Na época em que o estado controlava mais ainda a economia que hoje, tínhamos pérolas públicas ainda mais hilárias que agora. A única diferença é que na época da ditadura não se podia achar graça das hilariedades oficiais. Quem risse das patacoadas oficiais era passível de muitos choros futuros.
Naquele tempo o combustível era um assunto de estado. Aos postos de serviço eram determinados horários, preços e toda outra sorte de imposições que começavam com uma grande dificuldade em conseguir a concessão. Ninguém podia oferecer preço diferenciado, para maior ou para menor, sob o risco de ter sua concessão de trabalho cassada uma vez que os direitos individuais há muito tinham ido pro brejo.
Quem não se lembra dos postos fechando aos domingos para a população gastar menos gasolina? Quem não se lembra da Polícia Rodoviária Federal fiscalizando os bagageiros dos automóveis em busca de um galãozinho de gasolina? Quem não se lembra da Ford lançando o Corcel II com o tanque com capacidade para 80 litros de gasolina para minimizar o sofrimento dos seus clientes que assim podiam rodar o final de semana sem levar o galãozinho extra?
O Brasil era um grande importador de petróleo e a população pagava o pato. A Petrobrás administrava a conta e auferia lucros cada vez maiores. Foi criado o pró-álcool e os pobres plantadores de cana acreditavam que conseguiriam utilizar o álcool em seus veículos sem burocracia, driblando os preços controlados pelo governo e pela Petrobrás. Veio ela de novo e chamou a si o controle de qualidade e a distribuição. O governo meteu a mão com as alíquotas cada vez mais altas e dessa relação incestuosa Governo & Petrobrás nasceu um álcool carburante a granel mais caro por litro que uma lata de óleo de cozinha embalada, transportada e manuseada por cinco intermediários.
A Petrobrás é uma das empresas mais ricas do mundo. Tem musculatura para enfrentar o desafio do pré-sal. Isso tanto em credibilidade financeira como em credibilidade técnica. O governo insiste em dizer que a Petrobrás é nossa. Acredito nele. Embora meu nome não conste entre os acionistas, sempre paguei pela gasolina e pelo álcool os preços que ela exigiu. Considerando que dirijo há quarenta anos, sendo cada dia forçado a ajudar na capitalização da “nossa” Petrobrás, meu ativo dentro da empresa deveria estar muito alto.
O presidente Lula faz um discurso que os benefícios do pré-sal chegarão a todos os brasileiros. Até agora já temos uma vaga ideia de quem vai ajudar a pagar a extração: nós mesmos que compramos gasolina. Hugo Chávez, amigo de Lula tem um entendimento diferente de como favorecer o povo com o petróleo de seu país. Repassa a gasolina aos seus compatriotas a R$0,05 o litro. Não que concordemos o uso irresponsável que se dá à gasolina na Venezuela. Mas é trinta vezes menos que paga o brasileiro pelo “nosso” petróleo.
A mania de formar um grande bolo com a promessa de dividir depois é usada por todos os governantes e empresários que precisam de investidores. Delfim Netto, czar da economia no auge do “Milagre Econômico” também usou essa estratégia. É como se todos fôssemos auxiliares no treinamento de lutadores de boxe. Antes de termos qualquer direito, temos de entrar com a cara, enquanto o governo usa a luva.
A euforia em torno do pré-sal é saudável. Embora as previsões otimistas vejam resultados apenas para daqui a 8 anos, é bom sabermos que temos riquezas estocadas a alguns milhares de metros. Contudo, pagar preços caríssimos pelo combustível, encarecendo o transporte de todos os produtos tendo petróleo disponível, com o objetivo de financiar os investimentos de uma das maiores empresas do mundo é como viver a pão e água para não mexer numa polpuda poupança. Pior ainda quando no fim se descobre que o governo precisou mexer na poupança para garantir algum investimento estratégico.
A diferença do ontem e do hoje é que agora podemos manifestar nossa descrença, embora não faça diferença alguma. Apenas não somos punidos por pensar.

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