Desalento empresarial em alta no Amazonas

A segunda onda de covid-19 derrubou a confiança dos lojistas de Manaus, em março, após quatro meses seguidos de alta. A baixa na capital amazonense seguiu a trajetória da média nacional, mas veio com mais força. A insatisfação foi puxada pela percepção em relação com as condições atuais dos negócios, refletindo maior pessimismo em relação a investimentos e estoques. Os dados são do Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), da CNC (Confederação Nacional do Comércio). 

O indicador registrou 119,7 pontos na capital amazonense, recuando 9% em relação à marca de fevereiro (131,5 pontos), além de ficar 14,5% abaixo do patamar de março do ano passado (139,9 pontos) – mês em que a pandemia ainda estava começando no Amazonas. Em todo o Brasil, o índice da CNC recuou 1,5% e foi a 103,6 pontos – a terceira retração consecutiva –, além de sofrer um tombo de 19,3% na variação anual. 

Apurado entre os tomadores de decisão das companhias comerciais, o levantamento avalia condições atuais, expectativas de curto prazo e intenções de investimento. Pontuações abaixo de 100 representam insatisfação, enquanto marcações de 100 até 200 são consideradas de satisfação. A Confederação Nacional do Comércio sondou 6.000 empresas de todas as capitais do país – 164 delas, em Manaus. 

Todos os nove subíndices do Icec sofreram retração mensal, com destaques para nível de investimento das empresas/NIE (-18,6% e 87,9 pontos) e das condições atuais das empresas comerciais/CAEC (-17% e 110,6), do comércio/CAC (-15,3% e 106,6) e da economia brasileira/CAE (-13,8% e 97,8). As empresas comerciais/EEC (-6,1% e 155,2), do comércio/EC (-5,1% e 152,3) e da economia brasileira/EEB (-3,5% e 150,5) vieram na sequência, sendo secundados por contratação de funcionários/IC (-2,4% e 124,8) e situação atual dos estoques/SAE (-1,8% e 91,6).

Contratações e investimentos

Em torno de 45,4% dos comerciantes de Manaus consideram que a situação atual da economia brasileira “melhorou um pouco”. Em seguida estão os que dizem que “piorou um pouco” (27,3%), que “melhorou muito” (8%) e que “piorou muito” (19,3%). Sobre as condições atuais do setor e da empresa, a maioria acha que “melhorou um pouco” (48,7% e 44,9%, na ordem) – contra os 60,6% e 60,3% anteriores. Em ambos os casos, a percepção é mais positiva nas empresas com mais de 50 empregados e que comercializam bens semiduráveis.

A opinião majoritária em relação às expectativas para a economia ainda é que vai “melhorar um pouco” (56,4%), seguida pelos que acreditam que vai “melhorar muito” (31,4%). O otimismo é mais relativo para o setor (56,9% e 31,4%, respectivamente) e para a empresa (54,1% e 34,9%), com destaque para os semiduráveis para ambos. Há mais satisfação em relação ao comércio para companhias de menor porte, enquanto o inverso se dá para a empresa.

A maioria absoluta ainda diz que o contingente de trabalhadores deve “aumentar pouco” (51,4%), seguida de longe pelos que avaliam que pode “reduzir pouco” (28%). Em contrapartida, a expectativa majoritária para investimentos nas empresas passou a ser prioritariamente “um pouco menor” (33,7%), em detrimento de “um pouco maior” (26,3%) – e 24,2% já acreditam que será “muito menor”. O otimismo predomina entre as empresas maiores e que trabalham com semiduráveis (aportes de capital) e duráveis (contratações).

Dificuldades na retomada

O presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, destaca que a pontuação e os números comparativamente melhores de Manaus em relação à média nacional indica um descolamento da capital amazonense em relação ao restante do país, dado que esta sofreu os impactos do repique da pandemia antecipadamente, enquanto as demais regiões brasileiras ainda estão na subida da segunda onda. Já a variação mensal comparativamente pior decorreria das dificuldades do setor no período de flexibilização.

“A pontuação de Manaus está melhor, mas está caindo sistematicamente ano a ano. Muitos empresários não renovaram seus estoques em função da crise, e isso representa muita coisa. Nós, que estamos distantes de nossos fornecedores, e temos uma logística ainda complicada, sofremos um efeito muito drástico com isso. Estamos tendo uma retomada gradativa do comércio, mas a atividade está sofrendo os efeitos de uma paralisação de mais de dois meses e do fato de que as empresas não conseguiram repor seus estoques para a reabertura, refletindo nos investimentos do setor”, lamentou.

Restrições e indefinições

Texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC conclui que os dados do Icec refletem as dificuldades motivadas pela demora na imunização da população, no pagamento dos benefícios sociais e por conta da economia ainda não entrar numa fase de decolagem. O presidente da entidade, José Roberto Tadros, avalia que a implementação de medidas restritivas ao comércio em praticamente todo o país e as indefinições sobre o novo auxílio emergencial geraram desconfiança no setor. “A dependência do varejo presencial ainda é grande, apesar dos avanços na digitalização. Esperamos que haja agilidade em relação à vacinação, que é o mais urgente no momento. Mas precisamos também de salvaguardas econômicas e sociais”, frisou.

No mesmo texto, o economista responsável pela pesquisa do Icec, Antonio Everton, diz que há outros fatores que impactam o negócio do comerciante, além das dificuldades provocadas pela pandemia com relação ao mercado, como a pressão de custos sobre os preços finais, dólar alto e reajustes nos contratos de aluguel. “Com as medidas restritivas e a baixa imunização, parece que estamos ainda em 2020. No curto prazo, o índice tende a se comportar dependente de fatores como esses, oscilando em reação com o humor do consumidor”, concluiu. 

Foto/Destaque: Divulgação

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