do fórum. “Não tivemos definição alguma de nenhuma proposta, mas o importante é que com um evento desses a bicicleta, e consequentemente os ciclistas, passam a ter mais visibilidade na cidade”, disse.

Apesar de ouvidos pelas autoridades, os ciclistas ainda se veem em desvantagem nas ruas. “No primeiro dia tivemos um protesto dos ciclistas, e todos puderam apresentar sugestões e falar de seus desejos sobre a prática do ciclismo. Atingimos o que, e quem, queríamos atingir”, garantiu Aguiar.
Aguiar elenca fatores que transformariam as bicicletas em veículos ideais para qualquer cidade. “Trata-se de um meio sustentável, não poluente, econômico, que ocupa pouco espaço, de baixo custo, que humaniza a cidade, promove qualidade de vida aos usuários e influencia positivamente na saúde física e mental, economia familiar, meio ambiente e integração social”, explicou.

Outros exemplos
Jornalistas de outros Estados vieram falar sobre as experiências com esse meio de locomoção em suas cidades: Zé Lobo, diretor da Transporte Ativo, do Rio de Janeiro; Renata Falzoni, idealizadora do portal Bike é Legal, de São Paulo; Josi Paz, coordenadora de comunicação, e Renata Flor, socióloga e coordenadora geral da ONG Rodas da Paz, de Brasília; e Tomás Martins, CEO da Tembici, de São Paulo; e até Enrique Penãlosa, prefeito de Bogotá/Colômbia.

Apesar das adversidades, Aguiar vê avanços na luta. “O que posso dizer é que cada ano avançamos um pouco. Por exemplo, as ciclo rotas (que dividem a pista com os veículos) no centro, ainda são poucas, mas começam a surgir. Aqueles grupos imensos de ciclistas que se via antes, se pulverizaram e hoje estão transformados em vários grupos menores. E são muitos”, falou.

Entre as mudanças mais visíveis, Aguiar cita um maior entendimento entre os condutores. “Notamos, também, que o respeito pelos ciclistas melhorou, mas ainda não é o ideal. Vamos continuar com nossas palestras e oficinas, mostrando para o poder público como o uso da bicicleta é importante como transporte e mobilidade numa cidade como Manaus, que não para de expandir”, finalizou.

Mas para o ciclista, quem precisa de uma atenção maior não são os grupos que saem para o lazer, mas aqueles ciclistas que usam a bicicleta como meio de transporte para o trabalho, para a escola ou para a universidade. “Muitos não são vistos porque saem de casa às seis da manhã. Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), de 2012, mostram que 4% dos manauaras usa a bicicleta de forma regular. Esses números devem ser maiores, agora”, concluiu.

Ser ouvidos e respeitados
Mas quem não está nada satisfeito com o atual estado de atenção dado aos ciclistas pelo poder público é Fernando Barroso, presidente da Comissão de Ciclistas do Amazonas que, em sinal de protesto, não participou do Fórum. “Já tivemos reuniões na secretaria de esportes. Nos fizeram promessas que ainda não foram cumpridas. Cadê os 80 km de ciclovias que o prefeito prometeu?”, cobra Barroso.

Segundo Barroso, as iniciativas do poder público municipal são realizadas sem estudos prévios. “Realizam obras, sem nos consultar, e acabam fazendo as ciclovias onde não deveriam ser feitas, como aquela do Boulevard, um local por onde não passa nem quase pedestres, quanto mais ciclistas. Enquanto que lugares onde as ciclovias são necessárias continuam sem elas, como a Ponta Negra, a avenida do Turismo e a Torquato Tapajós”, reclamou, e completou. “Imagine a quantidade de pessoas que vai diariamente para o trabalho pela Torquato e poderia fazê-lo de bicicleta e eu me coloco como exemplo. Eu tenho um carro, mas vou diariamente de bicicleta para o trabalho”, disse.

Ações sociais sobre duas rodas
E enquanto ciclista, Barroso sente nos ouvidos os xingamentos feitos pelos motoristas de veículos. “Você ouve palavrões e xingamentos de todos os tipos. O mais recente foi de uma motorista. Ela disse que eu era muito ‘desagradável’ por estar atrapalhando o trânsito, quando na realidade as bicicletas ajudam na fluidez do trânsito”. E disparou: “ninguém está interessado em ciclistas, em Manaus”, reclama.
Além da Comissão de Ciclistas do Amazonas, Fernando Barroso também é presidente do grupo ‘Pedalando com Você’, que possui 320 filiados. “Às segundas, terças e quintas-feiras saímos aqui do Alvorada não só como forma saudável de lazer, mas para realizar atos sociais. Um deles é ir até alguém viciado em drogas, indicado por algum dos integrantes do grupo, e integrá-lo a nós. Cedemos a bicicleta e os equipamentos de segurança e essa pessoa vai conosco. Se gostar, continuará tendo nossa atenção e apoio até largar as drogas”, contou.

De acordo com o ciclista, a Comissão reúne 36 grupos, totalizando mais ou menos 1.600 ciclistas. “Entre os atos sociais que realizamos, destaco o ‘Paz no trânsito’, o ‘Diga não à violência’, e o ‘Paz no Alvorada’, entre outros. Saímos pelas ruas com um trio elétrico na frente, animando, e os ciclistas atrás. No Dia das Crianças e no Natal distribuímos presentes para as crianças de algum local carente da cidade”, lembrou. “A Comissão foi criada para reivindicar os direitos dos ciclistas junto ao poder público. Queremos apenas ser ouvidos e respeitados. Só quem pedala sabe o quanto a vida se torna melhor”,
assegurou.

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