Centro da terra é objeto de estudo virtual

Terremotos como o ocorrido na semana passada no Chile e o que destruiu o Haiti em janeiro são importantes fontes de informação para os geofísicos. Os dados registrados durante os tremores servem não só para os estudos dos abalos em si como também para tentar conhecer melhor o centro da Terra.
Ao ser medido, o tremor em terras chilenas pode ajudar a descobrir a constituição do centro terrestre por onde passam as ondas sísmicas.
A fim de ampliar as fontes de informação sobre o assunto, um Projeto Temático iniciado no dia 1º, apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), visa investigar nos próximos três anos a composição do centro do planeta sem necessitar da ocorrência de abalos sísmicos.
Os pesquisadores ligados ao projeto “Simulação e modelagem de minerais a altas pressões”, reproduzirão por modelos computacionais as condições termodinâmicas a que os minerais estão expostos no subsolo terrestre.
As dificuldades de se estudar o que ocorre no chamado manto terrestre inferior, que compreende profundidades entre 670 e 2.700 km, pressões entre 20 e 130 gigapascais e temperaturas que chegam a 2000º Kelvin, fazem os cientistas lançarem mão de medidas indiretas, como as geradas pelos abalos sísmicos.
“Só para se ter uma ideia, a camada pré-sal do oceano na qual o Brasil vai explorar petróleo compreende profundidades de cerca de 7 km. Isso mostra que conhecemos somente a casquinha do nosso planeta”, comparou o professor da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Temático, João Francisco Justo Filho.
Especialista em modelagem de materiais e em nanossistemas, Justo Filho começou a se interessar por geofísica em 2007, quando atuou como pesquisador visitante na Universidade de Minnesota (EUA).
Na época, o pesquisador notou que não haviam muitos estudos teóricos de materiais submetidos a altas pressões e passou a analisar a influência da pressão no magnetismo.

Novas possibilidades

Uma das hipóteses que a nova pesquisa deverá testar é a dos efeitos das transições dos materiais de um estado magnético para um estado não-magnético. Justo Filho especula que a viscosidade deva sofrer um grande efeito como consequência dessas transições, ou seja, à medida que o material amolece também perde seu magnetismo.
Ao aplicar essas hipóteses em um sistema altamente dinâmico, como é o centro da Terra, o grupo espera correlacionar as propriedades às possíveis combinações de elementos, como ferro, magnésio e oxigênio, que ocorrem nas chamadas áreas de recombinação química.

Coração do planeta é formado principalmente por ferro

O grupo testará modelos geofísicos computacionais baseados em medições indiretas como a de abalos sísmicos e da radiação térmica de corpos negros. O método é uma ferramenta da astrofísica que consiste no registro da radiação captada na superfície de um corpo, no caso a Terra, e emitida pelo seu interior. A medida permite inferir por onde passou a radiação ao analisar sua trajetória desde o núcleo até a superfície.
Um dos objetivos é a elaboração de um mapa de correlação entre temperaturas e profundidades das várias camadas do planeta. “Essa ainda é uma questão em aberto no estudo do manto inferior terrestre”, disse Justo Filho.
Não há como estudar o centro da Terra sem abordar um dos elementos mais abundantes do núcleo incandescente, o ferro. Mas sua concentração ainda é uma incógnita para a qual o Projeto Temático tentará levantar pistas.
O interior do planeta contém primordialmente minerais do tipo óxidos, como o óxido de magnésio e o silicato de magnésio, e várias questões a respeito da incorporação do ferro nessas estruturas permanecem em aberto.
O magnetismo terrestre, que faz o ponteiro magnetizado de uma bússola apontar para o Norte, é atribuído à presença do ferro na composição do planeta.
“O magnetismo terrestre pode estar associado a essas mudanças ocorridas no interior do planeta”, concluiu.

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