Dependência do crédito aumenta em Manaus, aponta pesquisa da CNC

Apesar dos impactos econômicos da crise do Covid-19, o percentual de famílias de Manaus que se dizem endividadas sofreu refluxo entre abril e maio, embora esteja acima da marca de 12 meses atrás. No caso dos inadimplentes, houve recuo mensal e anual. O mesmo não pode ser dito da faixa de consumidores manauenses que admitem que não poderão mais pagar as contas. A capital amazonense seguiu a trajetória nacional, embora com números bem acima dos registrados pela média brasileira.  

A conclusão vem dos números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). O levantamento levou em conta a quantidade de famílias com dívidas contraídas com cheques pré-datados, cartões de crédito, carnês de lojas, empréstimo pessoal, compra de imóvel e prestações de carro e de seguros. 

Na sondagem, 83,4% das famílias manauenses ouvidas (523.167) se dizem endividadas, patamar inferior ao apresentado em abril de 2020 (84,8% e 531.454), mas acima da marca registrada em maio de 2019 (77,5% e 479.468). Foi o segundo menor número desde janeiro deste ano (80% e 499.674), quando o indicador sofreu repique e entrou em trajetória de alta – após meses seguidos de baixa. Em âmbito nacional, o indicador caiu de 66,6% para 66,5% na variação mensal, mas cresceu frente ao mesmo mês de 2019 (63,4%).

O índice de inadimplência de Manaus (22,3% e 140 mil famílias) voltou a encolher pelo segundo mês seguido, após o repique de março, ficando bem abaixo o número de abril de 2020 (26,1% e 163.494) e praticamente com a a metade do número de 12 meses atrás (41,4% e 256.226). A proporção de consumidores brasileiros com dívidas ou contas em atraso caiu 0,2 ponto percentual na comparação mensal, ficando em 25,1%. No comparativo anual (24,1%), contudo, houve crescimento. 

A fatia correspondente às famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso aumentou pelo segundo mês seguido em Manaus e chegou a 12,5% (78.436) – contra 11,9% (74.902) em abril. Mas, o percentual seguiu muito abaixo do registro de maio de 2019 (17,4% e 108.003). No país, o indicador também avançou, passando de 9,9% para 10,6%, entre abril e maio, na maior proporção registrada pela pesquisa, desde abril de 2018.

A fatia de endividados pode ter caído, mas o grau de dependência do crédito para quem já está ‘pendurado’ por compromissos financeiros aumentou. Entre as famílias manauenses, 53,3% se assumem “muito endividadas” – percentual bem acima do de abril (46,6%). Em seguida, vêm aqueles que se dizem “mais ou menos endividados” (16,5%) e “pouco endividados” (13,5%), com números bem aquém dos capturados na sondagem anterior (21,8% e 16,4%, respectivamente). No primeiro e no segundo caso, predominam os consumidores com renda total de até dez salários mínimos. 

Comprometidos no cartão

Em Manaus, o maior vilão do endividamento e da inadimplência ainda é o cartão de crédito, que aumentou sua participação no bolo. Em nível local, 92,3% das famílias já estão nessa situação – contra os 87,1% de abril. O percentual é maior entre as que ganham mais (98,5%). Carnês (61,2%) comparecem na segunda posição e também elevaram muito sua fatia em face do levantamento anterior (48,4%). O público preferencial, neste caso, é dos que recebem menos (63,4%). No Brasil, as pendências se concentram em cartão de crédito (76,7%), carnês (18%) e financiamento de veículos (11,1%).

Em média, as famílias de Manaus consomem 43,8% de sua renda para pagar dívidas – contra os 40,3% do mês anterior. A maioria esmagadora (68,4%) já compromete mais da metade de sua renda mensal com pagamento de dívidas. São seguidos de longe por aqueles que gastam de 11% a 50% (20,3%) e pelos que limitam os dispêndios a 10% para esse fim (4,7%). No mês anterior, essas fatias foram de 53,8%, 28,6% e 8%, respectivamente. 

“O endividamento e a inadimplência podem ter caído em números de consumidores, mas estão pesando mais para as famílias. O que se percebe é um aumento do uso do cartão de crédito e de parcelamentos para pagar as contas do dia a dia. Há mais crédito disponível na praça, mas o BC está tendo de induzir os bancos a terem disposição de negociar. Mas, é bom lembrar que os números nos dão uma fotografia antiga desse processo”, ponderou o presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens e Serviços do Estado do Amazonas), Aderson Frota.

Gargalo no crédito

Em texto divulgado pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, destaca que o cartão de crédito vem perdendo espaço para outros tipos de dívida, em função de ser uma das modalidades mais caras de crédito. Ela observa também que, mesmo com as incertezas impostas pela pandemia, a inadimplência não mostra trajetória explosiva – pelo menos por enquanto. “Com medidas de auxílio à renda, como o coronavoucher, as famílias mostram alguma resiliência na quitação de seus compromissos financeiros”, apontou.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, destaca que medidas como a injeção de liquidez na economia e a queda das taxas de juros, assim como o impacto de uma inflação mais baixa na manutenção do poder de compra do consumidor – especialmente os de renda mais baixa – está ajudando as famílias a atravessarem a crise.  

O dirigente lamenta, no entanto, que a maior aversão ao risco no sistema financeiro esteja impedindo que o crédito alcance os consumidores, de fato. “Apesar da pequena queda no mês, o endividamento está em proporção elevada, sendo importante também viabilizar prazos mais longos para os pagamentos das dívidas, como forma de evitar o crescimento da inadimplência nos meses à frente”, concluiu.

Fonte: Marco Dassori

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