7 de maio de 2021

‘Credibilidade é um legado que vem com o tempo’, diz Sócrates Bomfim Neto

Consciente da necessidade de reinventar-se constantemente, principalmente num meio concorrido como o da comunicação, o CEO do Jornal do Commercio e também presidente do Sindicato das Empresas Jornalísticas do Estado do Amazonas (Sineja), Sócrates Bomfim Neto, avalia o cenário para as empresas jornalística no próximo ano, ainda marcado por uma pandemia global que está apressando a ruptura latente em muitas setores. 

Sócrates tem 43 anos. É formado em Administração pela Universidade de Miami e mestrado pela Universidade de Nova Iorque. Administrador por formação, é também mais um mordido pelo “bicho” do jornalismo, herança certamente de seu pai, o presidente in memoriam do JC, Guilherme Aluízio de Oliveira Silva.

Nesta entrevista, Sócrates fala dos investimentos na plataforma digital do Jornal do Commercio, da sua identidade JCAM na internet e do desejo de levar adiante esse legado histórico e esse verdadeiro “patrimônio imaterial” do Amazonas construído na resiliência de apaixonados que apostaram na credibilidade como bem maior. 

Jornal do Commercio – O ano de 2020 foi um ano marcado por uma pandemia de impacto global. Ela trouxe mudanças em profusão e a necessidade de reinvenção instantânea de muitos setores para sobreviver neste momento. Como você observa esse momento para as empresas jornalísticas? 

Sócrates Bomfim Neto – Os meios de comunicação precisam estar em um processo constante de reinvenção. Por sua natureza, precisam se adaptar às formas como as pessoas acessam conteúdo neste novo tempo. Ao mesmo tempo, sabemos que há décadas o meio impresso vem sofrendo uma pressão muito grande, sendo trocado por novas tecnologias. O que nós fizemos neste ano, por exemplo, foi oferecer opções de escolha aos clientes e aos nossos leitores através de novas plataformas, com novos programas em vídeo, com maior investimento no portal, também com distribuição de conteúdo em listas, levando comodidade aos leitores. As empresas não podem ficar paradas. O futuro é ágil neste meio e as empresas estão tendo cada vez mais de investir para se reinventar. Um ano difícil como este de 2020 exige ainda mais formas novas de adaptação. 

JC – Quando se analisa esse cenário podemos pensar no fim da mídia impressa num tempo futuro. Como você analisa essa questão tendo em vista o futuro do jornalismo impresso e Jornal do Commercio em particular? 

Sócrates – Nesse ponto acho que não vai chegar num ponto em que não teremos mais leitores de jornal impresso. Sabemos que vai ficar reduzido. Desaparecer, não acerdito. Todas as tecnologias têm adeptos que se renovam. Veja o exemplo do vinil, do cassete (fita cassete), do CD. Elas parecem morrer, mas renascem até mesmo com novos públicos, logicamente numa escala menor. Por isso pensamos em novas opções aos nossos leitores, para continuar alcançando aquele leitor ou consumidor de conteúdo informativo nas mais diversas plataformas, mas não descartamos o modelo impresso que é uma tradição e um grande símbolo. Não acredito que um dia os grandes jornais deixarão de ser impressos. Eles vão continuar vivos, mas eles sozinhos não garantem a sobrevivência de uma empresa nos tempos atuais. 

JC – O jornal impresso tem força de um documento histórico. Ele tem valor para uma reflexão atemporal da realidade do presente e do passado que fica para a posteridade e continua sendo base de muitas pesquisas históricas. Como você analisa essa importância do impresso? 

Sócrates – Sem dúvida essa é uma das principais características hoje do conteúdo impresso de notícias. É um rico acervo muito utilizado em pesquisas históricas e que deve continuar sendo assim por um bom tempo. A pesquisa é complexa em outras plataformas. Mas pesquisar num acervo de jornal é muito mais simples, com uma leitura rápida, dinâmica, fica mais fácil localizar fatos, principalmente com a digitalização desse acervo. 

JC – Outro ponto lembrado nestes tempos de revolução tecnológica no acesso às notícias é a grande difusão de fake news com dezenas ou centenas de canais de comunicação que ainda não conseguiram a necessária credibilidade para oferecer segurança aos leitores. Isso de alguma forma dá força para a mídia tradicional? 

Sócrates – É incontestável que há uma grande diferença. Qualquer mídia, assim como também qualquer empresa, precisa de tempo e de maturidade para alcançar a credibilidade. Ela vem com o tempo e também com a resiliência ao enfrentar os mais diversos cenários sem perder o seu foco. Ela vem com a história da empresa, dos seus protagonistas, de um legado que não se constrói de um dia para o outro. Quanto mais tempo uma empresa tem de mercado, maior a capacidade de possuir valores, como a credibilidade, como algo visível para todos e não apenas como estratégia de marketing. Os muitos novos meios de comunicação que vemos hoje aí vão estar diante de uma peneira, num breve tempo, e muitos não vão resistir. É um grande desafio permanecer neste mercado que cada vez mais exige valores para se diferenciar de quem se pauta por interesses. Os meios de comunicação mais críveis vão permanecer futuramente. Acredito que em cinco ou um pouco mais de anos teremos uma grande depuração e somente quem tem lastro de credibilidade deverá permanecer no mercado. 

JC – Você é herdeiro de um grande mestre no jornalismo que deixou viva uma história muito bonita não apenas no jornalismo, mas também por sua visão empreendedora. Muita gente observa com expectativa o que você pretende fazer com esse legado, principalmente na área da comunicação. Como você enxerga esse negócio da comunicação e do jornalismo? 

Sócrates – Quando entrei para trabalhar na empresa tinha mais minha visão administrativa, em razão da minha formação. Mas, com o tempo, também fui mordido pelo ‘bicho’ da comunicação. Na verdade, passei a me interessar observando meu pai que, desde criança, se interessou pelo jornalismo. De alguma forma ele conseguiu transmitir para o meu DNA essa vontade, esse interesse. No que cabe a mim, é total o interesse de manter a empresa como ele levou, mantendo o mesmo padrão de relacionamento, com isenção e credibilidade e na mesma postura, na mesma linha, buscando ser o mais fiel possível aquilo que é reportado, chegando o mais próximo possível da verdade. 

JC – Podemos dizer que o ano de 2021 será o ano de virar a chave para a digital no Jornal do Commercio? 

Sócrates – Eu acredito que sim. Ano a ano estamos reforçando a nossa presença digital. Fomos um dos primeiros jornais a entrar na internet. Em 1996, criamos a nossa plataforma digital, quando poucos jornais estavam avançando para a internet, mas somente neste último ano passamos a realmente investir em termos de conteúdo e presença neste meio, mudando até mesmo conceitualmente o modo de nos relacionarmos com o nosso público. Acredito que este é um caminho sem volta e certamente vamos investir mais para avançar nesta atualização. Temos que investir pesadamente. Acredito que os dois últimos anos foram de grande aprendizado nesta área para a gente estar pronto para trilhar novos caminhos no meio digital.  

JC – O Jornal do Commercio é muito associado a um perfil bem mais tradicional e de uma faixa etária mais elevada. Essa identidade digital como JCAM é uma forma de rejuvenescer a marca na sua presença digital? Isso é parte da estratégia para alcançar novos públicos? 

Sócrates – O jornal precisa estar sempre se reinventando. Claro, mantendo o público fiel, mas sempre se reinventando. A questão é adicionar público mais jovem sem alienar o leitor mais tradicional. Essa é uma balança às vezes complicada de se equilibrar. Mas a gente precisa insistir neste caminho. A forma de engajar o leitor mais jovem talvez seja com um diferencial para captar esse público específico. Obviamente, a plataforma digital é mais simples do que no impresso. É uma balança interessante que vai nos obrigar ao exercício constante de buscar esse equilíbrio. Atrair leitor diferente, mais jovem, inovador, sem alienar os leitores tradicionais, fiéis aos Jornal do Commercio.  

JC – Como você projeta esse ano que já começou, ainda marcado por uma epidemia global. Qual a expectativa para esse futuro próximo que temos à vista? 

Sócrates – As vacinas começaram a ser liberadas. Muitos países já deram início à vacinação. Acredito que já no início deste ano a gente comece a avançar neste processo que deve ser longo diante da complexidade da operação para vacinar 7 bilhões de pessoas. Talvez sejam necessários um ou dois anos, pelo menos. Avalio que a partir do segundo semestre deste ano a situação já esteja um pouco melhor. A economia começou a dar respostas positivas. A confiança na vacina e no processo de vacinação vai fazer toda a diferença. Lamento as muitas perdas de vidas nesta pandemia, além da crise econômica que afetou muita gente. O meu anseio é que possamos evitar mais mortes futuras em pandemias como essa, com um maior cuidado e zelo com o sistema de saúde como um todo. Mas certamente a minha mensagem é de otimismo que vai além da questão econômica, dos negócios e da empresa. Meu desejo é um ano novo feliz, com tempos melhores para todos em todos os aspectos. 

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