28 de junho de 2022
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Custo dos insumos aumenta mais do que o esperado pela indústria

Operação no Porto de Suape. Terminal de containers. Suape (PE) 15.10.2014 - Foto: José Paulo Lacerda *** Local Caption *** Porto de Suape

A escalada dos custos industriais, decorrente dos choques de commodities e da piora no quadro das cadeias globais de produção, surpreendeu a indústria, em março. Sondagem Especial da CNI (Confederação Nacional da Indústria) aponta que o nível de aumento dos custos de insumos e matérias-primas nacionais superou as expectativas de 71% das empresas das indústrias extrativas e de transformação. A taxa foi menor (58%) para as que dependem de importados, e que já vêm sofrendo há mais tempo essa situação, como impacto reforçado no câmbio –a exemplo das fábricas do PIM. 

O levantamento, que ouviu 1.842 empresas em todo o país, mostra que o aumento generalizado dos preços nacionais surpreendeu mais de 80% das empresas dos subsetores de produtos de borracha, biocombustíveis, metalurgia, veículos automotores e produtos de limpeza. A alta de custos dos insumos importados, por outro lado, superou as expectativas de 100% das empresas de biocombustíveis, de 94% das indústrias de produtos de borracha, de 75% do setor de impressão e 73% da indústria química.

Dados do IBGE confirmam que a inflação da indústria disparou em março. O IPP (Índice de Preços ao Produtor), que leva em conta os preços na “porta da fábrica”, sem acréscimos de tributos e frete, escalou 3,13%, em março –contra os +0,54% de fevereiro. Em 12 meses, a taxa acumulou 18,31%, tendo pontuado 4,93% no trimestre. A escalada dos custos foi puxada pelos segmentos de refino de petróleo e biocombustíveis (+1,23 pontos percentuais), alimentos (+0,71 p.p.), indústrias extrativas (+0,61 p.p.) e outros produtos químicos (+0,57 p.p.). 

Em vídeo postado no site da CNI, e distribuído por sua assessoria de imprensa, o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo, observa que o setor já enfrentava “uma série de problemas” de abastecimento na virada do ano, com uma elevação de custos “importante” em seus insumos e atrasos nas entregas, embora parecesse que os problemas estavam se encaminhando para sua solução. “O que a sondagem mostra é que os aumentos de custos ocorridos no começo deste ano superaram o previsto e as dificuldades para adquirir insumos também aumentaram e ficaram acima das expectativas”, frisou.

Mudança de estratégia

Os entraves nas cadeias de suprimentos estão fazendo o setor rever suas estratégias e mudar sua configuração. Em torno de 40% da indústria geral que depende de insumos importados informa que já pretende buscar fornecedores no Brasil. Lideranças do PIM apontam dificuldades para a adoção dessa estratégia, em âmbito local. Entre as empresas que já compram no mercado nacional, 43% afirmam que buscam outros fornecedores no país. A parcela de companhias que buscam alternativas no estrangeiro é de 18%. 

A mudança de rumos ocorre em sintonia com o refluxo do otimismo. A proporção de indústrias que preveem normalização da oferta ainda em 2022 é de 39%. Em outubro de 2021, 80% tinham essa percepção. Em torno de 25% aguardam retorno à normalidade para o fornecimento de insumos nacionais e 31% avaliam que o mesmo se dará para os importados. A entidade também destaca que o percentual de respostas “não sei/prefiro não responder” foi significativo e sinaliza as dificuldades para previsões, diante do contexto atual.

Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNI, o gerente-executivo de Economia da entidade, Mário Sérgio Telles, salienta que a pressão sobre os preços coincide com a invasão da Ucrânia pela Rússia. O dirigente lembra que, além da “grave consequência humanitária”, o conflito também agravou a desestruturação das cadeias de suprimento, que já vinham sofrendo desde o advento da pandemia de Covid-19.

“A guerra e as sanções impostas à Rússia acentuaram o problema das cadeias de suprimentos, gerando gargalos no fornecimento de insumos e energia, além de barreiras ao sistema de logística internacional. Esse fato provoca atrasos e interrupções no fornecimento de insumos, além da excessiva elevação de preços, como temos visto”, analisou, esquecendo de acrescentar o impacto da escalada dos preços dos combustíveis nessa dinâmica.

Dependência dos importados

O presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, destacou à reportagem do Jornal do Commercio que as dificuldades impostas pela escalada dos custos da matéria-prima tendem a ser ainda maiores para o parque fabril da capital amazonense, em razão da maior parcela das partes e peças utilizadas pela indústria incentivada são importados. 

Os dados mais recentes da Suframa, incluídos nos Indicadores informam que o PIM gastou US$ 3.19 bilhões na aquisição de insumos, no primeiro bimestre deste ano. A maioria esmagadora dos dispêndios (68,03%) foi direcionada para produtos de procedência estrangeira (US$ 2.17 bilhões). Apenas 15,10% eram de procedência nacional (US$ 481.77 milhões) e 16,87% eram oriundos de fornecedores regionais (US$ 583.12 milhões).

“O cenário é ainda mais acentuado, quando trazemos para a realidade do Polo Industrial de Manaus. A dependência de insumos importados de nossas indústrias flutua na faixa de 80% a 90%, a depender do subsetor fabril. Qualquer variação nos preços ou fornecimento dos insumos estrangeiros tem elevado impacto no fluxo produtivo das fábricas locais. Este tem sido um dos principais problemas enfrentados pelo PIM, nos últimos dois anos. A expectativa é que uma estabilização só comece a ser sentida a partir de 2023”, frisou.

Dificuldades técnicas

Já o presidente da Aficam (Associação dos Fabricantes de Insumos e Componentes do Amazonas), Roberto Moreno, ressaltou à reportagem do Jornal do Commercio que a troca do quadro de fornecedores de partes e peças para fabricantes de bens finais da Zona Franca de Manaus não é tão simples. O dirigente acrescenta que a substituição para componentes mais técnicos e específicos precisa ser analisada mediante “as particularidades desses produtos”. E acrescenta que, diante disso, manter “uma grande parte dos fornecedores atuais” ainda deve ser a melhor opção.

“Mesmo mantendo as especificações técnicas dos produtores do bem final, a troca é mais complicada. Depende minimamente da validação em testes que confirmem a manutenção das especificações originais desses componentes. Para acontecer isso, há todo um processo de desenvolvimento de um novo fornecedor, que demanda tempo para fabricação de amostras, e realização de testes com protótipos para atestar a performance dos produtos. Mesmo após aprovação, ainda é necessário atender aos volumes de produção previstos com essas novas empresas”, explicou.

Segundo Roberto Moreno, as empresas de bens finais e intermediários têm trabalhado “fortemente em conjunto” para adequar e buscar manter as programações previstas. “Mesmo com alguma variação devido a faltas que podem ocorrer em algum momento, a alternativa da manutenção da parceria e compromisso entre as empresas deve auxiliar o setor a passar estes momentos ainda conturbados”, concluiu.

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