5 de julho de 2022
Prancheta 2@3x (1)

Ciência busca confirmar conhecimento dos indígenas

Quem nunca tomou um chazinho, à base de ervas, preparado pelas avós ou mães, para tratar uma gripe, uma dor de estômago, ou mesmo problemas mais sérios como infecção urinária, verminose, gastrite e vários outros tipos de infecções? Tais remédios da natureza antes eram facilmente encontrados nos quintais, cada vez mais raros nas cidades, e se não forem pesquisados, será um conhecimento que se perderá com a extinção dessas plantas, além do mais, a flora amazônica apresenta uma diversidade de espécies com potencial medicinal ainda pouco exploradas pela ciência. Diante dessa oportunidade, um grupo de pesquisadores tendo à frente Elzalina Ribeiro Soares, doutora em Química de Produtos Naturais e Biomoléculas pela Ufam, está querendo comprovar os efeitos benéficos do pobre-velho (Costus spicatus), da escada-de-jabuti (Bauhinia rutilans Spruce) e do mucuracaá (Petiveria alliacea).

Com apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), a pesquisa está sendo desenvolvida em etapas. O processo teve início com a coleta do material feita na feira municipal de Tefé, cidade onde Elzalina é professora do Centro de Estudos Superiores da UEA. Após isso, são realizados estudos bibliográficos para, em seguida, se obter os extratos, mediante extração aquosa e investigação dos extratos aquosos por CCD (Cromatografia em Camada Delgada). Ao Jornal do Commercio, a química deu mais detalhes sobre esse trabalho.

Jornal do Commercio: Por que sua pesquisa se ateve a estas três plantas: pobre-velho, escada-de-jabuti e mucuracaá?

Elzalina Ribeiro: Concentramos nossas pesquisas nessas três plantas, devido estudos anteriores comprovarem serem elas usadas pela população da região do município de Tefé, no formato de infusão, conhecida popularmente como chá, há décadas, quem sabe, séculos.

JC: Até agora o resultado de suas pesquisas comprovou o conhecimento empírico dessa população?

ER: Sim, pois até o momento conseguimos identificar substâncias com atividade anti-inflamatória, já descritas em literatura, no extrato aquoso de uma das espécies estudadas, sendo que tal espécie é usada pela população local para tratar inflamações.

JC: A maioria desses tratamentos é feito com chás. É chá das folhas? Toma-se quantas vezes ao dia, durante quanto tempo?

ER: O chá das folhas do pobre-velho é usado no tratamento de infecção urinária e inflamação (ingestão de uma xícara de chá a cada hora). O chá do caule da escada-de-jabuti é popularmente usado no tratamento de verminose e inflamação (ingestão de duas xícaras de chá por dia). O chá das folhas do mucuracaá serve para tratar infecção, dor nas costas (rim), gastrite e gripe (o chá é utilizado de forma moderada durante o dia).

JC: Outras partes das plantas também têm efeitos benéficos?

ER: Provavelmente sim, já que há grande possibilidade de determinadas substâncias que são responsáveis por certas atividades estarem presentes em outras partes das plantas. O que pode mudar é a concentração dessas substâncias, fazendo com que tenha maior ou menor atividade.

JC: Como se dá o conhecimento empírico? Quem, e como, primeiro descobriu o poder curativo dessas e de outras plantas?

ER: Conhecimento empírico é definido como o conhecimento adquirido através de experiências. É baseado nas percepções que nossos sentidos apreendem do mundo exterior. Então o conhecimento curativo das plantas vem passado de geração para

geração, o que significa que os primeiros a usarem esses conhecimentos foram nossos antepassados, os indígenas.

JC: O que falta para que os fitoterápicos tenham um papel mais importante na manutenção da saúde das pessoas?

ER: Um dos fatores principais é a falta de conhecimento sobre as atividades farmacêuticas das plantas, tendo em vista que grande parte desse conhecimento é passado de geração para geração apenas na forma de um relato, o que acaba se perdendo no decorrer do tempo.

JC: A senhora acha que com a extinção de muitos povos indígenas na Amazônia, imenso conhecimento sobre plantas se perdeu?

ER: Sem nenhuma dúvida. Os povos indígenas continham um grande conhecimento sobre o uso das plantas para tratar diversas enfermidades, e com a extinção desses povos, imensa parte desse conhecimento foi perdido, o que causou um prejuízo sem igual para a comunidade científica nos dias atuais.

JC: Comprovados os poderes curativos dessas plantas, a senhora pensa em pesquisar outras?

ER: Sim, pretendo continuar com essa linha de pesquisa, pois acredito que o estudo fitoquímico de plantas medicinais é de grande importância para o futuro da ciência, tendo em vista que com o aparecimento de novas doenças, devemos procurar novos medicamentos.

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