Comerciantes apostam em altas de 15% a 20% nas festas de fim de ano

Os consumidores de Manaus voltaram a apontar confiança nas compras, em novembro. É a primeira vez que isso ocorre desde o começo da pandemia. Na média, os dados locais da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) para a ICF (Intenção de Consumo das Famílias) revelam um 17º avanço seguido, em ritmo superior ao do país. Mas, assim como em outubro, a alta foi sustentada basicamente pelas famílias com renda mensal de até dez salários mínimos. No mês da Black Friday, foram registradas melhoras na percepção sobre renda, emprego e intenção de adquirir bens duráveis. Mas, desta vez, os progressos foram mais tímidos, e o acesso ao crédito arrefeceu.

O ICF de Manaus marcou 102,3 pontos e já entrou na zona de satisfação (acima dos 100 pontos). Houve aumento de 2,6% ante outubro (99,7 pontos), e um salto de 89,79% sobre o dado de 12 meses atrás (53,9 pontos). Foi a melhor pontuação em mais de três anos, desde março de 2020 (105,2 pontos). Mas, o ganho de otimismo ficou mais uma vez restrito às famílias de renda mais baixa (98,6 pontos), e que ainda não chegaram lá. Os consumidores mais abastados (140,7 pontos), que seguem “confiantes” desde novembro de 2022, quase não saíram do lugar. Embalada pelo fim da estiagem, a Fecomércio-AM estima que as festas de fim de ano devem gerar alta de 15% a 20% para os lojistas locais.

Com isso, Manaus voltou a se descolar da média nacional. O indicador saiu de uma alta tímida para estagnar em todo o país, na passagem de outubro para novembro, segurando-se no quadrante positivo de confiança (104,9 pontos) pelo quarto mês consecutivo. No confronto com novembro do ano passado, houve nova escalada de dois dígitos (+17,9%). Em comunicado à imprensa, a CNC avalia que o repique inflacionário do segundo semestre impactou na percepção de renda do consumidor brasileiro, contribuindo para maior cautela nas compras, apesar da aproximação das festas de fim de ano.

A nova alta da ICF de Manaus seguiu-se à sétima redução consecutiva da média local da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da mesma entidade. Mas, as compras seguem embarreiradas pelo comprometimento de renda de 78,4% (516.085) das famílias com contas antigas. Além disso, a inadimplência subiu pelo segundo mês e atinge 41,1% (270.867) da população. Já o ICEC (Índice de Confiança do Empresário Comercial), também da CNC interrompeu quatro meses de altas tímidas para derreter em outubro, em sintonia com as dificuldades logísticas impostas pela vazante histórica, contribuindo para piora na percepção sobre as condições atuais do setor, a saúde da empresa, e as expectativas de vendas.

Renda e emprego

O ICF de Manaus avançou em seis de seus sete componentes, na variação mensal. Quatro deles reforçaram o patamar de satisfação –ligados à vida profissional, vencimentos e expectativas. Mas, as altas foram mais tímidas, desta vez. As melhores taxas de crescimento vieram do nível de consumo (+8,2%) e renda atuais (+4%), assim como da perspectiva profissional (+6%). Já as percepções sobre as condições de emprego atual (+0,6%), “momento para duráveis” (+0,8%) e perspectivas de consumo (+0,4%) avançaram menos, em um mês negativo para o acesso ao crédito (-1,2%).

O nível de consumo atual ainda é um dos principais fatores que puxam a média de Manaus para baixo. Apesar dos aumentos seguidos, o subindicador aparece com o segundo pior escore da lista (85,6 pontos) –embora as famílias com renda acima de dez mínimos tenham pontuação muito maior (137 pontos). Na média, quase metade dos manauenses (45,3 pontos) está indo menos às compras do que no ano passado, enquanto 30,9% já dizem que estão comprando mais e 22% não veem nenhuma diferença. 

Em contraste, a perspectiva de consumo (110,2 pontos) e a avaliação sobre a renda familiar atual (109 pontos) já estão além da linha divisória da satisfação. A maior parte das famílias de Manaus espera compras maiores nos próximos meses (41,2%), enquanto o grupo que espera cenário inverso (30,9%) voltou a encolher, e 23,8% aguardam estabilidade. Em paralelo, uma minoria cadente de 25,7% dos entrevistados em Manaus diz que a renda familiar piorou em relação ao cenário econômico de 12 meses atrás, ao passo que 34,7% enxergam melhora e a maioria (38,4%) considera que está igual. 

A perspectiva profissional (127,2 pontos) contabiliza o maior escore. Aos menos 55,1% preveem melhora nos próximos seis meses, aumentando ainda mais sua vantagem sobre os que têm opinião contrária (27,8%). Mas, o percentual de indecisos (17,1%) também continua crescendo. O mesmo se dá na situação atual do emprego (110,6 pontos). O grupo dos que se sentem “mais seguros” profissionalmente (30,7%) supera o dos que se dizem “menos seguros” (20,1%), ao passo que 25,9% entendem que está igual –sendo esse o único grupo que ficou maior. Já a cota de desempregados subiu para 23,2%. 

O dado negativo veio do crédito (89,6 pontos): 42,3% consideram que o acesso ainda está mais difícil do que no ano passado. Apenas 32% apontam que ficou mais fácil e 21,7% não veem diferença. Em sintonia, o “momento de aquisição de bens duráveis” (83,8 pontos) já aparece com a pior pontuação da lista. A maioria (52,5%) considera que esta não é a melhor hora para isso e o grupo dos confiantes nas compras estabilizou em 36,4%. Em ambos os casos, a confiança é menor entre as famílias com renda inferior a dez mínimos.

“Processo de recuperação”

No entendimento do presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, a aproximação do Natal e da Black Friday demonstram recuperação no varejo. “Esses sinais, adicionados ao crescimento do emprego, indicam que a economia está entrando em processo de recuperação, e que os consumidores estão recuperando acesso ao crédito – mesmo que em uma quantidade ainda pequena. Isso é muito importante para o setor. Já temos sinais de que a Black Friday vai ser melhor do que no ano passado e nos encaminhamos para a melhor data para o comércio. Em conversa com empresários, imaginamos que podemos ter um crescimento de 15% a 20%”, analisou. 

Texto veiculado pela assessoria de imprensa da CNC, informa que a intenção de consumo das brasileiras (+21,1%) avançou mais do que a dos brasileiros (+15,3%), na comparação anual. A entidade aponta ainda que as famílias se mantiveram desconfiadas em relação ao mercado de trabalho, já que a remuneração média não acompanha o ritmo das contratações. O economista-chefe da entidade e responsável pela análise, Felipe Tavares, assinala que “este foi o primeiro mês, desde agosto do ano passado, em que as famílias de menor renda apresentaram retração na percepção de consumo futuro”.

Mas, diferente do ocorrido em Manaus, a percepção sobre o crédito melhorou. O presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que os dados mostram um cenário complexo para o setor. “Enquanto a queda dos juros trouxe um impulso positivo, a preocupação com a inadimplência e a redução do crédito no mercado impactaram negativamente. Em meio a essa dicotomia, a pesquisa constata que mais de um terço dos consumidores relatam dificuldade para obter crédito, o que demonstra uma delicada balança entre oportunidade e restrição neste contexto econômico”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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