Desafios de um ‘novo normal’ na economia de Manaus

Em 2020, Manaus alcançou a marca de 2,2 milhões de habitantes e já é a 7º cidade com população acima de 1 milhão de habitantes no ranking das maiores cidades do país. Também responde por 78,54% do PIB (Produto Interno Bruto) do Amazonas, com R$ 73,202 bilhões, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019.

É o terceiro município mais industrializado do Brasil e a metrópole dominante da Amazônia Ocidental, segundo a pesquisa REGIC 2018 (Regiões de Influência das Cidades) do mesmo IBGE. O estudo aponta que a capital do Amazonas exerce influência e atrai moradores de 71 cidades, que se deslocam até aqui, em busca de negócios, serviços públicos e compras. 

De Manaus, saem para os grandes centros, produtos como tablets, smartphones, videogames, televisores, notebooks, motocicletas, bicicletas, condicionadores de ar, canetas esferográficas, barbeadores, entre outros, por meio de dois modais principais – o aéreo e o rodofluvial. As empresas que participam da Zona Franca de Manaus têm acesso a uma política tributária diferenciada do restante do país, objetivando minimizar os custos amazônicos e as desigualdades regionais.    

Hoje, a ZFM é um dos pontos altos nas discussões da reforma Tributária proposta pelo Congresso Nacional. Uma delas é a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 45, que partiu da Câmara dos Deputados, e não apresenta sugestão de continuidade para os benefícios fiscais do modelo econômico. Com isso, coloca em xeque sua sobrevivência, essencial para a continuidade da geração de quase meio milhão de empregos, entre diretos e indiretos.

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Indústria e comércio

Para o setor industrial, o principal desafio pela frente é a questão da reforma Tributária, reforça o presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Wilson Périco. “Estamos trabalhando muito para nos posicionarmos. Qualquer que seja a proposta a ser aprovada, que contemple o modelo Zona Franca, dentro do direito constitucional que temos. Ao governo federal cabe trabalhar na melhoria da infraestrutura e na estabilidade das regras do jogo, trazendo segurança jurídica ao investidor, para que ele possa aportar recursos, produzir, gerar empregos, pagar impostos e aferir resultados”, defendeu.

O presidente em exercício da Fecomércio- AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, comenta que economicamente a cidade, principalmente nas suas atividades ligadas ao setor de comércio e serviços, passou por momentos muito difíceis, em mais de cem dias de paralisação nas atividades. Isso, segundo o dirigente, gerou dificuldades para as empresas que, privadas de funcionar, tiveram de queimar capital de giro. 

“Mas, o importante é que a atividade comercial se reconstituiu. O governo do Estado foi muito feliz em fazer um calendário de reabertura gradativa do comércio e das atividades de serviço de Manaus. Dentro do Estado, somos o maior arrecadador de tributos e o maior empregador. Temos muitos motivos para festejar o aniversário da cidade de Manaus, mesmo com este ano de pandemia”, amenizou.

Desemprego e estímulos

Diante dos últimos dados de emprego no primeiro trimestre, o economista Guilherme Fernandes avalia que, pela própria dinâmica que a doença assumiu na capital, bem como pelo comportamento sazonal do fim do ano, é possível que vejamos reversão da tendência de elevação do desemprego nos dois últimos trimestres de 2020. 

“Isto é importante em um momento de redução do valor pago a título de auxílio emergencial pelo governo federal, que é recebido por 60% dos domicílios amazonenses. A melhora na crise sanitária que vem ocorrendo no restante do país também é oportunidade para a capital, uma vez que grande parte da produção da Zona Franca é destinada aos mercados consumidores de outras unidades federativas. Como passamos pelo pico da crise sanitária relativamente mais rápido do que o restante do país, estamos preparados há meses para atender à demanda, que certamente crescerá até dezembro”, avaliou. 

Para o pesquisador em Sociedade, Emprego e Trabalho, Márcio André Araújo de Oliveira, no debate improvável entre contaminação versus economia, ou covid-19 versus negócios/desemprego, é importante recortar o momento antes da pandemia. “O desemprego estava oscilando na média de 12%, durante os últimos quatro anos. É evidente que a pandemia afetou parte da economia, paralisou temporariamente outros, e inflou a taxa de desemprego. Para alguns setores, como a aviação, ocorreu a ‘mão invisível’ do Estado”, comentou. 

Por outro lado, prossegue o pesquisador, micros e pequenos negócios que não conseguiram resistir, irão precisar de algum tipo de apoio para se “reinventar”. “Por isso, é correto afirmar que no empreendedorismo os agentes sociais e as instituições econômicas precisam se relacionar mutuamente. Não se faz uma relação socioeconômica, nem empreendedorismo de modo solitário. Pode perguntar ao senhor Zuckerberg”, argumentou, citando um dos criadores e atual CEO do Facebook. 

Empreendendo na necessidade

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Em Manaus, empreendedorismo praticamente equipara-se à “viração”, observa Márcio de Oliveira. O ciclo começaria com a pessoa perdendo o emprego e não conseguindo recolocação no mercado. Com isso, entra no índice de desocupação do IBGE e precisa urgentemente de renda para sobreviver. “Falar de empreendedorismo em Manaus, mesmo antes da pandemia, é não deixar de falar da luta de sobrevivência diária. Os milhares de manauaras que, em uma espécie de trama social, fazem circular mercadorias embaixo do semáforo, lojinhas de camelódromo, bancas de café e churrasco de esquinas”, listou.

“Empreender”, prossegue o estudioso, significa ainda apostar em algo que seja, em tese, novidade de mercado e que gere determinado lucro ao longo do tempo. Projetando para si o chamado “risco calculado”, indivíduos de classe Média já há algum tempo estão migrando cada vez mais para empreendimentos financeiros, como sócios em determinadas empresas. 

“Isso ocorre a partir da bolsa de valores, na compra de ações e demais categorias chamadas de ativos. Classes médias altas podem calcular seu risco, a partir de sua condição econômica mais estável. Mas, como empreender nas classes empobrecidas? Os últimos dados do IBGE, na Síntese dos Indicadores Sociais de 2019, demonstram que é nessa situação que se encontra a capital do Amazonas, um tipo de empreendedorismo ‘por necessidade’”, sentenciou. 

Nas páginas a seguir, o leitor acompanha os aspectos econômicos de Manaus como oportunidades, inovação, investimentos em outros setores. Mas, sobretudo, histórias de gente daqui que foram obrigadas a inovar em meio à primeira pandemia do século 21. Estão entre aqueles que conseguiram encontrar uma forma de sustento, diante do desemprego crescente, intensificado pelo fechamento de empresas e quebra de negócios, acarretados pelo agravamento da crise econômica, o isolamento social exigido no pico de contaminações por coronavírus e o “novo normal” que surgiu depois.

Reportagem de Fabíola Abess

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