Desconfiança generalizada entre o empresariado, segundo pesquisa do CNI

A crise do Covid-19 gerou uma desconfiança generalizada entre o empresariado industrial, tanto para produzir, quanto para investir e contratar. Em maio, a queda de expectativas se deu em 29 segmentos da indústria nacional e entre as pequenas empresas em particular, em que pese um resultado comparativamente melhor para as empresas do setor atuantes na região Norte e para o polo de duas rodas – mas não para o eletroeletrônico.  

A boa notícia é que, a despeito de 74% das indústrias ter sido impactada pela decomposição do cenário econômico, com redução de faturamento nos últimos 45 dias para 82% delas, 50% das empresas não demitiram nem pretendem promover desligamentos no curto prazo. Entre as que reduziram o quadro funcional, 78% avaliam que a medida será temporária, ainda que 86% afirmem que haverá redução de receita no setor industrial como um todo em 2020.

Os dados estão em duas pesquisas divulgadas pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), nesta semana. A primeira é o ICEI (Índice de Confiança do Empresário Industrial) Setorial – na qual a zona de confiança está acima da linha divisória de 50 pontos. A segunda é uma sondagem encomendada pela entidade ao Instituto FSB Pesquisa para entender melhor o impacto, o posicionamento e as perspectivas dos empresários em meio à crise do Covid-19. 

O cenário apontado pelos índices de confiança, conforme a CNI, é preocupante. Nenhum dos 29 setores considerados está sequer próximo do nível de confiança registrado há um ano. E todos estão abaixo dos 50 pontos, o que mostra falta de confiança. O indicador varia de 0 a 100, sendo que a linha de corte é o valor 50. Qualquer dado abaixo dele é negativo.

Em maio, o ICEI de 14 setores caiu em relação a abril de 2020. Entre eles, as principais quedas foram nos setores de couro; manutenção de máquinas e equipamentos; químicos; calçados e materiais elétricos. “Outros equipamentos de transporte” (polo de duas rodas) subiu de 32,6 para 41,5 pontos, enquanto “equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos” caiu de 31 para 30,1 pontos.

O ICEI das empresas de pequeno porte manteve-se praticamente estável, com queda de 0,1 ponto, renovando piso histórico. Os índices de médias e grandes empresas recuperaram ligeiramente, com alta de 1 ponto e 1,7 ponto, respectivamente. O indicador é menos negativo nas regiões Centro-Oeste e Norte, com altas de 4,6 e de 2,5 pontos, respectivamente. As demais regiões registraram variações positivas inferiores a um ponto e continuam abaixo da linha de corte.

“Tivemos melhora na confiança em 15 setores em maio em relação a abril de 2020, mas nada que pudesse reverter o cenário de pessimismo iniciado durante a pandemia. A melhora aparenta ser apenas um ajuste à forte queda registrada em março”, explicou o gerente-executivo de Pesquisa e Competitividade da CNI, Renato da Fonseca, no texto divulgado pela CNI.

Condições financeiras

Para 77% dos entrevistados pela FSB Pequisa, a situação é muito grave (35%) ou grave (42%) no Brasil. O levantamento mostra, ainda, que três em cada quatro executivos diminuíram ou paralisaram a produção e 67% afirmam que têm condições financeiras para manter as atividades por apenas mais três meses. Apesar do quadro desafiador, 44% acreditam que a economia brasileira vai registrar expansão nos próximos dois anos.

Os impostos foram apontados como os problemas financeiros mais significativos pela maioria dos entrevistados (26%), seguido da folha de pagamento (23%). Diante do quadro, o adiamento ou parcelamento do pagamento de impostos representa a política mais eficaz do governo para 38% dos executivos. A maioria aprova as medidas governamentais, mas as considera insuficientes. Sete em cada dez executivos consideram apropriadas as iniciativas adotadas pelo governo. Quando questionados se essas ações eram suficientes o índice de concordância cai para 39%.    

Para garantir a preservação dos empregos, conforme o levantamento, muitos empresários foram obrigados a reduzir a jornada de trabalho com diminuição proporcional dos salários (39%) ou suspenderem os contratos (22%). O estudo revela que 56% dos empresários recorreram aos programas oficiais do governo federal e 53% renegociaram com fornecedores.  

“É possível enxergar a resiliência do empresário industrial nos dados trazidos pela pesquisa. A demissão é uma das últimas opções e, por isso, é preciso dar condições para evitar que os executivos cheguem a esse ponto. Os dados mostram que as medidas trabalhistas, que resultaram em mais de 8 milhões de acordos individuais para redução de jornada e salário e suspensão de contratos de trabalho, foram importantes para a preservação de empregos”, afirmou o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, no texto da CNI. 

Financiamento e insumos

Presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) e vice-presidente Executivo da CNI, Antonio Silva, aponta que os dados de ambas as pesquisas refletem a extensão da pandemia do Covid-19 no setor. Entre os problemas identificados, o dirigente diz que os tributos, salários e encargos, são os mais difíceis de enfrentar, principalmente quando há dificuldades na captação de recursos nas linhas de financiamento disponibilizadas pelo governo, mas geridas pelos bancos. 

O dirigente, que também preside o Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas de Manaus, e já esteve à frente do Sindicato da Indústria de Bebidas em Geral do Amazonas, diz que as causas mais prováveis para a queda de confiança dos segmentos químico e de bebidas são a falta de insumos, que afeta a extensa cadeia produtiva. “Há também as dificuldades trazidas pelas medidas de combate à pandemia que impactaram negativamente o grau de confiança do empresariado, ao vislumbrar uma queda significativa da demanda”, encerrou. 

Fonte: Marco Dassori

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