Desmatamento e queimadas no Amazonas preocupam

Por Alfredo Lopes(*) 

No último dia 22, o G1 Amazonas publicou matéria sobre o desmatamento na Amazônia Legal, destacando que o estado do Amazonas é o segundo no ranking, perdendo apenas para o Estado do Pará, tradicionalmente destacado entre os mais predatórios da região. A notícia traz a confirmação de que os dados são oficiais e de responsabilidade da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Qual é a gravidade desta informação? 

São múltiplas as respostas, e todas elas rompem um compromisso moral de proteção florestal. Este triunfo está presente em todas as narrativas que invocam nosso direito à compensação fiscal. Ou seja, ao mecanismo que dá suporte a economia do Amazonas. Embora não esteja na Lei, esta atribuição, historicamente assumida pelas entidades que representam o setor produtivo local, associou economia e ecologia em sintonia. Confirmada oficialmente a performance obscura do Amazonas, o dado inclui, além do desmatamento, outra constatação constrangedora:  os municípios de Lábrea e Apuí lideram o ranking das queimadas na região. 

Desmatamento e queimada compõem parte daquilo que está comprometendo o agravamento da mudança climática, a emissão dos gases do efeito estufa, GEE. E o que é mais inquietante: em algumas localidades, a Amazônia passou a emitir mais do que fixar os gases perversos, segundo pesquisa recente. 

Perder a condição de “sumidouro” desses gases, no limite,  é como perder a batalha mais importante de nossas vidas, porque com ela deixamos de apoiar/produzir o viço e a vida, e a integrar a nuvem nefasta da destruição. Simultaneamente às revelações da má notícia, foi publicada no dia 22 uma entrevista com a pesquisadora Luciana Gatti, do INPE, no jornal O Estado de São Paulo, sob o título “Pesquisadora sofreu com depressão ao constatar que Amazônia emite mais carbono que absorve”. 

A noticia é bombástica embora haja controvérsias a respeito, incluindo o posicionamento formal do pesquisador e cientista Niro Higuchi, do INPA. Para ele, o critério de avaliação desta conclusão é a mensuração da temperatura dos últimos 140 anos (1880-2020). Isso não foi o ponto de partida da pesquisadora. E o cientista recomenda esta premissa para respaldar com segurança a conclusão. “O aquecimento não é linear e aparentemente as Leis de Newton não explicam o que aconteceu a partir de 1880. Isso permite apenas deduzir que, se houver uma freada nas emissões dos gases de efeito estufa, uma força inercial vai se manifestar e temperatura deve continuar aumentando.” Ele anunciou a publicação de uma Nota Técnica a respeito para os próximos dias. 

 Em qualquer cenário, nós não podemos abrir mão da Ciência. É nela, aliás, que estão calcados os investimentos aqui instalados. O que precisamos é assegurar os melhores argumentos e recursos metodológicos e de especialistas de comprovada responsabilidade técnica. Só assim poderemos participar de iniciativas e medidas que podem resguardar este patrimônio de valor imensurável, que temos colaborado em preservar e está sob risco. Controvérsias, dúvidas e intuições, a propósito, fazem parte da metodologia científica, depressão e medo já são de uma outra esfera. E o que move a ação da Ciência, Tecnologia e Inovação é a curiosidade, a dúvida e a necessidade. 

Temos destacado nas diversas narrativas a preservação da cobertura vegetal do Amazonas acima de 95% considerando o estoque original. Com a má notícia   e à luz dos indicadores mais recentes, iremos verificar que este percentual tem diminuído vertiginosamente. Se nada for feito, isso significa perder um argumento vital para embasar o conjunto de justificativas da compensação fiscal para o Amazonas e para Amazônia Ocidental, uma região remota e desprovida de infra-estrutura, como se sabe.

Ficamos, portanto, diante de um dilema crucial. Poderíamos invocar o argumento de que seria lícito manejar 20% da floresta, e reivindicar esta parcela de remoção dos estoques naturais que o Código Florestal, teoricamente, autorizaria. Certamente, não será desmatando muito menos queimando. O Amazonas, sob a batuta do próprio Niro Higuchi, liderou a mobilização de 32 das melhores universidades estrangeiras, sob patrocínio do governo Japonês, para entender como se dá a dinâmica do carbono no bioma amazônico. E com isso, entre outras descobertas e avanços, criou tecnologia de MFS, Manejo Florestal Sustentável para gerar emprego, renda e fortalecer a saúde floresta. 

Este caminho, promissor e mais coerente com a nossa história de desenvolvimento sustentável desde os primórdios do programa Zona Franca de Manaus, permitiria, também, promover atividades produtivas, de diversificação da economia atual do estado, pondo em prática o programa de Bioeconomia previsto no documento-base da fundação Getúlio Vargas, Amazônia do Futuro, produzido com a participação de economistas e outros especialistas  da região, com apoio efetivo das entidades que representam o setor produtivo do polo industrial de Manaus.

Com inteligência e diplomacia, podemos ainda estimular sinapses desta nova economia, adensada e regionalizada, através de permuta de informações e experiências produtivas,  com outras regiões do Brasil. E assim afirmar opções da vocação de negócios mais coerente com o nosso acervo florestal, hídrico e geológico. O economista e empresário Denis Benchimol Minev tem insistido na necessidade de promover o desenvolvimento sustentável na floresta como a melhor forma de geração de riqueza e prosperidade social, e de proteção florestal. Sua bandeira ilustra um princípio inatacável da sustentabilidade segundo o qual a melhor maneira de conservar os parâmetros naturais é atribuir-lhe uma finalidade econômica. Voltaremos à pauta.

Foto/Destaque: Divulgação

Qual sua opinião? Deixe seu comentário

Gostou do Conteúdo? Assine nossa Newsletter

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email