Cooperativismo na escalada de sucesso

O cooperativismo tem transformado a vida de milhares de brasileiros todos os dias. De acordo com o anuário de cooperativismo brasileiro 2019 -nos últimos oito anos o número de pessoas que aderiram ao modelo de negócio cresceu 62% refletindo na quantidade de empregos gerados com  aumento de 43%.

Para se ter uma ideia da força que o setor representa, se as 300 maiores cooperativas do mundo fossem um país o Brasil seria a 9ª potência mundial. Visto como um mercado oportuno, mais que gera emprego e renda, as cooperativas surgem como alternativa de viés econômico agregando várias categorias.  O modelo de negócio tem ganhado força e proporcionado, sem dúvida, efeitos positivos para a sociedade dentro de um caminho de produtividade. 

No Brasil, em 1889, surgiu a primeira cooperativa do país. Uma cooperativa de consumo em Ouro Preto/MG. Essas são as primeiras instituições do Movimento Cooperativo Brasileiro de que se tem registro. Marcam a origem da implantação do sistema no país. 

No Amazonas, o cooperativismo surgiu no século 21. Após assinatura de um contrato com o governador Ephigênio Salles, para a seleção e exploração agrícola de áreas devolutas da União, usando recursos próprios, o setor teve altos e baixos.  No acordo, uma área correspondente a 300.000 hectares, próxima a Maués, os primeiros colonos japoneses, se dedicaram ao cultivo do arroz, produção de mel, cultivo de guaraná, frutíferas em geral, hortifruti, etc.

Em 1930, Tsukasa Uyetsuka, deputado e conselheiro do Ministério das Finanças do Japão, comprou 15.000 ha. em Parintins e instalou o Instituto Amazônia (Amazônia Kenkyujyo) também com o objetivo de desenvolver pesquisas e apoiar atividades agrícolas. Nascia a Escola Superior de Colonização do Japão (Nihon Koto Takushoku Gakko), criada por Uyetsuka para formar especialistas no trabalho de colonização. 

Os Koutakuseis, como eram conhecidos os imigrantes japoneses, do Baixo Amazonas, não iniciaram em Maués a produção racional do guaraná em larga escala, mas de forma cooperativa, também produziam morango, chá, arroz, e, principalmente juta, que em 1932 foi trazida de forma “irregular” da Índia por Ryota Oyama (engenheiro agrônomo). Na época, a saída de sementes de fibras da Índia era proibida pelos colonizadores ingleses.

A primeira turma chegou à Vila Amazônia em 20 de junho de 1931. A região viveu uma fase de crescimento e expansão, graças ao cultivo da fibra. Com expansão do cultivo e da produção de juta no interior do Amazonas, o Brasil deixou de importar a fibra da Índia. Na metade da década de 1930, e o cultivo de fibras vegetais respondia por mais de 35% da economia do Estado. 

Declínio

Em 1941, após a entrada do Japão na 2ª Guerra Mundial, o acordo firmado com o Governo do Amazonas foi denunciado.  A partir desta data, os imigrantes nipônicos foram obrigados a sair da Vila Amazônia, entre outras razões, pela perseguição que começaram a sofrer, já que o Japão lutava contra o grupo dos aliados ao qual, o Brasil fazia parte. Muitos foram presos e a suas propriedades transformadas  em espólio de guerra. A Companhia Industrial Amazonense foi desapropriada em 1942 e em abril de 1946, seu patrimônio leiloado, e arrematado. Tudo foi confiscado, empresa de processamento de juta, produção de arroz, fabricação de farinha de mandioca, serraria, etc., Hoje, a única lembrança que restou da Vila é o cemitério. Estima-se que, dos 230 cidadãos japoneses que vieram para a Amazônia, existam, no mínimo, 5 mil descendentes, muitos ainda praticando a agricultura.

Foi por conta deste episódio infeliz de nossa História que o crescimento do cooperativismo no Amazonas, foi interrompido.  

Ressurgimento

Mas muitos imigrantes nipônicos não desistiram do Brasil e em 1953, 17 famílias, um total de 54 pessoas, se instalaram em Manacapuru, e novamente, dedicaram-se à produção de hortifrúti, fibras vegetais e avicultura, tudo de forma cooperativa. A localidade era conhecida como Colônia Sol Nascente.

Somente em 10 de novembro de 1958, a primeira leva de colonos japoneses se instalou em Manaus, na Colônia Efigênio Sales ou como ainda é conhecida, Colônia dos Japoneses, localizada na AM-010. Agricultores por excelência, em março de 1960, os imigrantes exibiam os primeiros campos de arroz. No ano seguinte, quarenta e três propostas de japoneses daquela colônia, pleiteavam empréstimos junto ao Banco de Crédito da Amazônia, para o cultivo da mandioca. Na colônia trabalhavam 64 famílias, um total de mais de 400 pessoas. Lá se cultivava além de arroz, pimenta do reino, verduras, legumes, mandioca, cana, milho e o que mais fosse necessário para a alimentação. Através do cooperativismo, vendiam seus produtos, faziam suas compras e recebiam do fomento federal e estadual, sementes, máquinas, adubos e outros implementos.

O sistema

No Brasil o Sistema OCB representa 14,6 milhões de cooperados que estão associados em 6.828 cooperativas, gerando 425,3 mil empregos diretos.

No Amazonas, o sistema é formado pela OCB-AM (Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Amazonas). A Fecoop/Norte é integrada pelos sindicatos e organizações de cooperativas dos Estados do Amazonas (OCB/AM), Amapá (OCB/AP), do Pará (OCB/PA), Rondônia (OCB/RO) e de Roraima (OCB/RR) e a Sescoop- AM(Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado do Amazonas).

Atualmente o Sistema OCB/AM possui 1.251 cooperativas na região Norte. No Amazonas, são 10.320 cooperados, distribuídos em 165 cooperativas, presentes em 29 municípios, gerando 1.924 empregos diretos, divididos em sete ramos, sendo eles: agropecuário; consumo; crédito; infraestrutura; produção de bens e serviços; saúde; e transporte.

Resultados e conquistas

O presidente do Sistema OCB/AM, José Merched Chaar, comemora os resultados e confirma um cooperativismo pujante no Amazonas. Em 2020, o segmento de crédito foi o que mais cresceu na região.

“Dentre os 7 ramos, estamos verificando um crescimento expressivo no Ramo Crédito, resposta do trabalho de sensibilização do Sistema OCB/AM para interiorização do cooperativismo de crédito no Amazonas. Já inauguramos agência em Itacoatiara, Manacapuru, Rio Preto da Eva, e já há negociações em outros municípios. No Ramo Transporte tivemos uma vitória recente que foi a lei nº 2.678 de 15/9/2020, que dispõe sobre os Serviços de Transporte Público Coletivo de Passageiros no município de Manaus, com alterações positivas para o desenvolvimento das cooperativas de transporte coletivo de passageiros. O Ramo Agropecuário está em organização, através da Central Coop, para compras de insumos, beneficiamento e comercialização da produção”. 

Para o presidente, considerando a visão estratégica definida e o atual momento de crise política e econômica no Brasil, agravadas em razão da pandemia da Covid-19, é necessário analisar os cenários interno e externo com um olhar mais abrangente e de maneira participativa, com os desafios do “novo normal”, e visando a sustentabilidade no modelo de negócio cooperativo, além da manutenção de mercado, emprego e renda gerado pelas cooperativas. Em 2020, foi necessário nos reinventarmos em relação a todas as ações, e podemos enfatizar como conquista, essa capacidade de superar os desafios durante a pandemia.

Desafios

A pandemia trouxe desafios a todos os setores, e no cooperativismo, em razão de representarem sete ramos, o setor teve diversos desafios, dentre os quais, após mapeamento das cooperativas realizado no início de abril de 2020, no começo da pandemia, identificaram que o acesso a crédito foi a demanda prioritária e comum dos ramos. Outro desafio comum, foi a dificuldade de realizar eventos virtuais e que antes da pandemia eram presenciais, isso aconteceu por dois motivos: primeiro a falta de internet no interior, e segundo a dificuldade de manuseio dos aplicativos de reuniões virtuais.

Para o presidente do Sistema OCB/AM, as cooperativas de crédito que integram o sistema   Sicoob e Sicredi, hoje, os maiores sistemas de cooperativas do Brasil, têm uma importante função dentro deste contexto. 

“Com a pandemia, houve a necessidade de fazer uma pesquisa junto às cooperativas para ter uma percepção do que realmente era mais demandado. E uma das carências do momento era o acesso ao crédito. “O crédito  foi a demanda mais solicitada para a OCB/AM em 2020, diante disso, percebemos a necessidade de estimularmos a intercooperação, que é um dos princípios do cooperativismo, se os demais ramos precisam de crédito, por que não criar uma carteira de clientes cooperativistas nas cooperativas de crédito. Entre as soluções, estão as rodadas de negócios virtuais que estamos realizando periodicamente”.

A Sicoob Amazônia, Sicoob Uniam, Sicredi, Coopsebram -compõem as cooperativas de crédito. Atualmente, são 8 agências que atuam no cooperativismo de crédito em Manaus, Manacapuru, Rio Preto da Eva, Itacoatiara. “Onde a produção é crescente estas instituições se instalam. Porque é uma tradição do banco de crédito. Eles nasceram onde cresceu o agronegócio que é justamente quem financia o agricultor”. 

As cooperativas agropecuárias também tiveram muitos desafios durante 2020, dentre os quais a falta de mercado governamental, em razão da pandemia. “Sabemos que as cooperativas têm como cliente principal, o Governo, através das aquisições da merenda escolar, e a falta das aulas presenciais trouxe a dificuldade de comercialização da produção planejada para o ano. A solução foi se reinventar e comercializar a produção como foi possível”.

Ações

As cooperativas e o Sistema OCB realizam ações do Dia de Cooperar (Dia C), que nasceu em 2009 como um projeto inovador. O objetivo é desenvolver ações de responsabilidade social, colocando em prática os valores e princípios cooperativistas, por meio de ações voluntárias. Rapidamente, a ideia ganhou a simpatia de diversas cooperativas que passaram a apoiar e desenvolver, anualmente as ações do Dia C. Em 2019, mais de 2,6 milhões de pessoas foram beneficiadas com iniciativas transformadoras que ocorreram em 1.257 cidades, localizadas de Norte a Sul do país, cerca de 120 mil voluntários se empenharam em fazer parte do processo de construção de um Brasil mais justo, feliz, equilibrado e com melhores oportunidades para todos, mostrando que as atitudes simples são motoras de grandes resultados. “No Amazonas, ano passado, conseguimos beneficiar mais de 14.000 pessoas com essas ações, através de 990 voluntários, e a ideia é que esses números sejam ainda maiores em 2020”.

Nos últimos anos o Sistema OCB tem como missão “Representar, defender e desenvolver o cooperativismo brasileiro para torná-lo mais competitivo, respeitado e admirado pelo papel que desempenha na sociedade” “e a nossa atuação ocorre por meio das ações de representação política, representação institucional, assessoria jurídica, assessoria contábil, formação profissional, promoção social e monitoramento, através da oferta de soluções organizacionais e humanas, como cursos, oficinas, seminários, palestras, workshop, treinamentos, participação em feiras, intercâmbio técnico, congressos e eventos”.

As ações visam superar os desafios de: 1) Qualificar mão de obra para o cooperativismo; 2) Profissionalizar a governança e a gestão do sistema cooperativo; 3) Fortalecer a representatividade interna e externa do cooperativismo; 4) Ampliar a participação das cooperativas no mercado; 5) Fortalecer a cultura cooperativista e a intercooperação; 6) Fortalecer a imagem e a comunicação do cooperativismo; 7) Promover a segurança jurídica e regulatória para as cooperativas; 8) Construir o futuro do cooperativismo por meio da inovação.

“As ações e projetos realizados nos últimos anos, trouxeram resultados conforme as estratégias pontuadas acima, é possível observarmos avanços positivos nas cooperativas amazonenses, mas sabemos também que ainda há muito a ser feito”. 

O Sistema OCB/AM, está fortalecendo ainda mais o projeto da Central de Cooperativa Agropecuária. Que possui 9 cooperativas agropecuárias vinculadas a essa central espalhadas em todas a Região Metropolitana de Manaus, Manacapuru, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo. Estas perfazem aproximadamente 750 produtores rurais com 5 mil hectares plantadas. Ele explica que a ideia da OCB/AM juntamente com a Central e a Ciama é elaborar um projeto para que possam conquistar um galpão e fazer a centralização de compras de insumos, de defensivos agrícolas, adubos orgânicos de forma coletiva  e também fazer com que a produção deles estejam em um único lugar e disponham do escoamento à comercialização através da Central.

“Este projeto não está concluído, mas já está funcionando desde 2019. E a ideia é exatamente fazer com que eles ganhem escala evitando o atravessador e assim fazendo com que a produção escoe de forma mais célere e o produto chegue mais fresquinho até a mesa do consumidor final, além disso que eles também tenham maior ganho de produtividade e financeiramente seja mais viável para eles”.  Ele deixa claro que a política da OCB não é criar novas cooperativas, mas sim unir as que já existem para baixar custos aumentando o número de cooperados.

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