Cheia ameaça abastecimento e preços no Amazonas

Os impactos da cheia recorde deste ano sinalizam deixar o Amazonas sem vias terrestres de ligação, e com alguns de seus municípios isolados, nos próximos dias. Desde sexta (21), a BR-17 (Manaus – Boa Vista) encontra-se com trechos interditados e o mesmo sinaliza ocorrer na BR-319 (Manaus – Porto Velho) que, apesar dos problemas do “trecho do meio”, é um importante modal para o Estado. O temor das lideranças políticas, empresariais e da sociedade civil amazonense é que as interdições gerem mais problemas de desabastecimento e inflação.  

A expectativa é que o nível fluvial do Estado siga em alta até o dia 15 de junho. Na hipótese de que as empresas fiquem sem poder usar as rodovias para receber as mercadorias, haveria ainda a opção do abastecimento pelo modal rodo-fluvial já que o modal aéreo costuma ser usado apenas para produtos leves e de alto valor agregado – a exemplo de componentes eletrônicos –, dado o custo mais elevado da operação. O modal rodo-fluvial, contudo, leva em torno de 20 dias para o translado de mercadorias.   

O problema foi comunicado pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM) ao ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, durante reunião ocorrida na noite desta terça (25). Durante o encontro, o parlamentar também chamou atenção para o curto período de tempo que a pasta terá disponível para levar adiante obras estruturantes no Estado, neste ano (ver boxe), dada a intensidade da cheia deste ano e da aguardada vazante que se seguirá nos próximos meses.

Comunicado do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) informa que, “em virtude das fortes chuvas e da alta dos níveis dos rios em Roraima”, o km 232 da BR-174, próximo ao município de Rorainópolis teve interrupção total do trânsito às 19h desta sexta (21). O mesmo texto informa que as equipes da autarquia realizam serviços emergenciais no trecho. No sábado (22), foi a vez do km 232 da mesma rodovia ficar parcialmente interditado para que as equipes executassem serviços de manutenção.

A expectativa é que o nível fluvial do Estado siga em alta até o dia 15 de junho Foto: Divulgação

Correnteza e isolamento

Ainda não há registros recentes semelhantes do Dnit para a BR-319. O presidente da Associação dos Amigos e Defensores da BR-319, André Marsílio, informa, no entanto que essa é uma possiblidade real para uma rodovia que recebe produtos perecíveis de todos os tipos – “do peixe à melancia” –, além de automóveis e outros produtos. 

De acordo com o dirigente, as águas já estão se sobrepondo em diversos trechos, com a correnteza forte e oferecendo possibilidade de levar trechos da estrada, caso a situação prossiga assim. Para minimizar os riscos aos motoristas, o Dnit chegou a colocar sacos de areia nas margens da rodovia, mas as águas continuam invadindo a pista. O ponto crítico estaria situado entre o município de Careiro da Várzea e a entrada de Autazes.

“Se continuar assim, vai ficar intrafegável mesmo. Nesse caso, esses dois municípios, além de Manaquiri, ficariam completamente isolados. E o risco de desabastecimento seria uma realidade, já que nossa zona rural ainda não tem produção suficiente para atender à demanda de Manaus e de sua Região Metropolitana. Já tivemos cheias recordes antes, mas isso nunca tinha acontecido. É claro que estamos sofrendo uma enchente atípica. Estamos em contato direto com a Polícia Rodoviária Federal, mas creio que o poder público da Infraestrutura tem de estar presente também”, frisou. 

Alimentos e combustíveis

O presidente em exercício da Fecomercio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado Amazonas), Aderson Frota, observa que a BR-174 é o único ponto de ligação de Roraima com o restante do país, sendo sua única opção para receber mercadorias, que costumam vir ou fazer escala em Manaus. Lembra também que a rodovia federal é um canal para o Amazonas receber pescados e bananas do Estado vizinho, entre outros produtos de maior relevância.

“Esses meses foram atípicos e complicados para o comércio e para o Estado, como um todo. É mais um fator que comprova que o Amazonas ainda é um gigante distante e isolado, o que pesa nos nossos custos logísticos. O varejo já sofre problemas pontuais de desabastecimento de alguns produtos e isso tende a piorar, se a situação se prolongar. Um aumento de preços pela redução da oferta também poderia impactar nas vendas. Esperamos que isso não aconteça”, ponderou.

Já o vice-presidente da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), Nelson Azevedo, lembra que um eventual bloqueio prolongado da BR-174 também afetaria o translado de gás e minérios para a capital amazonense, impactando significativamente a economia do Estado. O dirigente observa ainda que, embora o modal rodo-fluvial seja mais em conta, pode levar até 30 dias de translado, enquanto o aéreo segue proibitivo para a maior parte das mercadorias.

“Para a indústria do Amazonas, o impacto não é tão significativo. Mas, para as demais atividades, sim. Especialmente quando levamos em conta o tempo gasto na operação e a importância estratégica do lead time nos negócios”, arrematou, acrescentando que não vê risco significativo de desabastecimento prolongado por esse motivo, embora considere que a possibilidade de novos aumentos mais palpável.

Pouco tempo e dinheiro para muitas obras

Durante a reunião que teve com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, o senador Eduardo Braga manifestou preocupação porque “as janelas de oportunidades” para a realização de empreendimentos no Amazonas serão “muito pequenas”, em virtude do regime atípico de cheias e vazantes deste ano. O parlamentar referia-se não apenas às obras da BR-319, como também às intervenções na rodovia BR-307 e nos portos de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos, Anori, Santo Antônio do Içá, Jutaí, Manicoré e Lábrea.

Segundo o ministro, as obras no lote “Charlie” (entre os kms 198 e 250) da BR-319 devem começar em junho e, no próximo mês, técnicos da pasta devem entregar informações complementares solicitadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis) para conceder o licenciamento ambiental que permitirá a pavimentação dos mais de 400 quilômetros que compreendem o “trecho do meio”. 

Passados 16 anos desde a última intervenção, as tratativas para pavimentação do trecho da BR-307 entre as Terras Indígenas Balaio e o distrito de Cucuí estariam avançando. Conforme o diretor-geral do Dnit, general Antônio Santos Filho, já foram superadas “questões burocráticas” apresentadas por órgãos de mineração e ambiental. As obras no porto de Barcelos devem começar em agosto e as licitações para as instalações portuárias de Lábrea e São Gabriel da Cachoeira estão em tramitação. Quanto aos demais municípios, o ministério aguarda a liberação de recursos federais para levar as obras adiante. 

Foto/Destaque: Divulgação

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