Custo do crédito volta a cair em junho, diz Anefac

Os juros voltaram a cair nos empréstimos pelo terceiro mês seguido, em junho. Quatro das seis linhas de crédito ao consumidor investigadas pela Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) apresentaram recuo, enquanto as duas restantes ponturaram estabilidade (juros do comércio e CDC-bancos – financiamento de automóveis). A queda foi mais forte e total para as pessoas jurídicas.   

O custo do dinheiro para pessoas físicas retrocedeu 0,70% e passou de 5,69% (maio) para 5,65% (junho) ao mês – o menor valor desde dezembro de 2013. Para as pessoas jurídicas, o corte foi de 1,96%, corrigindo o valor de 3,06% para 3% mensais – o patamar mais baixo da série histórica. As respectivas taxas anuais ficaram em 93,39% e 42,58%.

Diretor executivo de estudos e pesquisas da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, atribuiu a rebaixa no custo do dinheiro especialmente aos seguidos cortes da Selic e a expectativa dos agentes econômicos de que isso continuem acontecendo, dado o cenário recessivo e de inflação (ainda) em baixa. Em sua reunião mais recente, ocorrida há um mês, o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a taxa a seu nível mais baixo até hoje: 2,25% ao ano. 

Considerando todas as elevações e reduções do BC desde março de 2013, a Selic sofreu decréscimo de 5 pontos percentuais (ou 68,96% a menos), passando dos 7,25% de sete anos atrás para os 2,25% atuais. No mesmo período, a taxa média para pessoas físicas avançou 5,42 pontos percentuais (+6,16%), de 87,97% para 93,39% ao ano. No caso das pessoas jurídicas, os juros caíram 1 ponto percentual (-2,29%), de 43,58% para 42,58% anuais. 

Oliveira, que também é o responsável pela sondagem, aponta outros fatores para a nova retração dos juros no setor bancário: redução dos depósitos compulsórios, operações de crédito com juros baixos e aportes do governo para pagamento das folhas das empresas pequenas e médias. Teria pesado também a renegociação de dívidas com remunerações menores e o cuidado dos bancos em não agravar ainda mais o quadro de inadimplência e solvência das empresas e pessoas físicas.

O dirigente considera, no entanto, que o horizonte para os juros baixos está se fechando, em decorrência da deterioração do cenário econômico nacional pelos impactos da crise da covid-19. Com o maior risco de crédito e a elevação da inadimplência, a tendência seria, então, que as taxas voltem a subir. “Mas algumas ações do BC podem amenizar estas altas, como redução de impostos, compulsórios e reduções da Selic e por aí vai”, amenizou.

“Apetite voraz”

Embora concorde que o risco de inadimplência seja elevada, o presidente em exercício da Fecomércio AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, avalia que ainda há fôlego para novas reduções, em razão do atual ensaio de retomada da economia pela reabertura dos setores e pelo crescimento da concorrência das fintechs.

“Os juros estão em seu nível mais baixo, a economia melhorou e o governo está fazendo a parte dele, baixando a Selic e induzindo os bancos a emprestarem e negociarem mais. E as instituições tem todo o interesse em reduzir seu cadastro de inadimplentes. Um dono de restaurante que conheço, por exemplo, me informou que o banco fez uma concessão inédita na dívida dele, que ele quitou no ato”, afiançou.   

Segundo o Frota, a tendência dos bancos é “baixarem a guarda” para negociar mais porque as fintechs estão com “apetite voraz” para aproveitar a portabilidade de crédito e atrair novos clientes. E o fato de estas contarem com custos comparativamente menores, prossegue o presidente da Fecomercio-AM, é um agravante para as grandes empresas de um setor que, até então, estava acostumado a não ter concorrência, em face de sua concentração em cinco grandes bancos.     

Bolha de inadimplência

Na mesma linha, o presidente do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Estado do Amazonas), Francisco de Assis Mourão Filho, também considera que o aumento da concorrência no setor bancário pela emergência das fintechs tende a mover os juros para baixo na ponta do consumo. “Muita coisa mudou com a pandemia. O que vemos hoje é uma verdadeira guerra dos bancos digitais. Outra vertente é que os próprios consumidores buscam juros mais baixos”, asseverou. 

O economista concorda que a redução da Selic e a liberação dos compulsórios ajudam a induzir os bancos a emprestar menos para o governo e mais para pessoas físicas e jurídicas, a despeito da crise da covid-19. O presidente do Corecon-AM alerta, no entanto, que o risco de um novo estouro de uma bolha de inadimplência pode ser iminente no país. “É um cenário cada vez mais provável. Se nada for feito para reduzir o atual desemprego em massa, isso deve ocorrer no segundo semestre de 2021”, encerrou. 

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