10 de abril de 2021

Consumo, consumismo e lixo (PARTE 2)

O que importa para o consumidor é ter objetos que possam compensar frustrações e alimentar fantasias

O que nos conduz ao consumismo? J. B. L. de Andrade nos ensina que o referido fenômeno sociológico está relacionado à lógica do desejo. O desejo de consumir para ser feliz! Ou seja, o desejo que é potencialmente influenciado pela publicidade que direciona a sociedade para um estado de individualismo biopsicopatológico. É essa mesma publicidade que produz uma cultura de consumo, de consumismo e de lixo, e que nos faz confundir individualidade com egoísmo, nos conduzindo a um novo estado de barbárie.
Eduardo Galeano nos dá uma pista sobre o efeito da publicidade sobre o homem: “a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que transmite. Graças à publicidade, pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece. Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão”.
As mercadorias são vendidas aos consumidores como uma mensagem religiosa é consumida e descartada pelos membros de uma determinada congregação religiosa porque justamente a publicidade não informa acerca do produto que vende, ou quando informa o faz no sentido de potencializar o consumo e, em seguida, o descarte de quase tudo. Tudo pode e deve ser descartado, mesmo que isso represente apenas o fato de o consumidor ter um novo produto para fazer parte de uma determinada tribo: a tribo dos indivíduos que possuem um novo modelo de i-fone.
Outra dimensão repousa sobre a durabilidade. Isso e a qualidade dos produtos anunciados é o que menos importa para o consumidor. O que importa mesmo para o consumidor é ter objetos que possam, primordialmente, compensar as frustações cotidianas e alimentar fantasias. As coisas oferecidas por essa nova configuração da Indústria Cultural têm atributos humanos, para além do que fora concebido por Theodor L. Wiesengrund-Adorno e outros frankfurtianos: acariciam, acompanham, compreendem etc.: o perfume promete beijar e o automóvel é o amigo que nunca falha.
O próprio consumo fetichizado produziu nos homens-consumidores uma nova patologia: a tristeza induzida. Eduardo Galeano nos ensina, ainda, que a cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados. As angústias enchem-se se atulhando de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.
O ciberespaço é uma nova heterotopia para realizarmos encontros, amizades, amores, fofocas, fantasias etc., é também um espaço de descarte porque jogamos fora a possibilidade de estar com o Outro, ao vivo. O que é pior! Consumimos a Internet como devemos consumir água potável e, também por ela somos consumidos. Consumimos a Internet e até somos capazes de anular qualquer possibilidade de convívio fraterno com nossos parentes; somos capazes de não aceitar a companhia de nossa mãe numa viagem para buscarmos nossa felicidade perdida em noitadas, que talvez fossem proibidas se ela estivesse conosco.
O ciberespaço é um novo campo, um lugar outro, um lugar que produz um novo estado de barbárie, uma barbárie para além do que fora concebido por T. L. Wiesengrund-Adorno e outros frankfurtianos. Os sites de redes sociais do ciberespaço – Facebook, Hotmail, Twitter, Orkut, MySpace, Messenger, Picasa, Flick, etc. – são imensos aglomerados de pessoas infelizes, pessoas desejantes, pessoas indiferentes a dialética da miséria, pessoas que procuram na infelicidade das outras uma razão para amortecer os efeitos do capital sobre seu próprio corpo.
O ciberespaço é um novo cemitério, um lugar que produz corpos sem corpos, corpos sem solidariedade, corpos sem memória, corpos sem alma, corpos desesperançados, corpos simbólicos cuja única preocupação é estar conectada como o outro que está em algum lugar desse espaço imaginário porque descartam qualquer possibilidade de construírem coletivamente um estado de felicidade com o Outro, com o real, com o concreto, no mais puro sentido elaborado por Karl Heinrich Marx. O ciberespaço é uma nova espacialidade para os efeitos desumanizantes da publicidade capitalista.
“Psicanálise e Capitalismo” é uma obra na qual Clara de Góes esclarece: o capitalismo estruturasse em torno da promessa de um gozo sem limite, com seu modo de produção baseado na produção de um excesso que deve ser gasto no mais curto intervalo de tempo possível, para que maiores quantidades desse excesso sejam produzidas e a seguir consumidas. Quais são os corpos que suportam esse gozo, efeito da produção incessante de um excesso? Os Africanos… a África, o Oriente Médio, as favelas do Rio de Janeiro, a periferia das cidades latino-americanas.
Os traços obsessivo-compulsivos e outras mazelas biopsicossociais se materializam diante do banquete dos insaciáveis seres, ao mesmo tempo, infelizes porque a própria sociedade impõe-lhes determinadas condições de infelicidade; e, sobretudo, desejantes porque conseguem conformam sua subjetividade no consumo. J. B. L de Andrade ressalta que a publicidade contribui decisivamente para configurar o que o filósofo francês Guy Debord intitula como “a sociedade do espetáculo”, uma sociedade na qual se torna difícil saber o que é uma necessidade real e o que é uma necessidade criada pela publicidade.
O efeito da publicidade sobre o homem não pode ser compreendido da mesma maneira como o efeito da camisa-de-força sobre o corpo do paciente esquizofrênico, por exemplo. J. B. L de Andrade esclarece que a publicidade mantem o status quo, mas o consumo não pode ser reduzido à manipulação ou à alienação dos consumidores provocada pelo descontrole da publicidade. Antes, porém, trata-se de dissecar mais ainda tal sistema, todavia tirando do campo exclusivamente econômico a única explicação possível para as ocorrências do consumismo e da publicidade.
Claudio Novais Pinto Coelho contribui com esse modo crítico de pensar a relação entre o indivíduo e o objeto consumido: o conjunto das peças publicitárias funciona como um sistema que captura a dimensão instintiva dos membros da sociedade capitalista, esvaziando a capacidade de sermos sujeitos dos nossos próprios desejos. O consumo de produtos de beleza é consequência de uma infelicidade que é produzida pelo estranhamento com padrões de beleza socialmente chancelados, inclusive aqueles que são produzidos intencionalmente pela indústria da moda.
O sociólogo ensina-nos, ainda, que a publicidade diz o que devemos desejar, por que devemos desejar e como os desejos podem ser realizados, e isso significa que a dimensão instintiva do está colocada a serviço da reprodução da sociedade capitalista… “desejamos o que esta sociedade nos oferece, dela dependemos para a concretização dos desejos, mas esta situação de dependência não é vivida enquanto tal” (como salienta C, N. P. Coelho).
O consumo, como nos ensina J. B. L. de Andrade, é um processo social e cultural, o que torna possível encontrar explicação à força que a publicidade sobre a subjetividade do homem, mas também em nenhuma das esferas cognitivas produzidas pelo homo perussi, a saber: economia, política, comunicação, sociologia etc.. Ou seja, a irracionalidade que subjaz o consumo, o consumismo e o descarte pode ser explicado pelo materialismo histórico dialético tanto quanto pela psicanálise, mas ao mesmo tempo por nenhuma desses estatutos teórico-epistemológicos.

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