Candidatura “puro-sangue”, caso vingue, será um desastre

A cinco meses do processo eleitoral municipal em todo o Brasil, o mestre em Ciências Políticas Breno Rodrigues Leite apontou, em entrevista ao Jornal do Commercio, as muitas opções de candidatura para o próximo pleito em Manaus. Segundo o cientista, o prefeito Amazonino é um forte candidato, mas a força do governo Dilma e do ex-presidente Lula também devem ser consideradas. Breno Leite alertou ainda para o que considera um equívoco do ex-prefeito Serafim Correa (PSB) de lançar-se em uma chapa puro-sangue com o colega de partido, Marcelo Ramos. Para o cientista, o eleitor brasileiro é “dócil, controlado e extremamente emotivo”, mas não pode ser subestimado.

Por Lucas Câmara

Jornal do Commercio – Qual a sua avaliação da atuação dos vereadores de Manaus nesta 15.ª Legislatura?

Breno Rodrigo de Messias Leite – No conjunto, avalio a atuação de forma positiva. Ao contrário de certa percepção comum, a CMM (Câmara Municipal de Manaus) é uma Casa muito mais democrática, pluralista e aberta às demandas populares do que a ALE-AM (Assembleia Legislativa do Amazonas), por exemplo. Por ter todas estas características, talvez seja o poder mais tenso, o que só credita responsabilidade à Casa. Na Câmara, a oposição existe e tem voz ativa, inclusive com prerrogativas de veto, fato que problematiza positivamente o jogo institucional entre os vereadores (oposição e base de apoio) e o prefeito da cidade.

JC – Acha que haverá bom índice de renovação na CMM ou alto grau de reeleição em 2012?

BL – Em democracias representativas, elevadas taxas de renovação são prejudiciais para um papel mais autônomo na Câmara. Em geral, o vereador de primeiro mandato tem pouca ou nenhuma experiência política. Para se adaptar a rotina institucional da Casa (regimento interno, lei orgânica municipal, padrões de barganha e negociação etc.) o tempo é um elemento importante na pedagogia do poder. Quando o vereador finalmente consegue entender plenamente o funcionamento do Poder, inclusive em seus meandros constitucionais, já é tempo de novas eleições. Nos EUA, França e Inglaterra, por exemplo, as taxas de rotatividade partidária no Legislativo são muito baixas. Tradicionalmente, o Amazonas renova 1/3 tanto na Câmara Municipal quanto na Assembleia Legislativa.

JC – Qual o partido mais coerente e consistente no Amazonas e quais as legendas mais decadentes?

BL – As democracias representativas são cíclicas e a volatilidade partidária acompanha o mesmo princípio. Partidos não entram em concordata ou em falência. Em crise, sim. Partidos em crise de identidade se reinventam em fusões, alianças pontuais ou estratégias políticas de diferenciação (como foi o caso do DEM). Para ser mais preciso, é melhor esperarmos o fechamento das urnas para, assim, darmos algum veredicto sobre os rumos e o futuro dos partidos políticos no Amazonas.

JC – Quais as principais opções de Amazonino Mendes, Omar Aziz e Eduardo Braga para as eleições deste ano?

BL – O catálogo de estratégias é enorme, o que dificulta a análise de cenários. Amazonino é um candidato fortíssimo; Omar Aziz pode apoiar Amazonino ou indicar uma alternativa; Eduardo Braga é o líder do governo Dilma Rousseff, cargo estratégico para todo político que ambiciona voos mais altos na política nacional. Outra variável que deve pesar em qualquer análise dos rumos das eleições municipais é o posicionamento do governo Dilma. Um apoio mais nítido da Presidência da República ou mesmo de Lula, ancorado no sucesso dos programas sociais de transferência da renda, pode sinalizar uma ampliação da coloração de apoios políticos e sociais e, por conseguinte, de retornos eleitorais.

JC – O prefeito Amazonino insiste em afirmar que não será candidato à reeleição. O que há por trás deste posicionamento?

BL – Não podemos levar a sério este posicionamento do prefeito. Trata-se de um blefe gaullista no sentido de barganhar mais apoio e legitimidade. Amazonino não tem o que perder. Devemos observar o discurso com muito cuidado: ao dizer pelos quatro cantos da cidade que não é candidato, Amazonino capitaliza ainda mais apoio. Como se trata do incumbente, o seu desafio é enfraquecer ainda mais a base de apoio de seus adversários. Deve-se observar ainda que em qualquer cenário de impasse entre os competidores, o único favorecido é o incumbente, portanto, o próprio Amazonino Mendes.

JC – A estratégia do PSB em lançar uma candidatura “puro-sangue” com Serafim Corrêa candidato a prefeito e Marcelo Ramos como vice é uma boa estratégia? Como ficam as alianças?

BL – A estratégia de candidatura “puro-sangue”, caso vingue, será um desastre e uma perda de capital político significativo tanto para Serafim Corrêa quando para Marcelo Ramos. Nos anos de 1980, o PT investiu muitas vezes nesse tipo de estratégia e nunca conseguiu nada. Outra estratégia equivocada é aquela que diz que uma candidatura deve “marcar posição”. Essa modalidade de amadorismo político já deveria ter ficado para trás. A lógica da política brasileira é transformar coligações eleitorais em coalizões partidárias de governo. Parafraseando Pompeu, “governar é preciso, viver não é preciso”.

JC – O eleitor de Manaus está mais consciente de seu papel neste processo?

BL – O saber convencional diz que o eleitor brasileiro é dócil, controlado e extremamente emotivo. Tem-se a impressão ainda de que as eleições no Brasil são fraudulentas e o eleitor é incapaz de tomar decisões racionais. Esta leitura é equivocada e eivada de preconceitos. Eleições são realizadas no Brasil desde o período imperial, ainda no século 19. Iniciamos a República e as eleições se mantiveram com relativa periodicidade. O único hiato eleitoral foi no período autoritário de Getúlio Vargas, quando os direitos políticos foram suspensos, a fim de se implantar um amplo arco de direitos sociais. Ao longo do regime militar, as conturbadas eleições legislativas foram estratégicas para o fortalecimento da oposição civil sitiada no MDB. A institucionalização da democracia brasileira tem apresentado resultados muito positivos sob todos os aspectos. Aliado ao processo de sofisticação eleitoral, tenho observado algumas iniciativas populares, com respaldo institucional do Poder Judiciário, onde o melhor exemplo é o projeto Ficha Limpa, que inviabilizam projetos personalistas e sem permeabilidade social.

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