Nosso calendário presta homenagem ao Livro, dedicando-lhe vários de seus dias. Assim, há o Dia Nacional e o Dia Mundial do Livro. O Dia Nacional e o Dia Internacional do Livro Infantil. O Dia Nacional do Livro Didático. São homenagens simples, mais ou menos recentes, mas merecidas, a esse objeto que nos tem entretido, instruído, acompanhado desde antes da invenção da imprensa, quando os livros eram manuscritos em pergaminho. Nós, também, rendemos homenagem ao objeto chamado Livro, que nos engrandece a mente e o espírito, passando-nos conhecimento,  novas ideias, emoções, que nos transporta a lugares distantes, fazendo-nos imaginar e sonhar, que nos entretém, fazendo-nos rir, outras vezes, chorar, vibrar, varar a noite e entrar pela madrugada, ansiosos acompanhando seu enredo  palpitante.

No Dia Mundial do Livro, seria mais do que justo elevar nosso pensamento a esse companheiro leal que está conosco em todos os momentos que desejarmos, a ensinar-nos, a enlevar-nos, a divertir-nos.  

Sentimos, então, que o mínimo a fazer em reconhecimento ao que dos livros recebemos é ler Livros, é escrever Livros. Mas, o que podemos dizer se tanto já foi dito… Num esforço, lembramo-nos de Neruda, “livro, quando te fecho, abro a vida…”

Cada pessoa é dona de seu mundo. Fechando os olhos, podemos imaginar o que quisermos, podemos ir até bem longe, até onde nossa imaginação nos levar…   

Imaginemos, então, uma menininha, em casa de seus avós maternos, no Alto Rio Juruá, a bisbilhotar nas caixas que sua avó, professora rural, recebia do, então, Ministério da Educação, abarrotadas de cartilhas, tabuadas e de outros livros de história para distribuir com os filhos dos trabalhadores, no Seringal Bom Jardim, de propriedade da família.

No Seringal, havia uma escola e a professora rural tinha a função de ensinar as primeiras letras às crianças, que, diariamente, vinham sentar-se ao redor de uma grande mesa presidida pela professora. A aula começava. A professora fazia os alunos repetir o A B C, em seguida, juntar as letras, “um B com A, Bê a Bá”, e, finalmente, formar frases, “Eva Viu a Uva”. E os alunos, será que já viram uva?

O último estágio era a leitura das historinhas, como a do Jeca Tatu que era cheio de vermes, preguiçoso, ele, a mulher e os filhos, pois todos andavam descalços e não conheciam bons hábitos de higiene. Mas, certa vez um médico lhes prescreveu remédio para vermes e fortificante. Disse-lhes, também, que andassem calçados. Eles ficaram fortes, corados porque eliminaram os vermes e aprenderam a se cuidar. Jeca Tatu, então, criou coragem para trabalhar, prosperou e comprou sapatos para todo o mundo. Até para os porquinhos. E assim termina a história.

Naquela época, ninguém no Seringal desconfiava que a personagem do Jeca Tatu fora criação do grande Monteiro Lobato, que em seu livro “Urupês”, com 14 contos, denuncia a situação de miséria e abandono do caipira da região do Paraíba do Sul. Mas essa era também a realidade do caboclo do Amazonas, o beiradão ou beiradeiro, que vivia à beira do rio. Dessa forma, não há como não concordar com Joseph Conrad, “o autor só escreve metade do livro; da outra metade deve ocupar-se o leitor…”

Revivendo tudo isso, até sentimos exalar o cheiro de novo das cartilhas, das tabuadas, dos cadernos de caligrafia… Vem-nos à memória o ícone das Edições Melhoramentos. Aquele passarinho pousado sobre o globo terrestre, presente em todos os livros que folheávamos. A impressão era que todos os livros traziam aquela marca.

Foi assim que, acredita-se, a menininha aprendeu a ler com sua avó, junto com as outras crianças. No processo, ela acumulou a função de ajudante da professora. Como era curiosa e queria saber o que continham os livros de historinhas, lia tudo em casa com a permissão da avó e, na aula, ajudava-a com os alunos. Dessa forma, deve ter forjado a profissão de mestre, que finalmente abraçou.

Em um dia inesquecível, ela recebeu de presente de um tio seu primeiro livro de contos de fadas. Foi uma alegria indescritível. Leu e releu mil vezes as histórias recontadas pelos Irmãos Grimm, as histórias de Andersen, de Perrault… Essas histórias, ela passou a contar às outras crianças, tornando-se uma senhora contadora de histórias, das maravilhosas histórias do seu livro de contos de fadas.

Hoje, não mais menininha, ela tem na memória o livro que foi talvez o mais belo presente que recebeu, porque tinha sete anos, tinha aprendido a ler e, com aquele livro, voava para bem longe, para o país das fadas e das outras personagens nele imortalizadas. Anos depois, lendo Emily Dickinson concluiu que, de fato, “não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes.”

Ela ainda teria muitas reminiscências a contar sobre o Livro, esse objeto sedutor, essa caixinha de surpresas, capaz de imobilizar-nos em um canto durante horas e de transportar-nos a rincões nunca dantes sonhados. Mas, já é tarde e precisamos parar em algum lugar… Abrindo os olhos, lentamente, ela se vê ainda bisbilhotando livros. Não os das caixas de sua avó, mas os seus próprios, arrumados em estantes em sua biblioteca.  Então, pensa que eles, os seus livros, são os únicos objetos que ela não gostaria de deixar para trás se tivesse de partir para outro lugar.

*Marluce Portugaels é Professora [email protected]

Fonte: Marluce Portugaels

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