Gastos com Uber, almoço fora de casa e também o cafezinho depois do almoço, happy hour e os passeios de final de semana desapareceram dos cartões de crédito depois da imposição de medidas de isolamento social e a crise econômica causada pela pandemia de Covid-19.

E levaram a uma redução nos gastos em geral em meio a um esforço das famílias para cortar despesas após perda de renda.

Foi o que aconteceu com Cintia Ramos, 30. Ela, que é sócia da Diaspora.Black —uma empresa de turismo voltada para a cultura negra— viu os gastos do final do mês diminuírem tanto no âmbito pessoal quanto no corporativo ante o atual momento.

“Diminuímos o número de posições que alugávamos em uma sala de coworking [modelo de trabalho com o compartilhamento de espaços] e readequamos a oferta para o online. Além disso, sem ir para o trabalho e sem passar pelas lojas nas ruas, também diminuí as compras com brincos, roupas, produtos para o cabelo e Uber”, afirma a empresária.

Dados do Banco Central para abril apontam uma redução de 16,2% nas concessões totais no cartão de crédito para pessoas físicas, para R$ 85,8 bilhões —o menor patamar desde junho de 2018.

Apenas nas concessões à vista, quando o consumidor usa o cartão para as compras do mês e quita integralmente a fatura, a queda foi de 23,5%.“Vimos uma queda grande no uso do cartão nas primeiras semanas da crise. O volume vem aos poucos se recuperando, porém abaixo ainda do período anterior às medidas de isolamento”, afirma o diretor do Itaú Unibanco, Fernando Amaral.

Ele notou também uma mudança de comportamento: as compras são menos frequentes, mas mais caras: o tíquete médio subiu 6% em relação ao mesmo mês de 2019.

Segundo a Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), mesmo que a queda nas transações no varejo superem 50%, as pessoas têm usado menos dinheiro de papel na pandemia. O resultado é que, agora, a entidade prevê que o cartão acelere sua participação no consumo das famílias —que atingiu 43% em 2019.

“Vemos um consumidor mais digital e mais aberto a experimentar compras online e isso deve ter reflexos na indústria também. Com o movimento que temos, não me impressionaria se a expectativa que tínhamos de que os cartões respondessem por 60% do consumo das famílias em 2022 fosse adiantada para 2021”, diz Pedro Coutinho, presidente da Abecs.

Conforme o uso de cartão aumenta, especialistas alertam o risco de inadimplência. Ainda segundo os dados do Banco Central, o índice total de calotes do crédito nos cartões para pessoas físicas atingiu 7,5% em abril —o maior patamar desde junho de 2017.

Essa inadimplência é global: quando o cliente entra no que o BC chama de rotativo não regular (ou seja, não paga nem o mínimo da fatura), a taxa de inadimplência bate 36%.

Já o juro médio de quem atrasa a fatura encerrou abril em 339% ao ano —a linha mais cara do sistema financeiro.

Segundo o diretor de meios de pagamentos do Banco do Brasil, Edson Costa, ainda que o banco ainda não sinta nenhuma pressão negativa para a inadimplência do cartão, a mudança no comportamento de consumo e na utilização dos cartões já é vista e ainda pode mudar os indicadores.

Ele aponta que o banco investiu em renegociação da fatura para evitar que clientes se tornem inadimplentes.

A maior consciência acerca dos gastos do cartão também começou a fazer parte da rotina do administrador Rodrigo de Jesus, 32. Ele afirma que começou a se preparar para reduzir os gastos mesmo antes de a pandemia chegar no Brasil e que agora, já com a fatura menor, adotou um controle das compras que faz.

“Eu comecei a ter o costume de registrar o histórico de preços das coisas que eu compro, por exemplo. Também comecei a trocar o débito pelo crédito, tanto pela segurança quanto para ter mais prazo para o pagamento das minhas compras”, afirma.

O movimento também acontece entre os usuários dos bancos digitais. Segundo estimativa do C6 Bank, o volume financeiro transacionado nos cartões de débito e crédito de seus clientes de alta renda teve uma queda de 25% em abril conta fevereiro, antes do começo da quarentena. Na baixa renda, o recuo foi de 9%. Assim como o visto pelo Itaú, porém, quando o consumidor faz uma compra, ela é mais cara.

“Também vemos um aumento no tíquete médio de 24% na alta renda e de 16% na baixa renda”, diz Maxnaun Gutierrez, chefe da área de pessoa física e produtos do C6 Bank.

Ele resume com a leitura já relatada por outros indicadores, como o de vendas no varejo: as pessoas gastam principalmente no supermercado. E, com a pandemia, elas saem menos vezes e fazem compras maiores.

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