23 de maio de 2022

Crime e cobiça – um capitulo insistente do Rio Madeira

”Que é preciso explorar o ouro e as outras riquezas da Amazônia é tão óbvio quanto respirar. Conivir com o crime, entretanto, é coisa de sociedade enferma”

Algumas pessoas em busca do ouro dos rios da Amazônia se lançam com suas balsas que podem custar, as menores, R$ 100 mil, mesmo correndo o risco de elas serem queimadas em ações da Polícia Federal e do IBAMA caso as identifiquem como ilícitas, tal qual ocorreu com a operação Uiara no início de dezembro no Rio Madeira. Há também balsas de R$ 500 mil.

O Vice-Presidente da República Hamilton Mourão revelou que o narcotráfico poderia estar financiando esta extração de ouro de forma ilegal – seriam então 2 crimes: o financiamento com dinheiro ilícito, e a atividade sem ter licença do poder público.
Mourão tem cargo e fontes confiáveis.

Os pescadores de pirarucu de Mamirauá e os coletores de açaí de Manicoré, todos no Amazonas, por exemplo, conseguem em média cerca de R$ 25 mil de renda anual, valor próximo também do valor dos salários que a maioria dos trabalhadores do Polo Industrial de Manaus consegue. Podem não ser ricos, mas estão fora da linha de pobreza e do IDH miserável que categoriza muitos amazônidas.
As menores balsas equivalem a 4 anos de renda de um trabalhador de Manaus ou da renda de um pescador.

A suspeita de Mourão se encaixa na situação porque os R$ 25 mil anuais seriam consumidos no orçamento doméstico destes amazônidas exemplificados, não permitindo que pudessem ser poupados durante 4 anos, sem contar com o risco inconsequente da perda total das economias.
Para comprar o equipamento à prazo, a regra comum é ter cadastro financeiro de porte e capacidade correspondente, o que não é conseguido facilmente se for oriundo de uma comunidade ribeirinha. A opção de dar em garantia o próprio equipamento é um capítulo do Livro das Inocências, já que a balsa pode desaparecer como as que viraram fumaça na operação Uiara.
Se for a de R$ 500 mil, a fumaça é maior.

Se pode concluir que o garimpo do Madeira não parece vir sendo explorado pelos amazônidas que estão abaixo da linha de pobreza, principalmente por falta de recursos.
Os dados indicam ainda que até hoje não foi possível que a atividade gerasse a prosperidade na forma desejada pelos seus sonhadores. Estes sonhos parecem que pertencem a um outro capítulo do Livro das Inocências.

O fundo do Madeira, “no fundo”, é revolvido em grande parte pelo dinheiro globalizado dos ourives, alguns dos quais talvez entre os que apregoam a importância de se proteger a cobiçada Amazônia.

Que é preciso explorar o ouro e as outras riquezas da Amazônia é tão óbvio quanto respirar.

Conivir com o crime, entretanto, é coisa de sociedade enferma.

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