Câmbio volátil desequilibra PIM

A apreciação do real frente ao dólar tornou os preços dos importados –principalmente aqueles fabricados na China– mais atraentes para o consumidor brasileiro frente aos similares produzidos no PIM (Polo Industrial de Manaus) e tende a comprometer as exportações, segundo avaliam os economistas e lideranças da indústria ouvidas pelo Jornal do Commercio.
Os economistas entrevistados destacam ainda que a descida do dólar também trouxe vantagens para o polo, ao facilitar a importação dos insumos do setor, reduzindo custos industriais e permitindo que as empresas adotem tecnologias mais modernas, um fator que permitiria aos manufaturados da ZFM (Zona Franca de Manaus) se destacarem em qualidade frente à invasão dos importados. Para a indústria, em contrapartida, a vantagem não é suficiente para se equiparar aos custos trabalhistas embutidos nos produtos do polo.
Nos últimos anos, a abundante entrada de capitais no país pela compra de ações na bolsa de valores, pelo investimento direto na criação e ampliação de companhias em território nacional, e até mesmo pela retomada das exportações brasileiras –em especial de commodities- volatizaram o câmbio, com nítida vantagem do real frente ao dólar.
A tendência foi brevemente interrompida no fim do terceiro trimestre de 2008 com a crise financeira global iniciada pela quebra do banco Lehman Brothers nos EUA. O dólar, que chegou a ser cotado a R$ 1,60 em agosto de 2008, disparou e chegou ao pico de R$ 2,20 em fevereiro de 2009. O fortalecimento da economia nacional e a boa remuneração do governo federal sobre a venda de títulos de dívida pública, uma vez que os juros brasileiros ainda são altos para os padrões internacionais, contribuiu para a retomada da alta do real. O enfraquecimento global do dólar por conta da crise completou o quadro.

Produtos importados

De acordo com o presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado do Amazonas), Wilson Périco, a apreciação do câmbio comprometeu a indústria do polo, uma vez que os produtos importados passaram a chegar ao país com menor custo, principalmente pelos portos do Sul do país, prejudicando a comercialização de similares manufaturados na capital amazonense.
O dirigente dá como exemplo o caso dos reprodutores e gravadores de DVDs. Os indicadores de desempenho da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) mais recentes apontam que a produção dos aparelhos em Manaus caiu 41,89% na comparação de agosto de 2009 com igual período do ano passado, de 5.37 milhões (2008) para 3.12 milhões de unidades (2009).
“Há uma tendência do real continuar a se valorizar frente ao dólar, pois há previsão de entrada no país de mais de US$ 30 bilhões em 2010”, destacou o presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Maurício Loureiro.

Dólar barato contribui para qualidade do produto

O presidente do Corecon/AM (Conselho Regional de Economia do Amazonas), Ericvaldo Lopes, não vê grandes problemas para o Amazonas quando se analisa apenas o câmbio. “Como nosso maior mercado é o interno e temos qualidade nos produtos frente aos chineses (que são a maioria dos importados), adequados os custos pela paridade cambial em muitos produtos, os nossos ganham em competitividade”, ponderou.
O economista e consultor empresarial, Assis Mourão, considera que o câmbio cadente é bom para o PIM. “O câmbio barato ajudou o PIM na aquisição de insumos, equipamentos e tecnologia. Quem ganha é o consumidor brasileiro. Verifique se as campanhas dos principais magazines do país são feitas com produtos chineses. Duvido”, provocou.
Pelo mesmo raciocínio, destaca Mourão, seria “simplório” dizer que montadoras tradicionais como a Honda estão perdendo mercado para marcas chinesas “desconhecidas e baratas”. “Quem vai prestar assistência técnica em nível nacional e repor peças? A Honda, por exemplo, é um exemplo de redução de custos: está obrigando os fornecedores, que antes estavam em São Paulo, migrarem para Manaus fornecerem pelo sistema “just in time” em Manaus”, assinalou o consultor empresarial.

Vendas externas vão ser “sacrificadas”, garante Cieam

Quanto às exportações, o presidente do Sinaees, lembra que, na composição do custo dos produtos, os itens nacionais ficaram mais caros em dólar, fazendo com que o manufaturado brasileiro perca competitividade para outros países.
“As exportações são sacrificadas, pois competem com produtos mundiais com diferente formação de custos. A industrialização na ZFM no que diz respeito às vendas externas não retira do custo do produto a força de trabalho”, concordou Maurício Loureiro.
A diferença viria principalmente, segundo o executivo, da mão-de-obra. “Mesmo que os insumos sejam importados a menor custo, os trabalhadores recebem em reais. Há um custo maior agregado e com encargos sociais e trabalhistas contribuindo para o aumento. O Brasil exporta o custo dos encargos sociais e trabalhistas como valor agregado, coisa que poucos países fazem”, desabafou.
Já o presidente do Corecon/AM é menos pessimista. “Dos produtos com maior peso nas exportações do Amazonas -telefonia celular, duas rodas e injetados plásticos, apenas o segundo recuou nas vendas externas, em torno de 13%. Em compensação, injetados plásticos aumentaram 32% e celulares 38%. Os números tendem a ser menores, mas em função de outras situações, não apenas e tão somente por conta da valorização do Real”, assinalou.
Assis Mourão destaca que os gargalos do PIM passam mais perto da infraestrutura do que do câmbio. “A ZFM foi criada para ser importadora de insumos e equipamentos. Logo, fica difícil dizer qual setor não depende da taxa de câmbio. Mas, com a constante elevação da produtividade no setor exportador, a despeito de quedas no câmbio, temos aumentado as vendas externas”, amenizou.

Taxação de capital estrangeiro cria polêmica

O presidente do Corecon/AM considerou satisfatória a medida de aumentar a taxa de IOF para 2% em investimentos estrangeiros em bolsas. “É prova de amadurecimento da política econômica. Não se pode dizer que vai frear a queda do dólar, mas sinaliza ao mercado que o Brasil está atento às possíveis bolhas provocadas por oportunistas de plantão. Há uma busca de equilíbrio e, nisso, o PIM também seria contemplado”, opinou.
Para o presidente do Cieam, o governo federal deveria intervir no assunto de forma pontual. “É uma medida que poderá não trazer resultados no curto prazo, se considerarmos que a entrada de capital -especulativo ou não- trabalha com a lógica da remuneração de financiamento da dívida pública brasileira”, considerou.
Na visão do dirigente, a medida não se aplica ao PIM, pois foi tomada em função do capital especulativo. “São medidas paliativas. Uma vez optado pelo câmbio flutuante e remunerando o capital externo satisfatoriamente, não há como controlar fluxos”, frisou.
“Para o PIM, em especial o segmento eletroeletrônico e de componentes, o dólar barato não é bom, mas temos de encontrar maneiras de continuarmos competitivos, reduzindo custos e aumentando produtividade. O governo poderia reduzir carga tributária e encargos trabalhistas. Com isso, poderíamos continuar competindo”, concluiu Wilson Périco.

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