Como está a atual situação da nossa língua portuguesa

Geralmente em passeatas, protestos e manifestações os participantes, além de gritar palavras ou frases de ordem, levam faixas e cartazes com inscrições que ampliam seus reclamos. O que tem chamado a atenção, no entanto, e já há algum tempo, e virado motivo de piadas deste tipo de indignação escrita, são os erros de português.

Ontem foi comemorado o Dia de Portugal, de onde herdamos nossa língua mater, e Dia de Camões, autor de ‘Os Lusíadas’, uma das obras mais importantes da literatura portuguesa. Numa homenagem à língua que falamos e escrevemos fomos saber como está a situação de nosso idioma. Se ‘tudo vale a pena quando a alma não é pequena’, ou rumando ‘por mares nunca de antes navegados’.

“Os desvios da norma padrão que ocorrem em cartazes não só de manifestantes, mas em anúncios de serviços rusticamente pintados em muros, ou em placas de aviso, não podem servir como gatilho para se quantificar ou qualificar a cultura de alguém”, revelou Glaunara Mendonça de Oliveira, professora de Língua Portuguesa há 17 anos, primeiro na Escola Estadual Saldanha Marinho depois, a partir de 2012 quando esta foi fechada, no Colégio Amazonense Dom Pedro II.

“É possível haver bons pensadores que nunca sentaram numa carteira de escola, como também doutores arrogantes e desumanos quanto às necessidades do outro. Não posso responder quanto a todos os jovens, mas os meus são ensinados a serem críticos, sem desrespeitar o outro, sem agir com preconceito linguístico”, afirmou.

Glaunara leciona em dois turnos, atendendo a uma média de 300 alunos. A maioria deles, adolescentes dos tempos atuais, amantes das redes sociais e não muito chegados à leitura de livros.

“Por muitos viverem nesse contexto virtual, e outros, ainda, em contextos sociais onde a norma padrão da língua portuguesa não lhes é exigida, a maior dificuldade é despertar neles o interesse para as possibilidades que o conhecimento amplo da língua pode lhes oferecer. Quando eles passam a compreender que o conhecimento da língua é poder, nenhum aprendizado a respeito dela é difícil demais”, disse.

Desde criança

Glaunara foi daquelas crianças que desde a mais tenra idade dizem que quando crescer vão ser professores. No caso dela, a menina cresceu e realmente se tornou professora, apaixonada por literatura, desde a adolescência na antiga ETFA (Escola Técnica Federal do Amazonas) atual Ifam, começando sua trajetória profissional no Saldanha Marinho, símbolo do descaso das autoridades com a educação e a história do Estado. O prédio público, secular, está abandonado e sendo destruído há quase dez anos. Mas essa é outra história.

Para muitos é difícil falar, e principalmente escrever corretamente o português. Mesmo os brasileiros mais cultos não seguem as regras formais da gramática o tempo todo quando falam, e às vezes cometem erros ao escrever, mas a professora ensina que isso não é motivo de preocupação. Apaixonada pela língua, Glaunara não a considera difícil, mas complexa.

“A dificuldade para falar uma língua depende do referencial, ou seja, depende de quem está aprendendo a falar. Nossa língua é, sem dúvidas, complexa, e não a colocaria entre as mais difíceis. Há, por exemplo, línguas indígenas tonais (a entonação faz parte da estrutura semântica) que são dificílimas para um falante da língua portuguesa falar e compreender, mas para aquele que a tem como língua materna, é tranquilo falar”, lembrou.

“E é isso que a torna tão rica e bela. O domínio da norma padrão da língua portuguesa torna-se mais fácil quando há essa compreensão da beleza que há na complexidade. Há poesia na complexidade. Descobrir a beleza na língua é a chave para entendê-la”, ensinou.

Adequação linguística

No documentário ‘Língua: Vidas em Português’, o escritor José Saramago defende a hipótese de involução da língua portuguesa, pois acredita que usamos menos palavras, hoje.

“Não tenho, nem de longe o brilhante intelecto dele, mas vejo que, ao mesmo tempo em que algumas palavras caem em desuso, novos vocábulos surgem. A língua é mesmo dinâmica e se adapta às culturas e contextos sociais, por isso é tão difícil entender alguns textos antigos, mas creio que isso seja parte de um processo evolutivo, já que não há apenas perdas”, falou.

Nem os ‘vc’, ‘blz’, ‘pfv’, ‘d+’ tão comumente usados hoje na linguagem da internet, preocupam a professora.

“Isso se chama adequação linguística. Fazemos isso, porque o contexto de redes sociais exige velocidade de resposta, então fica mais fácil abreviar. Um médico usa abreviações como PCR (parada cardiorrespiratória), BEG (bom estado geral), e, esse é o meu preferido, LOTE (Lúcida e orientada no tempo e no espaço), porque o contexto em que trabalham exige velocidade”, contou.

Para facilitar o entendimento dos seus alunos, Glaunara compara a língua com a roupa que usam. Usam roupas de banho nas cachoeiras de Figueiredo, mas não as usam para uma entrevista de emprego.

“Compreender todos os recursos que a língua oferece lhes possibilita estarem adequados aos vários contextos sociais”, revelou e concluiu.

“Amem a língua portuguesa inclusive nas suas variações regionais, sociais, temporais. A língua é de todos os falantes, não apenas dos que dominam a norma estabelecida como padrão. Busquem conhecer a língua em várias literaturas, em vários gêneros textuais, pois gramática sem contexto é língua sem vida, sem poesia”.

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