Desvios de conduta crescem

As empresas de todo o mundo passaram a ser mais observadas pelo mercado e pela sociedade em relação às práticas de ética e integridade. Diante desse cenário, é necessário que as organizações respondam de forma transparente, assertiva e tempestiva às ocorrências de desvios de comportamento. A Deloitte, maior organização de serviços profissionais do mundo, lança sua pesquisa “Riscos de Conduta”, que traça um panorama de como as 125 empresas participantes têm lidado com o recebimento e o tratamento de denúncias relacionadas aos riscos de conduta.

O relatório conclui que os riscos acontecem, especialmente nas frentes de prevenção e investigação. Entre os entrevistados, 85% têm mecanismos de prevenção, enquanto 82% contam com estruturas de investigação. Os outros mecanismos adotados pelas organizações são: gestão de consequências (75%), monitoramento (71%) e detecção (71%). Cerca de um terço das empresas que adotam mecanismos de combate a desvios de conduta têm faturamento superior a R$ 5 bilhões, o que mostra que organizações de maior porte tendem a ter mecanismos mais robustos de combate a essas ocorrências.

“As empresas estão lidando com riscos interconectados e em rápido desenvolvimento, sendo mais observadas e cobradas no que diz respeito a comportamentos que, felizmente, hoje não são mais tolerados. Dessa forma, as organizações precisam agir de forma cada vez mais rápida, transparente e assertiva. Para isso é necessária uma boa estrutura de governança e compliance, com forte canal de denúncias, que não só garanta o anonimato do denunciante, mas que sirva principalmente para a rápida identificação do problema e para a aplicação de medidas disciplinares”, destaca Alex Borges, sócio de Risk Advisory da Deloitte.

Canal de denúncias deve ser seguro e independente

O canal de denúncias é a instância de detecção de desvios de conduta mais adotada pelas empresas participantes do estudo (85%). Para que seja efetivo, é fundamental que o canal seja seguro e independente e que adote práticas e tecnologias que contribuam para melhorar a qualidade das informações dos relatos. Entre as empresas participantes que contam com um canal de denúncias, dois terços têm uma empresa independente operando essa instância de prevenção e detecção de desvios, ou seja, terceirizam o serviço. Das empresas com canal de denúncias operante, nove em cada dez garantem o anonimato e a proteção do denunciante contra retaliações.

Telefone (85%), e-mail (83%) e site (82%) são os canais mais utilizados para o recebimento de denúncias. Outros meios de recebimento utilizados são: carta (44%), caixa de sugestões (15%), redes sociais (13%), chatbot (5%) e chat online (4%). As ocorrências de assédio moral e de fraudes são as que o canal de denúncia está mais preparado para receber e endereçar -92% em ambos os casos. Os outros tipos de denúncias que o canal está preparado para lidar, de acordo com a pesquisa, são: apropriação indevida (89%), assédio sexual (89%), violação de normas (87%), discriminação (87%), corrupção (84%), violação de leis (81%) e abuso de autoridade (76%).

Entre as organizações respondentes que contam com canal de denúncia, 91% têm a etapa de coleta de dados e 86% a etapa de análise de denúncias. Resposta ao denunciante (74%), avaliação do impacto do risco das ocorrências (61%), pré-apuração das denúncias (52%) e prescrição de resoluções a denúncias (48%) são as demais etapas. A pesquisa aponta que a área de compliance é a que concentra o recebimento de denúncias em 61% das empresas, enquanto a auditoria interna tem conduzido as apurações e investigações para 35%.

Entre as políticas e diretrizes de prevenção que mais são adotadas estão: código de ética e conduta (96%), normativo de canal de denúncias (72%), política de anticorrupção e compliance (72%) e política de auditoria interna (67%). A pesquisa revela que a maioria das organizações conta com algum tipo de instância de prevenção, detecção e respostas a desvios de conduta, com destaque para o canal de denúncias (85%). A ampla maioria (93%) das empresas avalia as denúncias sob aspectos jurídicos.

De acordo com os entrevistados, a principal dificuldade para investigar as ocorrências é a qualidade das informações (60%). Na sequência estão falta de recursos tecnológicos (30%), falta de pessoal preparado e dedicado (29%), falta de recursos financeiros (11%), ausência de políticas de acesso a computadores e documentos (11%), ambiente de trabalho hostil e a possibilidade de retaliação (5%) e dificuldade de realizar entrevistas presenciais (2%).

O papel estratégico da liderança na gestão de riscos de conduta

O reporte da área responsável por riscos de conduta ao conselho de administração (38%) e ao comitê de ética (31%), de acordo com a pesquisa, minimiza problemas de conflitos de interesse. Já o reporte ao CEO (31%), embora não seja o mais recomendado, é uma realidade para as empresas de estrutura mais enxuta. Outras áreas a quem os responsáveis pelos riscos se reportam são: comitê de auditoria (30%), compliance (17%), auditoria interna (9%), recursos humanos (5%), jurídico (5%) e diretoria (4%).

As empresas com maior maturidade tendem a ter lideranças mais engajadas no combate a desvios de conduta, como parte relevante da estratégia para preservação e geração de valor. 81% das empresas participantes têm a alta administração como patrocinadores das ações de desdobramento dos riscos de conduta; já 76% têm como prática a alta administração considerar riscos de conduta ao discutir a estratégia de negócio.

Medidas disciplinares em casos de assédio moral

Entre as organizações pesquisadas, 80% identificaram desvios de conduta nos últimos quatro anos; dessas ocorrências, 65% não receberam autuação, o que pode indicar tempestividade nas respostas, bem como diretrizes sólidas de gestão de consequências. Já 16% sofreram autuações por conta de violação legal relacionada a essas ocorrências. Entre as organizações autuadas, 94% apontam ter realizado a revisão de processos como consequência dos desvios identificados. Apropriação indevida e fraudes (69%), assédio moral (63%), violação de normas e leis (56%) e corrupção (44%) foram as denúncias mais procedentes no período.

A definição de medidas disciplinares, segundo a pesquisa, dá o tom da liderança das organizações em relação a essas ocorrências. As decisões previstas em caso de assédio moral confirmado, entre as empresas participantes, são: advertência formal (61%), demissão sem justa causa (57%), advertência verbal (47%), demissão com justa causa (46%), treinamento (43%) e retratação formal (17%); 18% dos entrevistados não souberam informar.

Comunicação e treinamento sobre riscos de conduta

Para que de fato promova a melhoria contínua e o fortalecimento de uma cultura de ética e integridade e de não tolerância a condutas indevidas, a gestão de consequências precisa ser complementada com comunicação e treinamento. A maioria das organizações pesquisadas (85%) tem treinamentos periódicos sobre ética, conduta e integridade. Entre essas empresas, 71% dedicam até 20 horas anuais e 77% direcionam os treinamentos a todos os profissionais, incluindo os terceirizados.

Metodologia e amostra

A pesquisa Riscos de Conduta, realizada pela Deloitte, contou com a participação de 125 empresas por meio de entrevistas realizadas em outubro de 2020. Entre as organizações respondentes, 71% tiveram receita superior a R$ 500 milhões em 2019 e 72% dos entrevistados ocupam cargos executivos e de governança. A distribuição geográfica da amostra dividiu-se da seguinte forma (considerando a sede administrativa das empresas): 56% em São Paulo, 16% nos demais Estados da região Sudeste, 15% na região Sul, 9% no Nordeste, e 4% no Centro-Oeste e no Norte do país. Adicionalmente, 27% das empresas participantes são de infraestrutura, 16% de atividades financeiras, 16% de serviços, 10% de manufaturas, 10% de farmacêutica e saúde, 9% de agronegócio, alimentos e bebidas, 6% de comércio e bens de consumo e 6% de TI e telecomunicações. Do total, 90% contam com conselho de administração.

Foto/Destaque: Divulgação

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