A consolidação da democracia e a prevalência dos preceitos politicamente corretos como base de uma sociedade harmoniosa e pacifica pressupõem, com muita pertinência, o respeito aos direitos das chamadas minorias. Felizmente, tais conceitos, embora ainda aquém dos padrões de civilidade e urbanidade mais adequados, avançam no Brasil.
Entretanto, há um aspecto que poucos têm observado nesse contexto: a justa preocupação e constante mobilização dos formadores de opinião na defesa dos direitos das minorias têm relegado a segundo plano a garantia das prerrogativas da maioria. Trata-se, na verdade, de uma distorção, pois, num regime de liberdade política e igualdade social, devem ser respeitados direitos e deveres de todos.
A população feminina é uma das maiorias da população brasileira cujos direitos têm sido sistematicamente desrespeitados, apesar de incipiente melhora nesses 23 anos desde a redentora campanha das “Diretas Já”, em 1984, marco de nossa redemocratização. Apenas para deixar claro o raciocínio, é importante observar as estatísticas populacionais do IBGE: hoje, para cada 100 mulheres, há 97 homens. Em 2050, serão 95 habitantes da população masculina, ante 100 da feminina. Os problemas dessa “maioria”, como se sabe, são muitos, a começar pela diferença salarial de 30% em relação aos homens, considerando os mesmos cargos e grau de instrução dos profissionais, indica o instituto.
Levando em conta essas questões, é fundamental que a inteligência nacional, os poderes constituídos e as instituições contribuam para o equilíbrio de direitos e deveres, para que homens e mulheres, juntos, sem qualquer discriminação, consigam construir um Brasil melhor, menos violento e injusto na distribuição da renda e mais capacitado a prover melhor qualidade de vida a todos os seus filhos.
Assim, é lamentável verificar que, exatamente dentro da Câmara dos Deputados, templo sagrado da democracia, ecoem os ecos da discriminação, do preconceito e do desrespeito à mulher e ao Legislativo, representante legítimo do eleitorado no contexto dos poderes da República. Como mulher e presidente de uma entidade do Terceiro Setor dedicada à saúde, à valorização da vida de pessoas de todos os gêneros, idades, credos e etnias, não pude admitir na ocasião o absurdo comportamento do deputado federal Clodovil Hernandes (PTC-SP).
O parlamentar deveria estar apresentando projetos de lei em prol da população, ao invés de ficar proferindo frases absolutamente ofensivas à população feminina. Como é triste para a nação ouvir um deputado eleito pelo voto direto dizer coisas como “as mulheres brasileiras são ordinárias, trabalham deitadas e descansam em pé”. Pior foi a agressão à deputada Cida Diogo, quando esta o interpelou pelas infelizes declarações e ouviu grosseira resposta: “Referi-me apenas às mulheres bonitas, mas ela é tão feia que não serve nem para ser prostituta”.
É lamentável que em uma época que o país tem passado inúmeros casos de corrupção e desmandos, ainda há parlamentar com este tipo de atitude. Só para lembrar e não esquecer o fato, ao mesmo tempo que o país precisa mesmo é de projetos sociais.

Merula Steagall é presidente da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia e Associação Brasileira de Talassemia.

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