Criação em cativeiro eleva oferta

Foi-se o tempo em que o pirarucu era vendido apenas salgado nos mercados populares das cidades da região Norte. Chamá-lo de bacalhau da Amazônia também já está fora de moda. Considerado um peixe por muitos, ele é na verdade um animal pré-histórico e tem pulmão, inclusive, o que o diferencia de outras espécies de rio.
Por anos, os exemplares de pirarucu foram capturados na natureza sem controle, o que colocou a espécie em situação de quase extinção. Diante disso, a criação em cativeiro tem sido uma alternativa para aumentar a oferta. E a carne, mais macia e padronizada, vem chamando a atenção de grandes chefs de cozinha e ganhando as gôndolas dos supermercados.
Desde 2007, o Sebrae realiza o Projeto Estruturante do Pirarucu, que atende a mais de 200 pequenas propriedades de Rondônia, Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Tocantins e Roraima. A iniciativa pretende criar um modelo para essa atividade, que tem ainda criadores na Bahia, Goiás, Pernambuco, Ceará e no Maranhão. Também visa a alimentar o mercado, que sofre com a dificuldade em obter o animal, tendo em vista que a pesca extrativista é regulamentada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais) e liberada somente nos meses de outubro e novembro e em locais de manejo regulamentado.
“De 2012 para 2013, a produção aumentou de 400 toneladas para 1,5 mil toneladas. Esse número mostra um avanço significativo que tem tudo para continuar crescendo nos próximos anos, graças ao nosso trabalho em parceria com a Embrapa Aquicultura e o Ministério da Pesca e Aquicultura”, afirma o presidente do Sebrae, Luiz Barretto. Para 2014, os pequenos produtores atendidos pelo projeto do Sebrae nos sete Estados da região Norte têm mais de 125,5 mil alevinos em processo de engorda e esses animais devem ser abatidos quando atingirem entre 12 e 15 quilos.
O Sebrae repassa a metodologia de cultivo e também atua em parceria com outros órgãos para orientar pequenos produtores a solucionarem questões ligadas ao licenciamento ambiental da atividade e à gestão do negócio. Durante o processo de produção, os peixes são identificados com chips para que a sua origem de cativeiro seja comprovada. É como um documento de certificação de autenticidade.
Pimenta Bueno, município a cerca de 500 quilômetros ao sul da capital de Rondônia, concentra grande parte da produção do Estado. São mais de 60 pequenos produtores associados à empresa Mar &Terra, que fornece a eles os alevinos e recompra o pirarucu após a engorda. A maior parte dessa produção alimenta o mercado brasileiro, principalmente as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Campo Grande. Para os próximos anos, a ideia é reverter a produção para o exterior, de acordo com o administrador da empresa Thiago Ushizima.

Qualidade

A maciez da carne é garantida pelo tamanho do animal quando abatido e também pela alimentação. “Esse pirarucu é padronizado e alimentado de uma forma mais adequada”, afirma o engenheiro Eduardo Ono, um dos maiores especialistas na produção de pirarucu no Brasil. Para que a produção seja economicamente viável, os produtores fazem a despesca, ou captura dos animais nos tanques, quando eles chegam a um ano de idade ou pesam entre 10 e 15 quilos. Até aí, o custo por quilo fica em torno dos R$ 7, enquanto o valor no mercado é, em média, R$ 20.
Nessa idade, a carne tem uma textura mais tenra, como a de vitelo (filhote de boi) em uma comparação grosseira. Enquanto isso, os exemplares de 250 quilos capturados na natureza oferecem nacos mais gordurosos, de acordo com o chef Shin Koike, dos restaurante Aizomê e Sakagura A1, de São Paulo. Em maio de 2013, Koike realizou em uma de suas casas um festival de peixes amazônicos e o pirarucu de cativeiro foi servido grelhado com molho jambu e acompanhado por palmito grelhado. Também foi defumado e virou espetinho, servido com arroz misturado a cogumelos.
Desde a abertura de seu restaurante, a chef Ana Luiza Trajano usa o pirarucu em seu cardápio por considerar a textura e o sabor da carne “incríveis”. Ela serve o peixe fresco com feijões brasileiros e leite de castanhas, e com leite de coco e gengibre. Essa última criação é o prato dedicado à Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança.
A iguaria também ocupa o lugar do bacalhau nas receitas para a Semana Santa. “Sempre faço pirarucu de casaca e uma versão de bacalhoada com esse peixe”, afirma a cozinheira. Para ela, o peixe amazônico ganhou o paladar do público e vem ajudando a acabar com o preconceito em relação aos pescados de rio. Além de sua importância gastronômica, o pirarucu também tem lugar no setor da beleza e do vestuário. O couro pode virar roupas, sapatos e bolsas. Já as escamas são usadas como lixas de unha, para a elaboração de artesanato e até em cosméticos.
A experiência do Sebrae no fomento à atividade está compilada em dois manuais, que podem ser encontrados na internet. As publicações dão o passo a passo para a produção e engorda do animal e se configuram como o primeiro passo para a expansão do cultivo em todo o país.

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