Desencanto das MPEs na busca ao crédito

A proporção de micro e pequenos empresários amazonenses que dizem que foram atrás de crédito desde o começo da crise da covid-19 para manter seus negócios funcionando caiu de 78,3% para 54,5%, entre maio e junho. Em paralelo, aumentou o percentual dos que tiveram seus pedidos de empréstimo negados, de 48,8% para 50,6%. Desde o início das medidas de isolamento, apenas 16,3% daqueles que solicitaram financiamento tiveram sucesso e outros 33% ainda aguardam avaliação dos bancos.

Um agravante vem dos efeitos dessa leniência bancária no endividamento dos pequenos empreendedores amazonenses. Pelo menos 50,9% estão com dívidas e em atraso –contra os 32,2% de um mês antes. A fatia de empreendedores com seus empréstimos em dia também sofreu decréscimo no mesmo período, de 35,2% para 27,6%. A minoria que afirma não possuir qualquer tipo de pendência financeira (21,5%) também já foi maior (32,6%).

É o que mostra a quarta e mais recente da pesquisa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre o impacto da pandemia nas MPEs (micros e pequenas empresas). O levantamento foi realizado em todo o país, entre 29 de maio e 2 de junho, às vésperas do início do primeiro ciclo de reabertura das lojas em Manaus. Foram ouvidos 7.403 empreendedores, sendo 56,7% de MEI (micro empreendedor individual), 38,1% de microempresas e 5,2% de EPP (empresas de pequeno porte) –e um total de 87 pessoas jurídicas no Amazonas.

Público e privado

Diferente do ocorrido na maior parte das unidades federativas, a Caixa Econômica Federal –tradicional parceiro do Sebrae –foi a segunda opção para quem buscou financiamentos para sobreviver ao fechamento compulsório do mercado no Amazonas, respondendo por 39,7% da procura local. Vale notar que apenas 6,7% dos empreendedores foi encaminhado à Caixa, enquanto outros 46,2% nem procuraram alguma orientação do Sebrae. 

A maioria (44,9%) recorreu a outros canais de crédito não informados na sondagem. Mesmo sendo uma empresa privada, o Bradesco (28%) teve maior demanda do que o Banco do Brasil (19,2%). Na sequência, vieram o Santander (14,8%), o Banco do Povo (8,1%) e o Itaú (5,8%). Apenas o Bradesco (54,4%) e o Banco do Brasil (45,6%), no entanto, concederam empréstimos aos micros e pequenos empresários do Amazonas. 

Os motivos mais frequente para as negativas aos financiamentos são a negativação ou restrição do CPF do candidato ao empréstimo (33,2%), motivos não informados pelo banco (26,3%) e a negativação da empresa no Cadin (Cadastro Informativo de Créditos Não Quitados do Setor Público Federal) e Serasa (13,2%), dificuldades de aprovar o cadastro por não dispor dos documentos e certidões exigidas pela instituição financeira (5,7%), ou mesmo a simples ausência de garantias ou avalista (5,7%). 

Demanda e desconhecimento 

A maior parte da demanda micro e pequeno empresarial por crédito no Estado se concentrou na faixa dos R$ 5.000,01 a R$ 10 mil (33%). Em torno de 24,5% miraram em financiamentos de maior valor (R$ 20 mil a R$ 30 mil), enquanto outros 20,5% precisavam de menos (R$ 10 mil a R$ 20 mil). Os empréstimos inferiores a R$ 5.000 foram a escolha de 10,2%, ao passo que 6,7% arriscaram um pedido entre R$ 30 mil a R$ 40 mil. O teto da procura ficou entre R$ 75 mil a R$ 100 mil e se restringiu a 5,2% dos casos.  

A pesquisa apontou também que o desconhecimento ainda é a tônica dominante entre os empreendedores locais. Apenas 3,2% sabem o que é um fundo de aval. Sobre o Fampe (Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas) –mecanismo que permite ao Sebrae ser avalista complementar de financiamentos para pequenos negócios –, 30,6% só ouviram falar e ninguém tem conhecimento pleno. A situação não é muito diferente em relação ao Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), onde 72,3% admitem não saber nada. 

Acesso difícil

A gerente da unidade de Gestão e Estratégia do Sebrae-AM, Socorro Correa, lamentou que o apoio creditício não tenha vindo como deveria e avalia que essa questão é mais crítica no Amazonas do que em outros Estados. Segundo a executiva, o acesso às linhas de crédito de bancos oficiais é difícil e o cliente enfrenta obstáculos até para acessar as gerências das instituições financeiras. 

“Os bancos financiam empresas com as quais têm relacionamento. Empresas não clientes enfrentam dificuldades aos financiamentos do governo. Infelizmente, as dívidas continuam altas e não vão estabilizar até que as empresas voltem a ter nível de faturamento praticado antes da crise da covid-19. É um processo que não se resolverá em dias, mas em pelo menos seis meses, a depender dos novos dias de pandemia”, sentenciou Socorro Correa.

Fora do mercado

Na mesma linha, o coordenador de Acesso a Crédito pelo Sebrae-AM, Evanildo Pantoja, avalia que muitas empresas, mesmo já podendo funcionar pelo calendário de reabertura em Manaus, não conseguirão se manter no mercado, se a ajuda financeira do governo não chegar a tempo, dada a demora para as empresas terem acesso aos recursos anunciados. Por conta disso, muitos empresários estariam desistindo do negócio para não contrair mais dívidas.

Pantoja salienta que os pequenos negócios foram os mais afetados pela crise e estima que sua retomada ao patamar pré-pandemia será gradativa e lenta, já que “a maioria está na UTI”. No entendimento do executivo, a pesquisa só confirma a avaliação dos empresários de que esse processo de recuperação levará em torno de um ano –para os que conseguirem sobreviver. E, para não contraírem mais.

“Em torno de 80% dos empreendimentos viram seus faturamentos despencarem entre 50% e 70%, desde o início da pandemia. Agora, com a reabertura, não estão conseguindo reestabelecer com a mesma celeridade e várias medidas que estavam ajudando já tiveram seu tempo esgotado, a exemplo da suspensão de parte do quadro de funcionários e do financiamento da folha de pagamento. Mais de 50% das empresas já possui dívidas atrasadas e os protocolos de retomada para vários segmentos exigem investimentos, o que agrava ainda mais a situação”, encerrou.

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