Campeões no tatame e na vida

Evaldo Ferreira
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Jiu-jitsu (do japonês: ju: suavidade, brandura + jutsu: arte, técnica). A luta, um misto de alavancas, torções e pressões para derrubar o oponente, se desenvolveu e se refinou entre os samurais (entre 930 e 1877). Chegou a Manaus em 1906 e se enraizou na cidade, já tendo formado grandes lutadores, inclusive se tornado um meio para a inclusão social de muitos dos seus praticantes.
A academia de jiu-jitsu mais antiga em atividade, em Manaus, é a Academia Monteiro, dos irmãos Yano, Guto, Fábio e Lúcio, todos advogados (Fábio é procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Amazonas) e todos lutadores de jiu-jitsu. Fundada em 10 de janeiro de 1988, atualmente é Guto quem está à frente das 22 academias espalhadas pela cidade.
“Começamos a lutar ainda garotos, aqui em Manaus, e quando entramos na faculdade, fomos para o Rio de Janeiro onde treinamos na academia Gracie Humaitá e tivemos a oportunidade de ter como mestres os filhos de Hélio Gracie”, falou Guto.
Em 1988, Guto e Yano, já formados, voltaram a Manaus e fundaram a academia. “Era uma academia de fundo de quintal, um tatame coberto onde treinávamos, a família e amigos, mas aí a coisa foi crescendo e ficando séria”, recordou.
Atualmente, 28 anos depois da fundação da academia, Guto acredita que já passaram uns dez mil alunos pelas 22 filiais da Monteiro existentes em Manaus. “Temos hoje em torno de 1.500 e 2 mil alunos aprendendo jiu-jitsu e também MMA. Em cada campeonato local levamos cerca de 700 atletas. Como as academias não são o nosso meio de vida, pois todos exercemos a profissão de advogados, quem não pode, não paga. Esse é o segredo de termos tantos campeões. Como nossos alunos são jovens com quase nenhum recurso financeiro, eles veem na luta uma forma de vencer nos tatames e na vida”, informou.
Orgulhoso, Guto chegou na segunda-feira (6) da Califórnia, nos Estados Unidos, trazendo o filho Adriano, 16 anos, e uma medalha de bronze conquistada pelo garoto no mundial da luta. “Ele gosta de lutar e deve continuar o que eu e seus tios começamos”, ressaltou.

Nesta quarta-feira (8) quem será homenageado na Assembleia Legislativa do Amazonas será o lutador carioca André Pederneiras, também conhecido como técnico do amazonense José Aldo, e um dos proprietários da academia Nova União, com sede no Rio de Janeiro e filiais em todo o Brasil e, lógico, em Manaus, onde possui cerca de 50 academias afiliadas.
Em 1984, aos 17 anos, André Pederneiras começou a lutar na academia Upper Sports Club e, aos 22, recebeu a sua faixa preta das mãos de seu mestre Carlson Gracie. Em 1995 inaugurou a primeira Nova União, no Rio de Janeiro. Até ontem (7) André Pederneiras estava em São Paulo, para o lançamento de “Mais forte que o mundo”, filme que conta a trajetória do lutador mais ilustre de Pederneiras, José Aldo. De madrugada o lutador/empresário viajou para Manaus onde receberá, na manhã de hoje, o título de Cidadão do Amazonas pela sua contribuição ao desenvolvimento do desporto no Estado e por ser um formador de campeões.
Em Manaus o coordenador para a região Norte de todas as afiliadas da Nova União é o mestre Nonato Machado, que conquistou sua faixa preta em 1980, quando tinha 18 anos. “São tantas as academias afiliadas à Nova União, mais ou menos umas 50, que fica difícil dizer quantos alunos nós temos na atualidade porque é um entra e sai muito intenso, mas posso garantir que são alguns milhares”, disse. Da mesma forma que nas academias Monteiro, nas Nova União também quem não pode pagar, não paga.
“E fazemos um acompanhamento dos nossos alunos tanto em casa quanto na escola. Até temos um intercâmbio com as escolas para melhorar essa parceria. Os alunos têm que ir bem em casa e na escola para se darem bem aqui”, completou.

Manaus, o berço do jiu-jitsu

O professor e historiador Aguinaldo Figueiredo, em seu livro “Os samurais das selvas – a presença japonesa no Amazonas”, descreve como os primeiros lutadores de jiu-jitsu chegaram a Manaus, em 1906, e como daqui a luta se espalhou para o resto do país, conforme falou ao JC.

Jornal do Commercio: Quando, exatamente, chegaram os primeiros lutadores de jiu-jitsu a Manaus?
Aguinaldo Figueiredo: De acordo com notícia publicada pelo jornal “O Amazonas”, o registro da presença dos primeiros grandes lutadores de artes marciais japonesas em Manaus foi em 6 de maio de 1906, ou seja, há 110 anos.

JC: Quem eles eram, de onde vieram e por que vieram?
AF: Eram os lutadores Sakamoto, Ynasake e Shimizu, que excursionavam pelo mundo fazendo apresentações e divulgando suas artes marciais, mas não lutaram em Manaus. A visita a nossa cidade a época deveu-se, obviamente, ao momento de esplendor que a mesma vivia por conta da economia da borracha.

JC: Como a luta começou a se enraizar em Manaus?
AF: Oficialmente a primeira luta envolvendo os mestres nipônicos Akishima Sadachi e Suiostos Ki, no circo Coliseu Metálico, montado na Praça da Saudade, ocorreu no dia 18 de novembro de 1906, de acordo com nota publicada pelo mesmo jornal “O Amazonas”. Depois veio, em 1915, a trupe de lutadores de Mitsuo Mayeda, o conde Koma, e seus companheiros Nobuchiru Satake e Sadakazu Uyenishi “Raku”, que permaneceram mais tempo na cidade criando sólidas raízes com a sociedade local.

JC: Quando surgem os Gracie?
AF: Os Gracie surgiram na década de 1920. Gastão Gracie era empresário dos japoneses em Belém e seu rebento, Carlos Gracie, frequentava o dojô de mestre Koma, só isso. Os Gracie criaram estilo próprio e o divulgaram no Sudeste do Brasil, que depois tomou o mundo.

JC: Manaus, então, foi o berço do jiu-jitsu no Brasil?
AF: Sim, depois das empolgantes lutas do grupo de Koma, mestre Satake fundou sua academia de lutas na cidade, assim como mestre Raku, e tiveram excelentes alunos, que se destacaram e tiveram grande importância na consolidação das artes marciais no Amazonas, a exemplo do professor Guilherme Nery entre tantos outros.

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