Crônicas, nas batidas do tempo

“As opiniões circulam como as moedas, poucas pessoas são capazes de verificar o seu peso, toque e valor intrínseco.”`

Marques de Maricá

Quem nunca leu uma crônica? Muita gente leu e não sabe que leu uma. Aqui no Brasil temos cronistas fabulosos, em várias épocas e muito blog hoje, é filho da crônica. Mas os cronistas estão e estiveram aí sempre, escrevendo suas estórias – às vezes até com H – contando coisas de seu tempo a seu modo.

E de repente lendo uma crônica antiga temos a chance de vivenciar aquele momento passado, de alguma forma, neste momento. Entender o passado é um desafio para todos nós, mas as crônicas deixam rastros interessantes de como o autor sentiu naquele pedacinho do tempo coisas que muitas vezes ainda são coisas que vivemos. É bom vivenciar momentos que nos alimentam, apesar da distância de tempo que nos separa, sensações e sentimentos nos aproximam. Como se vencêssemos a barreira do tempo e encontrássemos seus autores e suas preocupações em alguma outra dimensão. De acordo com o dicionário as crônicas são relatos e narrações históricas ou registro de fatos comuns vivenciados na sua atualidade, no momento em que eram vividos, enquanto seu autor as escrevia.

De Machado a Rubem Braga, até hoje

Por exemplo, hoje em plena pandemia, o tema da vacinação nos toma de novo como uma preocupação importante e presente no nosso dia-a-dia. Numa crônica de Machado de Assis de 9 de dezembro de 1894, tempo das primeiras campanhas de vacinação aqui, antes até do Dr. Osvaldo Cruz no início do século XX capitanear a grande campanha de vacinação no país resultando na famosa Revolta das Vacinas quando o governo tentou obrigar a vacinação.

Machado brinca com o assunto:

“Tudo tende a vacina. Depois da varíola, a raiva: depois da raiva, a difteria: não tarda a vez do cólera-morbo. O bacilo-virgula, que nos está dando o que fazer passará em breve do terrível mal que é, a uma simples cultura científica, logo de amadores, até roçar pela banalidade….Todas as moléstias irão assim cedendo ao homem, não ficando à natureza outro recurso mais que reformar a patologia…Sem desastres nem guerras, nem doenças, com as doenças reduzidas, sem conventos, prolongada a velhice até às idades bíblicas, onde irá parar este mundo? Só um grande carregamento, ó doce mãe e amiga Natureza: só um carregamento infinito de moléstias novas.” Com ironia ele segue a crônica estendendo o uso dela: “…Mas a vacina não se deve limitar ao corpo: é preciso aplicá-la a alma e aos costumes, começando na palavra e acabando no governo dos homens…Assim também as opiniões. A vacina das opiniões é difícil, não como operação, mas como aceitação do princípio. Diz-se, e com razão, que o micróbio é sempre um mal: ora, a minha opinião é um bem, logo…A minha opinião é um bem, de certo, mas a tua opinião é um mal, e do veneno da tua é que eu me devo preservar, por meio de injeções a tempo, a fim de que, se tiver a desgraça de trocar a minha opinião pela tua, não padeça as terríveis consequências que as ideias detestáveis sempre trazem contigo.”

Ironias e humor a parte, é interessante ler um autor tão consagrado e suas opiniões há mais de cento e vinte anos.

A crônica brasileira passa por muita gente boa: Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Carlinhos de Oliveira, Nelson Rodrigues, meu amigo Zeza Amaral, sem esquecer o Rubem Braga, que dedicou sua vida de escritor e jornalista às crônicas. Dizia ele quando perguntavam o que era crônica: “- Se não é aguda, é crônica.”

Me lembro de um quadrinho ao lado de um velho relógio da família na casa de uma tia com uma crônica do Rubem Braga, que ela adorava. Era a respeito de um relógio velho que veio da casa do pai dele, e muito depois da morte de seu, pai e sua mãe, o velho relógio veio para sua casa em Ipanema no Rio. As engrenagens velhas atrasavam muito mas mantinham o mesmo som saudoso de sua infância e ele vai lembrando de sons da época nos levando nesta viagem. Sempre com muito humor, termina assim a crônica:

“Meu amigo Mario Cabral dizia que queria morrer ouvindo Jesus Alegria dos Homens, nunca soube se lhe fizeram a vontade. A mim, um lento ranger de portas e seu baque final, como da fazenda do Frade, já me bastam. Ou então a batida desse velho relógio, que marcou a morte do meu pai, e vinte anos depois, a de minha mãe; que eu morra às quatro e quarenta da manhã, com ele marcando cinco e batendo onze, não faz mal; até é capaz de me fazer bem.”

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