16 de maio de 2021

Movimentos políticos personalistas são comuns nas democracias e fora delas. Bonapartismo, hitlerismo, gaulismo, varguismo, peronismo, lulismo, bolsonarismo, malufismo, entre tantas outras nomenclaturas são símbolos importantes de mobilização das massas e ação política que atendem a necessidades conjunturais (eleições, greves, golpes de Estado, revoluções), mas que podem também ter efeitos duradouros na atmosfera de um país, de uma região e do mundo.

Diferente das tradições políticas da modernidade (liberalismo, conservadorismo e socialismo), os movimentos personalistas são compostos essencialmente por sínteses confusas; não há grande compromisso com valores inerentes, textos doutrinários ou apego às ideologias de ampla aceitação. O personalismo precede tudo isso a ponto de ter a liberdade de misturar tradições e valores aparentemente contraditórios.

Um exemplo de tal síntese confusa é o trumpismo. O fenômeno trumpismo mescla elementos do conservadorismo tradicional norte-americano (direito de propriedade, valores religiosos, liberdade de expressão) com práticas avessas ao próprio conservadorismo como o lema “America First” (doutrina do isolamento estratégico abandonado pelos norte-americanos logo após a Segunda Guerra Mundial), uma retórica excessivamente populista (apelo às massas como instrumento de legitimação do poder) e aposta no conflito institucional em alta voltagem.

Em resumo, o trumpismo alimenta tanto os fundamentos de um conservadorismo tradicional quanto os elementos de um profundo anti-conservadorismo. Trocando em miúdos: trumpismo é, como tantos outros movimentos políticos personalistas, uma síntese confusa em que as “ideias estão fora do lugar”.

Os efeitos da aprovação do processo de impeachment de Trump no congresso norte-americano podem ser analisados nos seguintes aspectos. Em termos imediatos, o impacto do processo de impeachment é inexistente para as relações internacionais e seus principais atores, pois Trump terá de arcar com um conflito político-jurídico interno.

Ainda no nível doméstico de análise, Trump pode perder os seus direitos políticos, o que, devido a sua idade, atualmente com 74 anos, obstaria uma futura aventura eleitoral. A retirada de Trump fortalece o setor mais moderado do partido Republicano.

Na política internacional, o trumpismo pode ser mais duradouro. Donald Trump tornou-se um símbolo, uma liderança que inspirou outras lideranças mundo afora (presidente Bolsonaro é, por exemplo, um de seus admiradores).

Independente do impeachment e de suas consequências, Trump passa a ser um símbolo importante na maneira como outros chefes de governo enfrentam questões delicadas como mudanças climáticas, organismos internacionais, globalismo, conflitos armados e até a pandemia do vírus chinês.

A jogada política de Trump segue dois caminhos. Por um lado, um enfrentamento legislativo com o apoio do partido Republicano pressionado pela militância. Por outro, Trump pode iniciar um processo de judicialização para ganhar tempo, uma vez que a Suprema Corte é composta hoje por juízes majoritariamente conservadores. Para além das ações formais, dentro das instituições, Trump pode atiçar ainda mais a militância republicana trumpista.

Independente da política, Trump é um homem muito poderoso. Empresário audacioso e ícone pop que enveredou para a política num momento muito peculiar da vida norte-americana: a crise de liderança dos democratas e a frustração com a era Obama. 

Trump emerge como uma liderança anti-establishment, o que atingia diretamente não só democratas como também republicanos. O apoio e a identificação direta com o eleitorado mais pobre, religioso e trabalhador (em geral, trabalhadores de baixa especialização que foram punidos pela transferência de empresas norte-americanas para a Ásia, especialmente a China) foi o grande segredo de sua vitória eleitoral.

O fator decisivo para a abertura do processo de impeachment foi certamente a invasão do Capitólio por militantes pró-Trump depois de um pedido público do presidente para que pressionassem os parlamentares quanto aos resultados das eleições.

Trump também abriu uma frente de batalha contra as Big Techs, isto é, as grandes empresas de tecnologia da informação, como Twitter, Facebook, Google, entre outras; sem falar dos órgãos convencionais de mídia, como a CNN e Fox News (ex-aliada de Trump). O acúmulo de deserções segue com o afastamento de importantes aliados (inclusive do vice-presidente Mike Pence). A vitória eleitoral de Joe Biden faz com que Trump se torne um alvo fácil (um pato-manco) para os democratas e outros opositores.

O legado político do trumpismo é incerto. Novos movimentos de direita aparecem por todo o mundo e Donald Trump, fora da presidência, pode tornar-se um líder de destes movimentos. Seu prestígio e poder econômico podem impulsionar ações globais de militantes, agências e regimes.

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