Crônica

Da minha varanda observo que a chuva é torrencial. Não é uma simples chuva. É o que chamamos de toró. Os livros de Geografia as classificam como tempestades tropicais.
Quando há esse tipo de temporal, as telhas, cercas e fiação elétrica podem ficar comprometidas. Árvores desabam e algumas casas ficam totalmente destruídas, assustando os moradores. Nas casas de madeira, muitas vezes as paredes e o telhado são arrancados. Os esteios de sustentação ficam comprometidos.
Um jovem casal de pernambucanos transferidos para Manaus há pouco tempo subestimou o temporal. Deixou um toldo, do tipo tenda, emprestado para uma festa, esquecido no quintal. O peso da água foi suficiente para quebrar os quatro espeques da tenda, danificando-a totalmente.
O fato é que quando chove assim o caboco, que não é bobo, não sai de casa. Não sai nem para o enterro dele. Fica para o dia seguinte.
Na Justiça do Trabalho, quando a chuva é muito forte, faltam muitos reclamantes. As reclamações são arquivadas e os advogados são forçados a novos protocolos. Alegria para os que advogam para empresas. E para os empresários, claro. Só não podem faltar os prepostos das empresas. Se o caboco resolver enfrentar a chuva e a empresa faltar configura-se a revelia.
Mas há muito absenteísmo nas fábricas do Distrito. O fato é que faz parte da cultura. Choveu o caboco se recolhe.
Ninguém se atreve a remar pelo rio Negro. Ocorre o banzeiro, com ondas de seis metros de altura.
Quando menino adorava tomar banho de chuva. Nem sempre tínhamos permissão. Ficaríamos eventualmente gripados. Mas fugíamos para a chuva. Os curumins amazonenses sabem que os pingos de nossas chuvas são grossos, gostosos, fortes, generosos. E o banho é uma delícia.
Ainda menino de calças curtas nos mudamos para Brasília. Estranhei. Chuva fina, fria, sem graça. Não havia meninos na rua tomando banho. Senti saudades de Manaus. Desejei voltar. Voltei 30 anos depois, mas voltei.
Meu sobrinho José Gabriel nasceu em Lima, no Peru. Dizem que não chove por lá. Deve ser verdade. Ainda garotinho ele voltou para o Brasil e viu chuva pela primeira vez. Encantou-se. Chamou seu pai e exclamou extasiado: ”Mira, mira taita”. Taita é papai em quéchua, idioma de sua babá peruana. Além do quéchua, José Gabriel foi exposto ao português e ao espanhol. Acho isso um privilégio.
Volto a admirar a chuva. A luz se apaga. Quando chove assim, temos apagão e a internet não funciona. As TV’s às vezes também saem do ar. Não são só os cabocos nativos e a natureza que se recolhem. As coisas do homem moderno deixam de funcionar.
Não adianta reclamar. Deixei o tablet de lado, coloquei meu calção de banho e fui tomar banho de chuva na área externa do condomínio. Quatro curumins tiveram a mesma ideia e corriam com a bola pelo campinho de futebol. Voltei à infância. Que delícia. Só faltava uma bica com origem numa calha qualquer, daquelas bem fortes. São mais potentes que qualquer chuveiro moderno. Foi uma alegria. E nem fiquei resfriado. Saí cantando: chove chuva, chove sem parar.

Pedro Lucas Lindoso

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