Crise e descaminhos da educação

Que a educação brasileira vive a maior crise de sua história, todos sabemos. Que essa crise tem tudo a ver com a massificação e a heterogeneidade econômico-social dos alunos, que invadiram as salas de aula a partir da segunda metade do século 20 sem que a pedagogia conseguisse atualizar e diversificar os seus procedimentos, também não é novidade. O fracasso escolar dos jovens está aí para o desespero dos educadores. Os resultados das avaliações nacionais e internacionais: Saeb, Enem, Brasil e Pisa, retratam a gravidade da situação. No entanto, já vivemos dias melhores e com resultados positivos, tanto no ensino primário, como no secundário, ao tempo em que a minha geração freqüentou esses níveis de ensino. Alfabetizava-se a criançada num período entre seis meses e um ano; o currículo ginasial, além das disciplinas indispensáveis à cultura geral – português, matemática, ciências, história e geografia – dava-se ao luxo de ensinar latim, francês e inglês. E, no colegial, preparava-se a juventude em bases científicas ou humanísticas – cursos científico e clássico – com suficiente êxito para entrar na faculdade, até porque não existiam cursinhos e os vestibulares eram árduos e com sistemas de vagas em números clausus. O que pode explicar todos esses êxitos? De um lado o fato do alunado originar-se das classes A e B, nas quais se praticava familiarmente o currículo oculto, que assegurava uma prontidão suficientemente adequada para o início e o desenvolvimento da aprendizagem formal; e de outro, professores dedicados, vocacionados, bem formados e também bem pagos.

E, por falar nisso, havia naqueles tempos o casamento do chupim com a professora que ganhava tão bem, a ponto de sustentar sozinha – e com nível confortável de vida – a família, enquanto o marido passava as tardes no jardim público, a ler jornal e jogar damas.
Os professores, que tinham salários equiparados aos dos juízes de direito, hoje, são os profissionais qualificados mais mal pagos do País. Não havia tempo para as discussões pedagogísticas sobre modos de alfabetizar, se pelo estruturalismo, se pelo construtivismo ou se pelo método fônico. O tempo era todo concentrado num só propósito: alfabetizar. Afinal essa tarefa, ontem, como hoje, se resume a um feijão com arroz, e mesmo quem não fosse professor – as mães, por exemplo – conseguiam ter êxito na alfabetização dos filhos. As mães educam os filhos, não com base em teorias controversas e acadêmicas, mas pelo simples fato de, como mães, conhecerem e amarem seus filhos. E nisso está o fundamento do sucesso tanto na alfabetização como na educação: amar e conhecer o aluno.
Daí para frente, a escolarização cumpria seu papel, desdobrando-se o processo ensino-aprendizagem nos campos intelectuais da ciência e das humanidades. Porque o objeto da educação fundamental não se limita mais a ensinar a ler, escrever e contar, e sim, em como usar esses pré-requisitos do conhecimento para interiorizar o saber nas suas duas dimensões básicas: o saber universal dos valores que não perecem e o saber historiográfico, ligado à cultura de cada etapa do progresso social de um povo. Competência de quem ensinava, de um lado, e prontidão de quem aprendia, de outro, sem esquecer de um detalhe importante: éramos poucos os que se escolarizavam. Não havia estas multidões que, graças a Deus, hoje lotam as escolas.

Paulo de Souza Torres é doutor em educação e presidente do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola.

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